Uma vida à sua frente / La vida ante sí, de Romain Gary


Ficha técnica
TítuloUma vida à sua frente / La vida ante sí
Autor – Romain Gary
Editora – Versão Epub
Páginas – 180
Datas de leitura – de 14 a 17 de maio de 2017


Opinião
Esta opinião já devia ter sido escrita. Não o foi porque o tempo continua a ser escasso e porque o calor dos últimos tempos apodera-se do meu corpo na forma de uma moleza e languidez que me arrastam até ao sofá e fazem com que cole uma limitada atenção a tudo o que qualquer canal esteja a passar no momento.
  Já passam vários minutos das nove da noite e de hoje não passa – tenho que lutar contra a referida moleza e uma vontade tremenda de me esticar no sofá para avançar umas páginas na leitura que me acompanha. Sendo assim, aqui vai.
Uma vida à sua frente chegou-me às mãos como mais uma oferta maravilhosa de uma das seguidoras do blogue. Foi a terceira leitura digital que fiz e todas elas se devem à generosidade de Cristina Tista, que há uns tempos atrás, “inundou” o mail do blogue com mais de dez e-books cujos títulos faziam parte da minha wishlist.
À partida, tendo em consideração a correspondente sinopse, esta obra do polémico Romain Gary encaixaria na perfeição naquilo que sempre busco numa leitura desafiante e compensadora. Sabia que o seu protagonista era um menino muçulmano, órfão e que vivia com uma ex-prostituta judia, sobrevivente de Auschwitz. Sabia por este ou aquele comentário lido que seria extremamente difícil conter-me e não querer a todo o custo adotar Momo, não sentir uma necessidade absoluta de dar-lhe colo. Sabia que seria um teste ao meu lado maternal para o qual é inconcebível viver um dia sem a partilha de mimos entre mãe e filho.
Como tal, estava preparada para um turbilhão de emoções e para a dor entrelaçada com ternura e comoção. Contudo, o embate, o choque não foram de proporções gigantescas, já que Momo desarma-nos com a sua inocência, a sua precocidade e o desenrasque típico de um órfão que interiormente sabe que apenas pode contar consigo mesmo. Filho de uma prostituta e de um pai do qual não se recorda, diz-nos cruamente que ele e os outros miúdos que vão sendo depositados em casa da Senhora Rosa são “chiquillos que no habían podido abortarse a tiempo y que no eran necesarios”. Veste no seu dia-a-dia a pele de um miúdo corajoso, desenrascado e quase isento de sentimentos, mas de vez em quando desintegra-se e confessa os seus medos, sendo que o principal era ficar sozinho no mundo – “Cada vez se cansaba más la señora Rosa (…) y yo me sentía más pequeño y tenía más miedo.”
Momo é, como podem comprovar por estes fragmentos e por muitos outros que fui anotando no meu caderninho, um protagonista, um narrador e um menino que iluminam e enchem a narrativa de uma luz brilhante e redentora. Quase não necessitamos de nada mais para ficarmos encantados e rendidos. Contudo, Uma vida à sua frente está preenchida de outras personagens não menos cativantes como a já referida senhora Rosa (que transporta às costas um passado ainda mais pesado do que os seus quase cem quilos); o doutor Katz que tem um consultório onde atende todos os que necessitam de ajuda, nem que seja apenas uma carícia na cabeça, como Momo; o senhor Hamil que, mesmo estando cego, não se separa nunca do seu exemplar de Os miseráveis, de Victor Hugo; ou a senhora Lola, um travesti senegalês com um coração do tamanho do mundo.
Aliado a um narrador/protagonista inesquecível e a um leque de personagens com as quais criamos laços fortes, está o facto de a obra estar realmente muito bem escrita, de o autor a ter dotado de um estilo que junta o lado cru da vida com o seu lado mais doce, mais ternurento e mais positivo. Tudo se perdoa, tudo se esquece quando há amor, há atenção, há carinho e alguém se senta ao nosso lado, nos escuta e nos segura na mão, quando alguém põe de lado o nojo e limpa as partes íntimas de uma velha, gorda e doente, quando alguém faz o possível e o impossível para que a vida se mantenha digna e os olhos moribundos de uma velha sejam capazes de brilhar novamente.
Acho que não preciso de dizer nada mais. Momo merece que o conheçam e queiram desesperadamente que ele não sofra nem mais um dia. Obra, por isso, recomendadíssima!

