A música da fome, de J. M. G. Le Clézio


Ficha técnica
TítuloA música da fome
Autor – J. M. G. Le Clézio
Editora – Publicações Dom Quixote
Páginas – 188
Datas de leitura – de 09 a 14 de julho de 2017


Opinião
Quase quatro meses depois, as leituras em conjunto com a Isa e a Márcia regressaram aqui ao blogue, desta vez com uma sugestão minha. Descobri Le Clézio o ano passado, com Estrela Errante (ver opinião aqui) e nunca mais consegui esquecer o turbilhão de emoções que senti ao ler a história de Esther e Nejma e o quanto me deixei embalar pelo lirismo e a magistralidade do estilo de Le Clézio. Por isso, não hesitei em sugerir que a segunda leitura que faço com as minhas queridas colegas destas andanças blogueiras fosse de uma obra deste autor francês galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 2008.
A escolha recaiu em A música da fome, também ela protagonizada por uma menina que vai crescendo ao longo da narrativa. Ethel é a única filha de Alexandre e Justine, mas é com o seu tio-avô – Monsieur Soliman – que dá longos passeios e é dele que ouve histórias que a fazem conhecer o mundo. “Ethel sente-se orgulhosa junto de Monsieur Soliman. Tem a impressão de estar na companhia de um gigante, de um homem capaz de abrir caminho em qualquer desordem do mundo.” Contudo, o seu tio-avô é um senhor idoso que adoece e morre antes de Ethel completar treze anos. Só no mundo, apesar de frequentemente ter a sua casa “atolada” de convidados dos pais, a jovem protagonista busca companhia e afetos em Xénia, companheira de escola, filha de uma refugiada russa – uma “mancha loura, um clarão” em “todo aquele cinzento”. “Finalmente encontrei uma amiga”. Será na sua companhia que Ethel desabrochará. Tudo fará para agradar à sua nova amiga e simultaneamente perderá qualquer resquício de inocência que ainda pudesse habitar em si. Compreenderá que na vida não há nada linear, que é apenas mais um peão no correspondente jogo manipulado por quem deveria ser a sua melhor amiga e por quem deveria amá-la e protegê-la incondicionalmente.
Nas páginas iniciais travamos conhecimento com uma Ethel de apenas dez anos, que segue de mão dada com Monsieur Soliman e se maravilha com tudo o que descobre ao seu lado. É uma criança que se sente acarinhada, apoiada e amparada. Porém, a morte deste tio, deste avô, deste gigante que vence tudo e todos, deixa-a só, carente, privada de afeto, de cumplicidade. Passará a ser um alvo fácil daqueles que sentem prazer em dominar, daqueles que não olham a meios para atingir os seus fins. Crescerá como pode. Verá a sua família ser despojada de praticamente todos os seus bens materiais e a ter que sobreviver à falência económica e a uma guerra que os obrigará a ser refugiados dentro do seu próprio país. Passará fome. Aceitará o amor que um jovem lhe oferecerá. Mas nunca mais recuperará a inocência, a confiança. Nunca se abrirá totalmente a ninguém, porque ninguém lhe saciará a fome, nunca ninguém lhe restituirá esses momentos mágicos e completos que experienciou nos longos passeios que dava com o seu tio-avô, nos momentos em que descobria o mundo através das histórias de Monsieur Soliman.
Quando se lê um autor pela segunda vez (ou pela terceira, quarta…), é impossível não estabelecer comparações. Como é óbvio, estabeleci-as entre Estrela Errante e A música da fome e as conclusões são evidentes – a escrita continua sublime, introspetiva, contida e digna de ser conhecida e admirada por todos. Tanto uma narrativa como a outra estão muito bem construídas, com pinceladas de História que nos tornam mais instruídos, mais conhecedores. Mas se comparo as protagonistas, afirmo sem nenhuma dúvida que o meu coração, as minhas emoções pendem para Esther e Nejma de Estrela Errante, porque não perderam totalmente a candura, a esperança, a vontade de viver, porque sofreram horrores indescritíveis e ainda mostram vida no olhar. O mesmo não se pode dizer de Ethel. É muito mais difícil criar laços com a protagonista de A música da fome. Talvez porque está seca, porque se deixa levar pela vida quase sem reagir, sem esbracejar. Talvez porque deixou há muito de sentir que pertence verdadeiramente a alguém.
Poderia assim, após o que referi até ao momento, afirmar que esta leitura fora a terceira do mês a ficar aquém das expetativas. Mas não estaria a ser completamente sincera, pois, por um lado, há algo que me prende a Ethel – compaixão, vontade de a abanar – e, por outro, o final da narrativa, o desenlace da história de Ethel que coincide com os primeiros dias do pós Segunda Guerra Mundial deixaram-me com lágrimas nos olhos, sobretudo aqueles fragmentos que remetem para a rusga e aprisionamento de judeus no Velódromo de Inverno em 1942 e consequente deportação para os campos de extermínio. Recordei outras leituras (sobretudo a da obra Chamava-se Sara) e constatei a ironia que está por detrás da proximidade entre as datas da Tomada da Bastilha – 14 de julho – e a desse episódio negro na História francesa – 16 de julho. Resumindo, uma leitura não tão poderosa como a de Estrela Errante, mas uma leitura que ainda se mantém comigo e que me levará a ler de novo Le Clézio.
Para terminar, tenho que referir que esta leitura a três foi tão saborosa como a sua antecessora, pois conduziu a uma nova partilha de ideias, apontamentos e opiniões. Todas somos unânimes em afirmar que há que repetir a experiência muito em breve, pois ler com companhia tem um gostinho bem melhor!

Deixo aqui o link para poderem aceder à opinião da Márcia e da Isaura – cliquem no nome de cada uma (para já ainda não estão disponíveis).

NOTA – 07/10

Sinopse

Ethel Brun é filha de um casal de exilados, formado por Justine e Alexandre, um homem afável e irrequieto que muito jovem deixou a ilha Maurícia e que, na alegre Paris dos anos 20 e 30, se dedica a delapidar a herança em negócios pouco recomendáveis. Na infância, o único prazer de Ethel é passear pela cidade com o seu tio-avô, o excêntrico Samuel Soliman, que sonha ir viver para o pavilhão da Índia Francesa construído para a Exposição Colonial. E, na adolescência, Ethel conhecerá algo parecido com a amizade pela mão de Xenia, uma colega de escola, vítima da Revolução Russa e que vive quase na miséria. O bem-estar de Ethel começa a resvalar quando, nas refeições que o seu pai oferece a parentes e conhecidos, se repete cada vez mais o nome de Hitler. Serão os primeiros sinais do que ameaça a família Brun: a ruína, a guerra, mas, sobretudo, a fome. Ela marcará o despertar da jovem Ethel para a dor e o vazio, mas também para o amor, num romance em torno das origens perdidas, durante uma época que culminou com um apocalipse anunciado. 

Vitória - de amor e de guerra, de Luísa Beltrão


Ficha técnica
TítuloVitória – de amor e de guerra
Autora – Luísa Beltrão
Editora – Manuscrito
Páginas – 294
Datas de leitura – de 03 a 07 de julho de 2017


Opinião
Segunda leitura do mês. Segunda leitura que não me preencheu…
Este livro veio da estante do maridinho. É um romance histórico, ambientado principalmente nos últimos anos da Primeira Grande Guerra e que, de acordo com a sinopse, prometia uma viagem entusiasmante pelos meandros da guerra e do amor. Protagonizado por Vitória, uma jovem portuguesa que decide acompanhar o marido, soldado do CEP, Corpo Expedicionário Português, na sua ida para a frente de combate, este romance que me fez estrear no mundo literário de Luísa Beltrão, permite-nos, por um lado, acompanhar o horror das trincheiras, de combates que chacinam milhares e milhares de vidas inocentes e completamente despreparadas para o combate bélico e, por outro, através de vários membros da família de Vitória, conhecer com mais detalhe o contexto político-social de Portugal desde meados e finais do século XIX até aos primeiros anos do século seguinte.
Se tivermos apenas em conta esta contextualização histórica de cores nacionais e a que abarca a Primeira Guerra Mundial, posso afirmar, sem dúvida alguma, de que gostei muito desta leitura. Recordei factos, aprendi outros e fiquei ainda com mais vontade de conhecer a zona norte de França, compreendida entre Lille, Arras, Amien, tão presente na narrativa e onde o CEP e soldados de muitos cantos do mundo se entrincheiraram como toupeiras em busca de um desenlace de uma contenda mortífera.
Contudo, se tivermos em conta a parte ficcionada e acima de tudo as personagens, então tenho que fazer um esforço enorme para encontrar algo, um pormenor que me tenha cativado. Infelizmente, excetuando o avô de Vitória, um homem de carácter forte, íntegro e cuja personalidade e consistência não deixam ninguém indiferente, não fui capaz de sentir nada mais do que indiferença e frieza por todas as outras personagens. Vitória deveria ter sido mais “apaparicada” pela autora, é uma personagem quase sem alma, a forma como nos é apresentada e como evolui ao longo da narrativa não nos aquece, não nos faz sentir compaixão dela quando sente falta dos filhos que deixou para trás para acompanhar o marido, não há chama nem calor nas relações que mantém com os mais próximos e sinceramente não entendi o porquê da autora a ter cruzado com Andrew, um soldado que dá entrada no hospital onde Vitória trabalha. Se o propósito era que essa relação entre enfermeira e paciente se transformasse num dos pontos altos da história, então creio que esse propósito falhou, porque não me fez sentir mais empatia por Vitória, não a fez crescer como personagem, como mulher, como uma jovem que poderia sentir pela primeira vez emoções vivas e não mornas.
Outro dos aspetos que contribuíram para que esta leitura não me preenchesse foi o estilo de escrita da autora. Não me senti confortável com a ligação entre ideias, entre orações, entre frases. Senti frequentemente falta de conectores, de organizadores de discurso para que este se tornasse mais fluído. Pressuponho que a autora queira aproximar a escrita à oralidade, ao discorrer do pensamento, mas, para mim, essa tentativa resulta forçada, artificial.
Somando tudo o que referi até ao momento, talvez esteja a ser um pouco intransigente, mas que a autora, a quem continuarei a respeitar, me perdoe, porque apenas gostei (e muito) da apurada investigação histórica que fez e que se reflete na contextualização epocal da narrativa. A outra parte, a ficcionada, aquela que terá que mexer comigo num romance qualquer que leia, não produziu o efeito desejado, não me aqueceu. Com muita pena minha…

NOTA – 05/10

Sinopse
Na madrugada de 4 de novembro de 1917, quando faziam exatamente cento e três dias sobre a saída de Vitória de Lisboa, Andrew dava entrada no hospital de Arras. E a vida de Vitória altera-se para sempre. Desde que entrara no cenário de guerra, um cenário onde numa questão de segundos se podia viver ou morrer, ficar louco, cego ou sem braços, Vitória aprendera que a vida nos conduz, de forma sinuosa, para constantes acasos. Chegara a França para acompanhar o marido, soldado do contingente português na Primeira Guerra Mundial, deixando para trás os filhos e a família tradicional que a moldara. Ela era apenas um elo de uma longa cadeia que vem de trás e se continua. Um acaso fá-la ingressar no corpo de enfermagem como voluntária num hospital inglês e, por outro acaso, estava de serviço naquela madrugada em que ficou incumbida de cuidar do soldado da cama sete. Um herói de guerra, médico, celebrizado nas trincheiras por salvar vidas.

Luísa Beltrão regressa à escrita com um romance poderoso de amor e de guerra. Pelos olhos de Vitória vemos passar a calamidade do conflito que assolou a Europa, conhecemos a história de uma família dividida pela guerra, através dos diálogos com Andrew questionamos o sentido da vida e das nossas expectativas. E sentimos a solidão, aquele vazio assustador que antecede a esperança. 