NOTA – 09/10

Sinopse
Uma Vida à Sua Frente é narrado por Mohammed, um rapaz árabe de 14 anos, órfão, que vive no bairro pobre de Belleville com Madame Rosa, prostituta reformada e sobrevivente de Auschwitz. 

Publicado em 1975, o livro teve êxito imediato: vendeu milhões de exemplares em todo o mundo, foi traduzido em mais de vinte línguas e adaptado para o cinema num filme com Simone Signoret. Nesse mesmo ano, recebeu o Prémio Goncourt.

A ridícula ideia de não voltar a ver-te, de Rosa Montero


Ficha técnica
TítuloA ridícula ideia de voltar a ver-te
Autora – Rosa Montero
Editora – Porto Editora
Páginas – 176
Datas de leitura – de 09 a 13 de maio de 2017


Opinião
Em fevereiro deste ano li pela primeira vez Rosa Montero e apaixonei-me por esta escritora espanhola. Ao encerrar a leitura de Amantes e Inimigos (podem consultar a correspondente opinião aqui), disse para mim mesmo que finalmente havia encontrado a perfeita companhia feminina para a outra “deusa” das letras espanholas que me abalroa sempre que leio algo que sai das suas mãos – tive assim a certeza de que Rosa Montero iria sentar-se lado a lado da “minha” Almudena Grandes e percebi também que teria que ter acesso a outras obras suas.
Tenho o hábito, como o tem qualquer livrólico que se preze, de carregar para todo o lado o livro que estou a ler no momento. E é óbvio que também o carrego para o trabalho, pois há que aproveitar cada momento livre para “devorar” mais umas páginas. Este meu hábito não passa despercebido e faz com que muitas das conversas que entabulo com colegas sejam sobre livros e correspondentes leituras. Nos dias em que carreguei para a escola Amantes e Inimigos tive a sorte de, num momento de pausa, estar sentada ao lado de uma colega que partilhou comigo o quanto gosta de Rosa Montero e que não se importaria nada de emprestar-me duas das suas obras que a haviam deixado maravilhada – A ridícula ideia de não voltar a ver-te e A louca da casa.
Em consequência do referido entusiasmo demonstrado pela colega, tive que abdicar da mania das leituras por ordem cronológica. Bom, abdicar não abdiquei totalmente (how could I?...), mas determinei que acabaria de ler os livros que comprara em setembro do ano passado, o livrinho que me ofereceram em outubro e antes de embarcar nas de novembro pegaria num dos empréstimos.
Peguei em A ridícula ideia de não voltar a ver-te como poderia ter pegado em A louca da casa. Quis o acaso que optasse pela obra que junta aspetos biográficos de duas enormes mulheres que partilharam uma das maiores dores – a de perder cedo demais (é sempre cedo demais…) o homem, o companheiro, o amigo, o amante, aquele que estava destinado a dividir a vida connosco.
Esta dor, uma dor verdadeira, é indizível e parece-se muito com a loucura. “O cérebro não consegue compreender que tenha desaparecido para sempre. (…) Mas como, “não o verei mais?” Nem hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã, nem dentro de um ano? É uma realidade inconcebível, que a mente rejeita: não o ver nunca mais é uma piada de mau gosto, uma ideia ridícula.” Uma dor que embota os sentidos, que fez com que Marie Curie desabafasse no seu diário dizendo que, um quarto de hora após ter-se levantado relativamente tranquila, tinha outra vez vontade de “uivar como um animal selvagem”. Isto quase um mês depois do seu marido, Pierre, ter morrido atropelado por uma carruagem. Isto escrito por uma mulher inteligentíssima, cujo semblante transparece (em todas as fotos que se lhe conhecem) frieza, distância e autoritarismo, uma mulher que dedicou toda a sua vida às ciências, às experiências, ao que se vê como exato, racional.