O sentido do fim, de Julian Barnes


Ficha técnica
TítuloO sentido do fim
Autor – Julian Barnes
Editora – Quetzal
Páginas – 152
Datas de leitura – de 29 de junho a 03 de julho de 2017


Opinião
A primeira leitura do mês não me preencheu… A escrita do autor é irrepreensível, o final é surpreendente, mas simplesmente não consegui criar laços com nenhuma personagem, muito menos com o protagonista, Tony Webster.
O sentido do fim está dividido em duas partes.
A primeira retrata a juventude do narrador e da sua pandilha. São quatro rapazes “à espera que nos soltassem para a vida”, com “fome de livros, fome de sexo”. Tony, Colin, Alex e Adrian, o último a juntar-se à pandilha, são jovens dos subúrbios, que olham com gula para o que o futuro lhes pode reservar e que vivem teorizando, discutindo, partilhando ideias e leituras, mas cuja visão da realidade pouco ou nada tem de concreto, de realizado.
Apesar de ser o mais recente elemento do grupo, Adrian apresenta-se para os restantes como sendo o mais inteligente dos quatro, como sendo aquele que provém de uma família desestruturada e, como tal, mais interessante e como sendo o que seguramente será brindado com um futuro mais promissor. Os restantes em nada se destacam uns dos outros, apenas vamos seguindo com mais detalhe o dia-a-dia de Tony porque é ele o narrador desta história.
Na segunda parte da obra saltamos para o presente – “Agora estou reformado” – e compreendemos que a vida de Tony se mantém estagnada, ou, como o próprio afirma não se desenvolvera, só se acrescentara. “Tinha havido soma – e substração – na minha vida, mas quanta multiplicação? Isso deu-me um sentimento de mal-estar, agitação.” Divorciado, mantém uma relação amigável com a ex-mulher e uma relação cordial com a filha. O resto é composto por ninharias. Uma existência cinzenta que vai ser agitada pela chegada de uma carta que o vai fazer pôr em causa muitas das certezas absolutas em cima das quais construíra os alicerces da sua vida adulta.
Como se depreende de tudo o que referi, a premissa desta obra é deveras apelativa e encaixa perfeitamente no que busco nas minhas leituras. Contudo, volto a dizer que não fui capaz de me ligar ao seu conteúdo e sobretudo às suas personagens. Tony é fraco, muito pouco ambicioso, volúvel e parece estar sempre à procura da aprovação dos outros. Adrian prometia uma lufada de ar fresco, envolvia-o uma aura de mistério e aparente desinteresse por o que os outros pensavam dele, mas sai da narrativa demasiado cedo. Veronica, a personagem feminina de mais relevo, é contraditória, provocante, bule com os nervos dos outros e dos leitores, mas chega-nos de forma insuficiente e nunca ficamos a conhecê-la verdadeiramente. Três personagens imperfeitas, humanas, mas que, pelos motivos que explanei, foram soçobrando ou, no caso de Tony, mantendo-se muito planas praticamente durante toda a narrativa, sofrendo apenas umas ligeiras mudanças no final. Um final que é surpreendente, mas que não compensa o restante. Pelo menos para mim não compensou.
Não sei se voltarei a ler Julian Barnes. A sua escrita é muito boa, há passagens de uma simplicidade e clareza memoráveis, mas se a isso não estiverem associadas personagens que cheguem até mim e com as quais estabeleça alguma ligação, será perda de tempo pegar numa outra obra sua. A ver vamos. Pode ser que alguém me sugira algum título seu que me convença a dar-lhe outra oportunidade. Fico à espera.

NOTA – 05/10

Sinopse
Tony Webster e a sua clique só conheceram Adrian Finn no fim do liceu. Famintos de livros e de sexo, e sem namoradas, viviam esses dias em conjunto, trocando afetações, piadas privativas, rumores, e mordacidades de todo o género. Talvez Adrian fosse mais sério do que os outros, e seria certamente mais inteligente. Mesmo assim juraram que ficariam amigos para o resto da vida.
Tony está agora reformado. Teve uma carreira, um casamento e um divórcio amigável. E nunca fez nada para magoar ninguém - ou pelo menos acredita nisso. Mas a chegada da carta de uma advogada desencadeia uma série de surpresas e acontecimentos inesperados que lhe vão mostrar que a memória é afinal uma coisa altamente imperfeita.
O Sentido do Fim, o mais recente romance de Julian Barnes e livro recém-galardoado com o Man Booker Prize 2011 - é a história de um homem que se confronta com o seu passado mutável.
Com marcas da literatura inglesa clássica - na apreciação do júri que o distinguiu - O Sentido do Fim constrói, com grande delicadeza e precisão, uma trama tensa, forte, e revela a mestria de um dos maiores escritores dos nossos tempos.

Balanço mensal - livros lidos e adquiridos/recebidos em junho


O balanço deste mês vai ser mais parco em palavras do que habitualmente porque os números dizem tudo o que haveria para dizer.
Li apenas quatro obras – uma releitura, uma obra infanto-juvenil, uma emprestada e outra que me possibilitou entrar pela primeira vez no mundo de uma autora portuguesa que quero continuar a conhecer.
Que dizer da releitura que já não disse na correspondente opinião? Como abordar em poucas palavras a releitura de uma das obras da minha vida, de uma narrativa que continua impregnada em mim e que sei que lerei de novo uma e outra vez? Vir ao mundo tem esse efeito. Um romance devastadoramente belo, escrito de forma magistral por Margaret Mazzantini, uma das minhas autoras.
Voltei com Tempo de descontos às leituras partilhadas com o filhote. Voltei aos relvados de futebol, às aventuras de Rafael e Rodrigo, dois jovens que amam o desporto-rei e que à custa dele vivem peripécias que fazem com que a coleção Heróis de futebol atraia miúdos e até graúdos.
Parti de uma belíssima opinião e consequente sugestão da Isa de Jardim de Mil Histórias e descobri mais um talento na nova literatura portuguesa. Li Demência, o romance de estreia de Célia Correia Loureiro e fiquei agradavelmente surpreendida com a maturidade de uma menina escritora que não tinha muito mais de vinte anos quando o escreveu. Agradou-me a sua escrita simples, mas envolvente, agradou-me a construção das personagens e agradou-me o desenrolar da narrativa. É assim uma autora em quem vale a pena continuar a apostar.
Terminei o mês de junho com mais um regresso. Desta vez regressei às letras de Rosa Montero, que tanto me haviam entusiasmado com as obras Amantes e Inimigos e A ridícula ideia de não voltar a ver-te. Usufruindo de mais um empréstimo, conheci A louca da casa, outra obra híbrida, sem um género específico (tal como a que aborda a vida de Marie Curie e da própria autora) e que nos faz penetrar no mundo dos escritores, no que os move a escrever, nas suas inseguranças, paranoias, nos seus mundos reais e imaginários e naquilo que os caracteriza como seres humanos e profissionais da escrita. Não posso dizer que tenha apreciado esta terceira obra de Rosa Montero como apreciei as suas antecessoras, mas isso não impede que queira ler mais daquilo que esta escritora espanhola já escreveu ou venha a escrever. De preferência ficção.
Retomo o que referi na introdução deste balanço porque junho foi um mês de proporções muito obesas no que diz respeito a novos habitantes da estante. Como sabem, no início do mês todos os que vivem cá em casa rumámos pela primeira vez à Feira do livro de Lisboa e de lá viemos com o coração e as sacas cheias de alegria e um prazer saboroso como poucos. A minha prateleira da estante engordou ainda mais com estes novos “pecados” que figuravam há algum tempo na wishlist:


Afirmar que todos viemos de sacas cheias não corresponde inteiramente à verdade porque, como o tempo foi escasso para perambular por todos os stands da Feira, o maridinho deu primazia aos nossos desejos (meus e do filhote) e não comprou nada para ele. Como tal, senti-me de consciência pesada praticamente o mês todo, mas consegui compensá-lo e mesmo antes de junho findar-se, presenteei-o com estas duas obras que vão direitinhas para a prateleira do N. e que não ficarão por lá muito tempo a apanhar pó:


Junho foi ainda um mês muito especial porque provou (como se eu ainda tivesse dúvidas) que estou rodeada de pessoas que me querem muito bem, que, através de um gesto de carinho e altruísmo, me fazem sentir ainda mais feliz, ainda mais sortudo. Obrigada, querida Ana Sofia, muito obrigada mesmo por me teres mimado com obras que até há poucos dias estavam na tua estante e agora estão na minha. Prometo que vou tratá-las com o apreço e cuidado que elas merecem e que, sim, que vou lê-las! Vou lê-las e vou escrever a correspondente opinião de cada uma, com a sinceridade e a emoção que ponho em cada leitura que faço!


Os números dizem tudo – junho foi preenchido com 4 leituras e preencheu a estante com nada mais, nada menos do que 12 novos habitantes!

Resta-me terminar deixando-vos os links para acederem à opinião completa das obras lidas este mês:
§  Vir ao mundo, de Margaret Mazzantini
§  Tempo de descontos, de Gerard van Gemert
§  Demência, de Célia Correia Loureiro
§  A louca da casa, de Rosa Montero

A louca da casa, de Rosa Montero


Ficha técnica
TítuloA louca da casa
Autora – Rosa Montero
Editora – Edições Asa
Páginas – 176
Datas de leitura – de 25 a 28 de junho de 2017



Opinião
Não sei bem como começar este texto… Tenho que descrever a minha experiência com este livro de Rosa Montero, com o terceiro livro que leio dela, e sinto-me bloqueada. Talvez porque é um livro que a própria sinopse aponta como sendo um livro híbrido, sem um género específico. Contudo, pensando melhor, essa não poderá ser a razão principal para o meu bloqueio, já que nada disso me aconteceu quando li e escrevi sobre a Ridícula ideia de não voltar a ver-te.
Refletindo um pouco mais, confesso que uma das razões estará relacionada com o facto de que não gostei tanto de A louca da casa como gostei do seu antecessor. Identifiquei-me mais com a Rosa Montero de A ridícula ideia de não voltar a ver-te do que com esta que parafraseia Santa Teresa de Jesus ao apelidar a imaginação de cada um de nós como a louca da casa. Não me interpretem mal, essa maior identificação com uma obra em detrimento da outra nada tem a ver com a qualidade da escrita da autora ou com o seu estilo muito próprio. Ambos se mantêm, continuei a saborear as opiniões muito assertivas da autora, o seu modo muito direto de abordar os mais variados assuntos, de expor os seus sentimentos ou a sua perspetiva face ao trabalho ou ao carácter de um escritor famoso, a constante “interferência” de apontamentos autobiográficos que corroboram as suas dissertações, enfim, tudo se manteve, como já disse, de uma obra para a outra. Mas na minha opinião não se manteve uma sinceridade que tomei como inquestionável, não se mantiveram os pontos de comunhão entre momentos pessoais da autora e o resto da narrativa, da dissertação, do ensaio. E essa sinceridade “amputada” mexeu com o meu lado crédulo, desconfiado, e acabei por pôr em causa alguns momentos da obra e não me refiro apenas à repetida narração do encontro com um ator famoso quando Rosa Montero era uma jovem cujo objetivo primordial era absorver a vida com todo o fulgor possível.
Acabo de ler o que escrevi até aqui e sinto que tenho que reiterar que não me identifiquei tanto com esta obra como com a que li em maio, mas tal não significa que A louca da casa não me tenha cativado. Pelo contrário. Senti-me uma privilegiada por poder espreitar, nem que seja pelo buraco da fechadura, o mundo dos escritores e compreender mais aprofundadamente que, antes de serem o que são profissionalmente, Rosa Montero, García Márquez, Truman Capote, Herman Melville ou Goethe foram e são seres humanos, de essência imperfeita, iguais a um mero homem ou mulher em praticamente tudo, exceto na genialidade de juntar palavras, formar frases, criar parágrafos, capítulos e por fim obras que continuam a encantar e maravilhar leitores como eu, que não concebem uma existência sem a companhia de um livro, de um romance, esses “organismos vivos”, resultantes de “uma atividade incrivelmente íntima, que nos [escritores] faz mergulhar no fundo de nós próprios e traz à superfície os nossos fantasmas mais escondidos” e que sempre foram vistos como uma arma envenenada por todos aqueles que pretendem “assassinar” a liberdade individual e coletiva.
A leitura desta obra também me permitiu ficar a saber um pouco mais sobre como foram aceites ou não pelo público as primeiras publicações de obras como Moby Dick ou A sangue-frio, conhecer o carácter de monstros da literatura intemporal como Tolstoi e decifrar os gostos literários da própria Rosa Montero. Preenchi o meu caderninho com imensas citações, ideias ou pensamentos da autora e creio que aquele que vou registar aqui pode ser a forma mais perfeita e mais saborosa de terminar este texto que junta escritores, imaginação, vida, livros e leitores:
“Porque como é possível governar-se para viver sem a leitura? Deixar de escrever pode ser a loucura, o caos, o sofrimento; mas deixar de ler é a morte instantânea.”
Resta-me agradecer à minha colega Madalena por me ter emprestado esta obra. Já está a fazer companhia à sua “irmã mais nova” (A ridícula ideia de não voltar a ver-te) no saco onde vieram as duas há uns meses atrás. Os empréstimos são assim, agridoces, são obviamente temporários e deixam um vazio, mas são também uma eficaz maneira de poupar dinheiro… e espaço na estante física.
Espero em breve voltar a Rosa Montero, de preferência com uma obra ficcionada!