O referido diário da mulher que ganhou por duas vezes o Prémio Nobel é o ponto de partida para uma obra que reúne apontamentos de biografia, de autobiografia, de ensaio, de memórias e de muito mais. Rosa Montero parte realmente da descoberta desse diário e das consequentes leituras que fez de biografias de Marie Curie para partilhar connosco a vida desta extraordinária mulher, a dor surda e indizível pela morte repentina do marido, a extrema importância dos seus achados para o mundo da ciência e a luta que travou ao longo da sua vida com uma sociedade e uma mentalidade que olhavam para a mulher como um ser inferior e destinado a afazeres domésticos e familiares. Contudo, A ridícula ideia de não voltar a ver-te não é apenas uma obra sobre Marie Curie. É isso e muito mais. Caramba, é muito mais!
Enchi páginas e páginas do meu caderninho de apontamentos com fragmentos, passagens e expressões que me tocaram e agarraram. Rosa Montero, tal como já referi, sabe como ninguém o que é perder o companheiro de uma vida. Por isso traça um paralelismo entre a sua dor e a de Marie Curie e fá-lo de uma forma tão vívida, tão sentida, que é impossível não sentirmos como nossa um pouco dessa dor – “… sinto falta de conhecer também o passado, a vida de Pablo que eu não vivi. Quero saber tudo acerca dele. Se o conseguisse, e em absoluto, seria como se ele não tivesse morrido.” “ Aqueles dias que passei com Pablo em Nova Iorque, um mês antes de lhe terem diagnosticado o cancro, são agora uma memória incandescente: ele estava mal e eu não sabia; o desconhecimento abrasa, o pensamento é persecutório; a inocência de ambos antes da dor, insuportável.” “Pablo, que pena ter esquecido que podias morrer, que podia perder-te. Se tivesse essa consciência, ter-te-ia amado não mais, mas melhor. Ter-te-ia dito muito mais vezes que te amava. Teria discutido menos por tontices. Ter-me-ia rido mais. E até me teria esforçado por aprender o nome de todas as árvores e por reconhecer todas as folhinhas. Já está. Já o fiz. Já o disse. De facto, consola.”
Acho que pelos fragmentos que aqui deixo dá para ter noção do quanto tenho razão ao elevar Rosa Montero a um patamar até agora reservado apenas a uma espanhola. O que ela põe de si, da sua visão das pessoas e do mundo, das suas convicções transborda para uma obra que põe a nu e em completa evidência uma escrita pejada de emoção, de sinceridade, de comunhão e de vidas vividas por gente famosa, mas que ao fim do dia são como qualquer um de nós e que quebram e uivam de dor, que lutam num mundo desigual e que almejam, mais do que tudo, usufruir de uma vida feita de pequenas banalidades, de uma intimidade que é sinónima de conhecer alguém, de possui-lo, de aceitá-lo, de amar as manias de um companheiro e sorrir perante a imagem não muito clara que não deixa adivinhar onde começa um e acaba o outro. Deliciosamente sublime!
Voltei a ler o que escrevi até aqui e continuo com a sensação de que não estou a ser capaz de fazer justiça a esta obra. Quero mesmo que quem leia esta opinião tenha uma vontade irresistível de ler Rosa Montero, de saborear como eu a sensação de que ela parece estar mesmo a confidenciar-nos o lado mais íntimo da sua vida e da sua escrita, de sentir o coração a encolher e suster a respiração perante trechos dolorosamente reais e próximos de nós. Quero mesmo que sinta o orgulho que senti quando a autora cita Fernando Pessoa ou admite a predileção que tem por Paula Rego. Quero mesmo que se lhe ilumine o sorriso e acene de concordância como eu o fiz ante a inegável verdade do quanto a arte, a literatura consegue transformar um sofrimento que nos parte a espinha numa coisa bela – “Esmagamos carvões com as mãos nuas e às vezes conseguimos que pareçam diamantes.” Enfim, quero mesmo que leiam Rosa Montero, que conheçam as suas letras e se apaixonam pelas mesmas. Como eu!

NOTA – 09/10

Sinopse
Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. 
São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.

Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros.