NOTA – 08/10


Sinopse
Um romance? Um ensaio? Uma autobiografia? A Louca da Casa é, em qualquer dos casos, a obra mais pessoal de Rosa Montero: uma viagem através do misterioso universo da fantasia, da criação artística e das recordações mais secretas da própria autora.
Rosa Montero empreende uma viagem ao mais profundo do seu ser através de um jogo narrativo pleno de surpresas, onde literatura e vida se misturam num cocktail afrodisíaco de biografias alheias e de autobiografia romanceada. E assim descobrimos, por exemplo, que Goethe adulava os poderosos, que Tolstoi era um energúmeno, que Rosa, ela própria, em criança, se julgava anã, e que, com vinte e três anos, manteve um extravagante e arrebatador romance com um actor famoso. Todavia, não devemos fiar-nos por completo em tudo o que a autora conta sobre si mesma: as recordações não são sempre o que parecem. Um livro sobre a fantasia e os sonhos, a loucura e a paixão, os medos e as dúvidas dos escritores – mas, também, de cada um de nós –, A Louca da Casa é, sobretudo, a tórrida história de amor que existe entre Rosa Montero e a sua própria imaginação.

Demência, de Célia Correia Loureiro


Ficha técnica
TítuloDemência
Autora – Célia Correia Loureiro
Editora – Alfarroba
Páginas – 394
Datas de leitura – de 18 a 24 de junho de 2017



Opinião
Entrei no mundo das letras de Célia Correia Loureiro pela mão da minha querida Isa do blogue Jardim de Mil Histórias. Recordo-me que li a sua opinião sobre esta obra nos finais de novembro do ano passado e fiquei tão entusiasmada, tão agarrada às suas palavras, que aproveitei de imediato a “desculpa” para pecar no mês onde ainda estou mais proibida de pecar. Resultado – a dois de dezembro Demência já ocupava o seu cantinho na minha estante!
Seis meses depois retirei-a desse cantinho, embrenhei-me na sua leitura e compreendi, às primeiras páginas, o porquê da Isa ter afirmado que mal havia começado a ler a história de Letícia e de Olímpia, não mais a largou. Não mais a largou até ter lido as derradeiras palavras de uma obra que mostra uma maturidade surpreendente para uma autora que não era mais do que uma miúda quando a escreveu.
Demência é um romance onde predominam a força e o carácter das personagens femininas. As duas protagonistas já foram duramente castigadas pela vida. Ambas são viúvas e ambas encaram esse estado civil com evidente alívio. Ambas sabem o que é sofrer nas mãos de um marido-carrasco. Uma poderia ser o conforto da outra se não se desse a trágica coincidência de o marido de Letícia ser filho de Olímpia e de aquela o ter assassinado em sua própria defesa. Assim, uma para sobreviver, privou a outra da maior (e talvez única) alegria da sua existência, do seu orgulho, do seu único filho, do seu eterno bebé.
Nas páginas iniciais da narrativa viajamos até a uma aldeia beirã, situada perto de Tondela e que sempre foi a casa de Olímpia. É aí que ela continua a viver, sozinha, com os seus animais. E é também aí que a vizinhança começa a aperceber-se de que a sogra de Letícia não está bem mentalmente, de que os seus comportamentos e esquecimentos são indícios de que ela não poderá continuar a viver sozinha, desamparada. Essa doença, essa maldita doença será assim a justificação para que Letícia regresse à aldeia que a condenou em praça pública e que ainda condena, mesmo que a justiça a tenha absolvido. Regressará porque é a única familiar de Olímpia. Mas também regressará porque tem duas filhas a seu cargo e está praticamente sem teto e sem dinheiro para seguir com a sua vida longe daqueles que a vêm como uma assassina.
Foi extremamente fácil criar laços com estas duas mulheres. Foi extremamente fácil porque ambas são duas lutadoras, duas sobreviventes, duas mulheres que nos fazem sentir orgulho do nosso sexo, do nosso género. Será muito difícil esquecer a imagem de Letícia a entrar em casa de Olímpia, em casa do ser humano que mais a odeia, alguém que nos momentos de lucidez se vê obrigada a conviver com a nora, a mulher que matou o seu filho, a mulher que a deixou sem chão, sem razão para continuar a viver. Tentamos compreender os dois lados, queremos, quase de uma forma irracional que Olímpia perdoe Letícia, mas de imediato nos pomos no seu lugar, na sua pele, e não é humanamente possível que uma mãe seja capaz de todos os dias sentar-se ao lado da pessoa que matou o seu filho e descontraidamente perguntar-lhe o que quer para jantar ou se prefere chá ou café para o lanche.
Demência é, como se pode depreender, um romance de personagens, mas não apenas de Letícia e Olímpia. É-o, por um lado, de Maria e Luz, as filhotas de Letícia, de Gabriel, de Sebastião, personagens cativantes, que vamos conhecendo e por quem sentimos uma empatia imediata e é-o, por outro lado, de Fernando e Bartolomeu, dois homens doentiamente violentos, que revolvem o estômago de qualquer leitor. Por fim, Demência é ainda um romance onde uma personagem coletiva – os habitantes da aldeia onde moram as protagonistas – tem uma importância vital para o desenrolar da história. Um aglomerado de gente tacanha, mesquinha, de conhecimentos limitados e que segue apenas uma lei, a que deriva de estereótipos, da coscuvilhice, de verdade cegas que ninguém se atreve a contestar, com medo de ser diferente, de ser a ovelha negra. A justiça, a lei nada dita nesta aldeia se os seus habitantes crerem firmemente que eles é que estão certos e que os tribunais deixaram sair impune uma mulher que ceifou a vida a um dos seus, a um homem íntegro, pai afetivo de duas meninas e homem apaixonadíssimo pela sua esposa.
Como o próprio título indica, esta obra aborda uma das doenças que mais me assusta, uma doença tão degenerativa que apaga em pouco tempo todos os contornos que fazem de um homem ou de mulher um ser humano, um ser que pensa, que faz planos, que recorda, que sente, que ri, que chora, que é alguém no pleno sentido da palavra. Dói assistir ao desaparecimento de Olímpia, ao seu completo apagamento que a transforma num farrapo com duas pernas e dois braços. Dói pensar que o mesmo pode acontecer a um dos nossos ou a nós mesmos.
Por falar em dor, não é possível ficar-se impassível a outro tema que atravessa a narrativa. Falo da violência doméstica, outra forma horrenda de aniquilar a alma de alguém, de reduzir a nada a sua autoestima, a sua essência. Letícia é apenas mais uma mulher que a ficção cria para que se continue a tratar este tema, para que proteja todos os que sofrem nas mãos de seres cobardes, que usam e abusam da violência para sentir-se superiores, poderosos.
Tudo isto habita em Demência. Personagens, espaços, mentalidades, doenças, tudo chega ao leitor através de uma história muito bem construída, com uma linguagem simples, sem grandes artifícios, mas muito eficaz por isso mesmo. Tudo produto de uma escritora que denotava já bastante maturidade e um futuro promissor. Uma escritora que pretendo continuar a seguir e a ler, pois fiquei muito bem impressionada com este primeiro contacto com as suas letras. Espero, no entanto, que as outras obras que já publicou não tenham tantas gralhas e erros como esta, porque nunca é agradável tropeçar com tanta frequência como o fiz em palavras mal escritas, formas verbais sem acento ou outras gralhas que me obrigaram a estar sempre de lápis na mão.
Resta-me agradecer à Isa pela saborosa sugestão. Prometo que seguirei a que dás com a obra O funeral da nossa mãe.

NOTA – 08/10

Sinopse
No seio de uma aldeia beirã, Olímpia Vieira começa a sofrer os sintomas de uma demência que ameaça levar-lhe a memória aos poucos. A única pessoa que lhe ocorre chamar para assisti-la é a sua nora viúva, Letícia. Mas Letícia, que se faz acompanhar das duas filhas, tem um passado de sobrevivência que a levou a cometer um crime do qual apenas a justiça a absolveu.
Perante a censura dos aldeões, outrora seus vizinhos e amigos, e a confusão mental da sogra, Letícia tenta refazer-se de tudo o que perdeu e dos erros que foi obrigada a cometer por amor às filhas. O passado é evocado quando Sebastião, amigo de infância de Olímpia, surge para ampará-la e Gabriel, protagonista da vida paralela que Letícia gostaria de ter vivido, dá um passo à frente e assume o seu papel de padrinho e protector daquelas três figuras solitárias…

Tempo de descontos, de Gerard van Gemert


Ficha técnica
TítuloTempo de descontos
Autor – Gerard van Gemert
ColeçãoOs heróis do futebol – volume IV
Editora – Editora Nacional
Páginas – 160
Datas de leitura – de 01 a 08 de junho de 2017 / Filhote – de 25 de janeiro a 19 de fevereiro de 2017