Furta-cores, de Cristina Parga


Ficha técnica
TítuloFurta-cores
Autora – Cristina Parga
Editora – 7 letras
Páginas – 84
Datas de leitura – de 07 a 09 de maio de 2017


Opinião
Dezassete contos. Uns muito curtinhos, de apenas duas páginas. Outros mais longos. Em todos eles abundam referências corais, o azul do mar em sintonia ou em contraste com o azul do mar ou de um rio, a palete de cores indescritíveis das flores, um cor-de-rosa choque de umas chinelas abandonadas no chão do quarto de alguém – “… as cores invadem, embalam, encantam.”
Este livrinho, totalmente desconhecido até ao momento em que o recebi, foi um “regalito” da minha querida colega e amiga, Lili. É da autoria de uma jovem brasileira, Cristina Pargas, que estudou e viveu em Lisboa e que atualmente vive no Rio de Janeiro, trabalhando como editora. Esta coletânea de contos é o seu primeiro livro.
Apesar da sua juventude, Cristina Pargas delicia-nos com a sua escrita original, polvilhada de apontamentos sensoriais e poéticos. Todas as histórias que compõem esta obra calcorreiam as vidas de gente anónima, de gente que busca conforto, que tateia à procura do contacto, do calor, dos cheiros de alguém. De alguém que o abrace, que o agasalhe e o proteja e o faça não sentir-se só, desamparado.
Desde as primeiras palavras do primeiro conto somos atingidos pelo poder, poesia e magia da escrita desta autora brasileira. A doçura, a sonoridade, os cheiros e a ternura que transportam as palavras que escreve e combina são memoráveis e fizeram com que fosse sublinhando e anotando trechos de uma beleza e sensibilidade que eu considero perfeitas, porque nos entram na alma e tocam no nosso lado mais íntimo e emotivo. Aqui estão alguns exemplos:
“… seus dedos tateiam os meus, úmidos da água. Eu estou aqui ainda, não fui embora, não irei – queria dizer – mas a fala se represa em minha boca.”
Teu rosto ainda em meus dedos, os traços riscados nos movimentos da noite, corpo, olhos e gestos inscritos na minha pele para sempre…”
“… e eu te toco e dispo os tênis e os atiro para longe e relembro o mapa do seu corpo pelo cheiro de cada curva e segredo, e abraço e adormecemos com as estrelas acesas, no escuro do teto acima.”
Como acontece com qualquer coletânea de contos, nem todos mexeram comigo com a mesma intensidade. Houve inclusive um ou outro que me deixaram ou confusa ou indiferente, mas na generalidade senti que o meu coração se encolhia e um arrepio me trespassava ao ter acesso à solidão de uns, à dor, à amargura, nostalgia, medo, luto, abismos e demónios de muitos outros. Por isso, valeu a pena esta leitura, estas leituras. Por isso, agradeço uma vez mais à Lili este “regalito” saboroso e sensorial. Por isso, recomendo-o a quem se inclina de prazer perante uma coletânea de contos e se verga perante uma escrita poética, repleta de sensações, emoções, repleta de vida.

NOTA – 08/10

Sinopse

Furta-cores é um daqueles livros que não é apenas para ser lido: é para ser saboreado a cada releitura, em todas as suas texturas, cores, perfumes e sons. Os contos de Cristina Parga nos levam a redescobrir o gosto da língua, num percurso pelas mais íntimas paisagens estrangeiras – revelando com delicadeza os encontros e desencontros entre as mais diversas solidões humanas.

Eu confesso, de Jaume Cabré


Ficha técnica
TítuloEu confesso
Autor – Jaume Cabré
Editora – Tinta da China
Páginas – 736
Datas de leitura – de 20 de abril a 06 de maio de 2017