Opinião
A febre por histórias e coleções cujo enredo rola pelos campos da bola continua em alta aqui em casa. O filhote segue com entusiasmo, de olhos postos nas páginas, seguindo com o dedito todas as peripécias dos protagonistas de Os heróis do futebol e a mãe sente o peito a encher-se de orgulho sempre que se depara com o seu pequenote, sentadinho no sofá, de livro nas mãos e a vibrar com as descrições de jogos de futebol, as aventuras em que se envolvem os amigos inseparáveis Rodrigo e Rafael e a forma como a sua amizade ultrapassa todos os obstáculos que aparecem de volume em volume.
Neste que se intitula Tempo de descontos, os dois jovens integram pela primeira vez o plantel da famosa Seleção de Juvenis do Atlético’69. Contudo, a integração, como era de esperar, não é fácil, há outros jovens que aspiram a alcançar o mesmo sonho, mas, como já nos vêm habituando, Rafael e Rodrigo entram no campo com espírito de campeões, com o espírito daqueles que suam a camisola e dão tudo o que têm e não têm.
Paralelamente a este desafio futebolístico, há outros que se intrometem e, novamente, encontramos o destemido Rodrigo e o cauteloso Rafael enfiados numa aventura que envolve uma casa que parece estar assombrada. Para além disso, o nosso apaixonado Rafael vai sofrer o primeiro desgosto amoroso.
Antes de escrever esta opinião, perguntei ao meu D. que escreveria ele se eu lhe pusesse o computador nas mãos e lhe pedisse para tentar mostrar a todos os gaiatos da idade dele o quanto eles têm que ler esta coleção, mesmo que não sejam tão doidinhos por futebol como ele. Ele, na realidade, não se sentou em frente ao computador, mas foi-me dizendo algumas razões pelas quais continua a adorar esta coleção e a dar a cada um dos volumes a nota máxima. Termino então esta opinião com as ideias do meu pimpolho, já que ela é mais da responsabilidade dele que minha:
“Este volume é fixe, porque o Rodrigo e o Rafael conseguem finalmente jogar na mesma equipa que o seu ídolo, Berto Torres, a equipa que acabou de ganhar a Liga dos Campeões. Eles vão ter algumas dificuldades em ser titulares, sobretudo o Rafael, porque há outro avançado que quer jogar sempre e que o trama muitas vezes.
Gostei muito deste volume, como gostei dos outros, porque gosto muito dos dois amigos. Prefiro o Rodrigo, porque ele é muito corajoso e não tem medo nenhum de se meter em aventuras perigosas. Mas, por outro lado, prefiro o Rafael já que ele é mais calmo e só “anda à bulha” quando tem mesmo que ser, enquanto o Rodrigo perde a paciência muito facilmente.
Já disse algumas vezes à minha mamã que às vezes não entendo muito bem “o relato” (as descrições) do jogos de futebol, não percebo todas as jogadas, como é que a bola chega ao avançado, os passes, as fintas, mas mesmo assim, continuo a adorar esta coleção e a dar a todos os volumes 10 em 10, porque são TOP!”

NOTA – 10/10 (obviamente, porque assim o diz o mais pequeno cá de casa)

Sinopse

São tempos difíceis para os Heróis do Futebol. Rafael e Rodrigo têm dificuldades na sua primeira época no Atlético’69. O seu ídolo, Berto Torres, está tão em baixo de forma que se coloca a questão de não ser selecionado para o decisivo jogo de qualificação para o Campeonato Mundial. A equipa de futebol escolar sofre uma onda de lesões. Na moradia, junto ao campo de treino, acontecem coisas estranhas e, para agravar tudo, Filipa, a namorada de Rafael, mostra-se muito distante. Será que Rafael e Rodrigo conseguem vencer todos os obstáculos? 

Vir ao mundo, de Margaret Mazzantini


RELEITURA
Ficha técnica
TítuloVir ao mundo
Autora – Margaret Mazzantini
Editora – Bertrand Editora
Páginas – 532
Datas de leitura – de 28 de maio a 17 de junho de 2017


Opinião
Respiro fundo múltiplas vezes e acaricio a lombada, a capa. Da leitura que terminei há umas horas [No país da nuvem branca] já quase nada resta. Deixou a porta escancarada para esta releitura que será a primeira deste ano e sem dúvida a mais significativa, a mais ansiada, a mais premente.
Acompanhar-me-á um permanente nó na garganta.”