Opinião
Há três dias encerrei a leitura desta obra. Tive-a nas mãos durante dezasseis dias. Tardei em lê-la mais do que qualquer obra que li este ano, no ano passado e muito provavelmente há dois anos. Não pelo seu número considerável de páginas. Já li mais páginas em menos tempo. Eu confesso fez-me companhia durante dezasseis dias porque não é, de maneira nenhuma, uma obra fácil. Nem para alguém tão sedento como eu, que busca incessantemente leituras exigentes, que me provoquem e me aturdam.
Aturdimento é assim a palavra mais adequada para descrever-vos como ainda me sinto hoje, três dias depois de ter desfolhado a página final da obra de Cabré. Aturdida com a genialidade e complexidade do seu estilo, com uma narrativa que de uma frase para outra ou mesmo na mesma frase muda de um narrador de primeira pessoa para um de terceira (sendo que ambos são o protagonista da história), salta no espaço e no tempo (muitas vezes de século) e com um protagonista superdotado, inteligentíssimo, mas imperfeito como todos nós, repleto de contradições, dúvidas e atos ou altruístas ou covardes.
Adrià Ardévol nasce a trinta de abril de 1946 no seio de uma família com posses. É o único filho de um casal barcelonês mas cedo nos confessa que “Nunca houve amor em nossa casa. Eu fui uma mera consequência circunstancial na vida dos dois.” Deambula pela casa (e consequentemente pela sua infância) recebendo migalhas de atenção dos progenitores que se digladiam em frequentes disputas sobre a que é que o filho (que nada mais quer do que ter uma mãe que lhe faça de vez em quando uma carícia no cabelo e um pai que se orgulhe dele) terá que dedicar a sua inteligência – se ao estudo de variadíssimas línguas estrangeiras se aos virtuosismos de um violino.
A infância de Adrià, os seus estratagemas para perceber melhor quem são os seus pais, por que se casaram, o fascínio que sente pela loja de antiguidades do pai e por ouvir conversas proibidas são apenas o ponto de partida para uma narrativa que transpira complexidade e que pode desanimar o leitor menos experiente nas páginas iniciais. Admito que, mesmo munida do caderninho que sempre me acompanha em qualquer leitura, eu própria me senti atordoada na primeira parte, onde as constantes mudanças de narrador, de espaço, de tempo e de personagens me apanharam de surpresa e me fizeram recordar o quão exaurida fiquei com mais de metade da obra de Vargas Llosa – Conversa n’A Catedral. Contudo, tal como aconteceu com o magnífico livro do escritor peruano, também não deixei que a complexidade e densidade do estilo de Cabré me afetassem e fui desbravando capítulo atrás de capítulo e habituando-me às referidas reviravoltas. E fui lentamente afeiçoando-me a Adrià.
Tal como o título indica, esta obra é uma longuíssima confissão que engloba, como é óbvio, a vida de Adrià, desde a infância até à terceira idade e que engloba também a vida dos seus pais, dos seus amigos, dos seus amores, das suas aventuras e desventuras. Mas seria muito redutor afirmar que Eu confesso é apenas isso. É igualmente uma longuíssima reflexão sobre o ser humano e o seu lado mais negro, a maldade, a dor, a tortura que se inflige a outro ser humano pelas razões mais mesquinhas e mais abjetas. Muitas vezes justificadas por questões religiosas, políticas ou meramente pessoais. Desde a Inquisição ao extermínio nazi, passando pelo franquismo ou pelas ideias extremistas muçulmanas, tudo interfere com a suposta pacata vida de Adrià para deixar bem claro que “… a história de qualquer coisa explica o estado presente da coisa qualquer.” (pág. 309)
Eu confesso é ainda um hino de louvor à importância de conhecer idiomas, do quanto somos mais ricos se soubermos cultivar a nossa língua materna e as outras ditas estrangeiras. É igualmente uma ode em prosa do quanto a música nos eleva a outros patamares, no quanto um acorde de violino nos arrebata até às lágrimas e exprime o que não é exprimível em palavras. É por fim uma obra que, através do seu protagonista e da sua interminável biblioteca (digna da mais visceral inveja), reflete o que deveria ser um dogma, uma verdade que não admite contestação – os livros são sabedoria, são conhecimento, são entretenimento, são uma porta para uma mentalidade mais aberta e mais tolerante. A propósito, não resisto a deixar aqui mais um fragmento dos muitíssimos que registei no caderninho: “… todos os dias leio e todos os dias me apercebo de que ainda tenho tudo por ler. E de vez em quando tenho de reler, apesar de só reler o que me merece o privilégio de ser relido.” (pág. 542) Soberbamente certeiro!
Há ainda muito mais para dizer sobre esta obra, nomeadamente a belíssima e dolorosamente imperfeita história de amor de Adrià e da sua amada. Mas prefiro não me alongar. Prefiro deixar que Cabré vos surpreenda e vos aturda como me fez a mim. Prefiro que os leitores que lerão esta opinião embarquem nesta odisseia de mais de setecentas páginas, que façam a sua própria viagem e sintam que nem no seu desfecho o autor deixa de ser genial.
Concluo, justificando-me, justificando por que razão não atribuo a Eu confesso a nota máxima. Apenas lhe reservo um 9/10 e faço-o citando Adrià – Mea culpa. Sim, sinto que fui eu quem não esteve à altura da mestria do autor, já que confesso que, por exemplo, alguns pormenores se foram perdendo à medida que avançava na leitura e algumas personagens se misturaram, ganharam contornos de outras. Mea culpa
Tento redimir-me, recomendando vivamente esta obra e, já agora, a outra que muito quero ler deste autor – As vozes do rio Pamano.