Isto foi o que registei no meu caderninho das leituras mal retirei da estante aquele que é um dos livros da minha vida. Até ao momento não havia feito nenhuma releitura em 2017, porque conscientemente ou não estava a preparar-me para receber de novo a história de Gemma e de Diego, a história de um amor dolorosamente belo que abalroou a vida de dois jovens italianos que casualmente se conhecem em Sarajevo, no ano em que aí se celebraram os Jogos Olímpicos de Inverno.
Comprei esta obra em 2012. Comprei-a após ter lido Não te movas e me ter completamente apaixonado pela escrita emocional e belíssima de Margaret Mazzantini. A primeira leitura de Vir ao Mundo demorou praticamente um mês, não por causa do número de páginas da obra, mas porque a avalanche de sensações e sentimentos que experimentei desde as suas palavras iniciais foi sufocante, cortou-me o fôlego vezes sem conta, trouxe à superfície angústias, medos e dores que senti como se fossem minhas, só minhas.
A releitura ocorreu quase cinco anos depois e, uma vez mais, foi impossível fazê-la à velocidade normal de uma qualquer leitura. Vir ao mundo acompanhou-me em casa, no trabalho, por todos os lados durante 21 dias e despoletou tudo de novo – o nó na garganta, o peso no estômago, os nós dos dedos brancos da força com que cerrava os punhos, o encostar e abalar do livro junto ao meu peito e as lágrimas que correram infindáveis vezes, de forma descontrolada, como correm agora que bato as teclas para escrever este texto. Um texto que tem que ser perfeito, que desesperadamente transpareça o quanto este livro é também ele soberbamente perfeito, o quanto a sua leitura dói, nos faz sofrer, uivar em silêncio de incompreensão, de injustiça, de compaixão, de tristeza, de mágoa e dor pelos protagonistas da sua narrativa, sejam eles pessoas ou espaços.
Como referi, Vir ao mundo conta-nos a história de Gemma e de Diego. Mas a sua narrativa não se centra apenas na sua história de amor. É isso e muito mais. É a história de um amor completo, doce, pleno, sofrido, mas que não termina. É a história de Gemma, de uma mulher que sabe que só se sentirá completa se for mãe, mãe de um filho de Diego – “ – Quero um filho com uns pés assim. (…) – O que têm de belo estes pés?  – São os dele…” É a história de uma maternidade desesperadamente buscada, de uma maternidade que só será realidade no corpo de uma outra mulher, de alguém que não seja “incompatível com a vidade alguém que não tenha “uma esterilidade de noventa e sete por cento… uma esterilidade total.” É a história dessa maternidade finalmente alcançada, de uma maternidade que já dura há dezasseis anos, mas que apenas Gemma sentiu como verdadeira, como concreta bem depois do nascimento de Pietro – “Terei de esperar pelo dia em que ele, na terceira classe, me há-de baptizar.” É a história de Gojko, de Aska, de Sebina e de Armando, personagens que nos invadem o coração. Um com a sua ironia, o seu sentido de humor, a sua amizade indestrutível e um sentido de lealdade comovente. Outra com a sua inocência atrevida, os seus sonhos, a sua rebeldia, a sua música e a sua juventude. Outra com a sua meninice, o seu temperamento forte, a sua aura de esperança e a sua vontade de lutar. Outro com a sua doçura, a sua timidez e a sua forma tão suave e delicada de trazer luz à vida de quem o rodeia.
Vir ao mundo reúne todas estas histórias – de crianças, adolescentes, jovens e menos jovens. Mas há um espaço, uma cidade que as protagoniza e que une na mais absoluta perfeição o que já por si seria uma narrativa com contornos perfeitos. Ao longo das 532 páginas da obra calcorreamos a cidade de Sarajevo. Calcorreámo-la em 1984, no apogeu dos Jogos Olímpicos de Inverno. Calcorreámo-la em 1991, 1992, em pleno cerco da guerra civil dos Balcãs e calcorreámo-la em 2008, como capital da recente e independente Bósnia-Herzegovina. E apaixonámo-nos por ela, rendemo-nos aos seus encantos. Uma cidade que era o espelho da tolerância, da pacífica e harmoniosa convivência entre povos de etnias e religiões diferentes, que em 1984 olhava com confiança para o futuro, que abria devagarinho as suas portas para o mundo e que em 1991, 1992 é devastada, arrasada por uma guerra de contornos brutais, que assiste incrédula e indefesa ao massacre que abate os seus habitantes como se fossem lebres – “… aquela cidade transformada num campo de lebres a dizimar.” “Sarajevo é um grande campo de tiro ao ar livre. Uma reserva de caça.” Uma cidade que em 2008 renasceu das cinzas, mas que ainda está em convalescença, que ainda mostra feridas por cicatrizar. A cidade de Gojko, a cidade de Aska, a cidade de Sebina, a cidade de sarajevitas que não esquecem, que ainda choram os seus mortos, mas que paulatinamente vão começando a viver de novo – “ _ Certo dia, passei junto de um prado vermelho de papoilas e, pela primeira vez, não pensei em sangue, fiquei encantado com aquela beleza tão frágil. Era suficiente menos de um machado, de um míssil maljutka, era suficiente um sopro de vento. Aquele prado estava ali parado para nós, estava à nossa espera a seguir à curva. Um campo imenso pontuado de línguas vermelhas, como corações caídos do céu sobre a erva. Ia de carro com a minha mulher. Parámos e começámos a chorar. Primeiro, eu; depois, ela também veio atrás de mim como um rio. Foi um pranto que lentamente nos esvaziou, nos ressarciu. E a partir dessa tarde começámos a respirar com o peito. Conseguíamos suportar a nossa respiração. Durante anos esteve retida na garganta, não conseguia parar… Dois meses mais tarde, a minha mulher estava grávida.”
Por tudo o que referi, é quase redundante dizer que a releitura de Vir ao mundo foi esmagadora. Foi esmagadora porque reavivou a vontade quase incontrolável que sinto de conhecer Sarajevo. Foi esmagadora porque me trouxe tudo o que busco numa leitura. Foi esmagadora porque, como mãe, senti as dores, o desespero, a loucura, o egoísmo, os medos e as angústias de Gemma como minhas. Foi esmagadora porque me voltei a render ao amor dos dois protagonistas da narrativa. Foi esmagadora porque criei laços inquebráveis com todas as personagens. Foi esmagadora porque a escrita de Mazzantini é magistral, dolorosamente bela. E foi ainda esmagadora por causa da banda sonora que nos vai acompanhando ao longo da história e da qual fazem parte canções como estas – I wanna marry you, de Bruce Springsteen; Where the streets have no name, dos “meus” U2; Losing my religion, dos REM.
Concluindo, repito o que já referi – este é um dos livros da minha vida e que adoraria que fosse lido por todos aqueles que ainda não o leram e não conhecem Margaret Mazzantini. É um verdadeiro crime que esta autora tenha deixado de ser traduzida para português, apenas porque a venda dos seus livros não foi economicamente rentável… Espero, para bem de todos, que essa situação seja revertida num futuro próximo. Eu continuo a lê-la – já li em espanhol mais três obras suas, mas seria maravilhoso que todos pudéssemos saborear os seus livros na nossa língua, apesar de a edição que reli ter algumas gralhas incompreensíveis…
Há uns meses a minha querida companheira do blogue “Jardim de Mil Histórias” pediu-me que participasse na rubrica “O livro da minha vida”. Ainda não lhe havia respondido… Talvez porque estava à espera desta releitura. Sendo assim, aqui o tens, Isa!
Leiam Vir ao Mundo! Por favor!

NOTA – 10/10 ou se preferirem 11/10

(Deixo-vos o link da opinião que escrevi para o blogue aquando da primeira vez que li esta obra que sempre me vai assombrar)

Sinopse

Gemma deixa para trás a sua vida e entra num avião com o filho de dezasseis anos, Pietro. Destino: Sarajevo, uma cidade entre o Ocidente e o Oriente, ainda cicatrizada pelas feridas de um passado recente. À sua espera no aeroporto está Gojko, um poeta bósnio, velho amigo, que durante os dias festivos das Olimpíadas de Inverno de 1984 apresentou Gemma ao amor da sua vida, Diego, um fotógrafo que captava cenas de beleza estonteante nos reflexos de poças de água.
Este romance conta a história do seu amor, de dois jovens em tempos frenéticos e envelhecidos pela guerra. Uma história de amor tão apaixonada e imperfeita como apenas o amor verdadeiro pode ser, num ambiente contemporâneo e devastador do mundo em guerra e em paz.