NOTA – 09/10

Sinopse

Na Barcelona franquista, o pequeno Adrià cresce num amplo e sombrio apartamento; o pai está determinado a transformá-lo num humanista poliglota, a mãe, num violinista virtuoso. Brilhante, solitário e tímido, o rapaz procura satisfazer as ambições desmesuradas que depositam nele, até ao dia em a morte violenta e misteriosa do pai o leva a questionar a origem da fortuna familiar. Meio século depois, Adrià recorda a sua vida, indissociável do turbulento percurso de um violino excecional. Da Inquisição ao nazismo, de Barcelona ao Vaticano, vai-se desvelando a cruel história europeia: uma cadeia de eventos iniciada na Idade Média, com repercussões trágicas até à atualidade.

Balanço mensal - livros lidos e adquiridos/recebidos em abril


Em abril o outro lado da vida intrometeu-se nas minhas leituras. Viagens, festividades, aniversários, convívios estreitaram o tempo que dedico aos livros e por isso apenas consegui ler três livros. Poderia ter terminado o quarto, que já me acompanha desde o dia vinte, mas não só o referido outro lado bom da vida não o permitiu como o facto da obra de Jaume Cabré ter mais de setecentas páginas fez com que quase fosse uma missão impossível.
Arranquei o mês sabendo que muito provavelmente atingiria a perfeição, que Kate Morton, uma vez mais, me iria enfeitiçar, enredar-me com as suas histórias, as suas personagens, as suas mulheres e me faria sentir perdida e órfã quando encerrasse As horas distantes. E as predições revelaram-se certeiras. Mais um dez em dez, mais uma narrativa que me sugou e cujas protagonistas e histórias pessoais se mantêm ainda hoje comigo.
 A segunda leitura foi igualmente um regresso ao mundo de um autor que me deslumbrou com a primeira obra que aterrou na estante cá de casa. Regressei a Joel Neto e aos Açores com A (sua) vida no campo, um diário do seu quotidiano, das suas reflexões, de pequenezes e minudências de 365 dias sobretudo passados numa pequena aldeia da ilha Terceira. Voltei a derreter-me com a escrita deste açoriano, com a singeleza das suas palavras e sobretudo com o quanto o dia-a-dia de uma pessoa simples e pacata pode ser sinónimo de beleza e encantamento.
Da biblioteca da terrinha veio a terceira obra que li este mês. Trouxe-a comigo por nenhuma razão em particular. Talvez porque queria conhecer uma autora que tem andado na boca de muitos e muitos. Talvez porque poderia surpreender-me e assim levar-me a acrescentar outro nome à lista de aqueles que escrevem delícias que não quero deixar de saborear.
Infelizmente Retrato de família não me surpreendeu. Não me arrebatou ao ponto de querer rapidamente ler mais da sua autora. A sua narrativa tem pontos interessantes, mas peca por ser algo previsível e sobretudo por não aproveitar as possibilidades que se lhe oferecem uma ou outra personagem. Falta-lhe maturidade, porventura porque se trata da obra de estreia de Jojo Moyes. Falta-lhe ainda intensidade e densidade para estar à altura das minhas expectativas, mas admito que a sua leveza e previsibilidade cumpriram o que lhes “pedi”, já que abriram caminho para a obra que se lhe seguiu e que desde as páginas iniciais exigiu toda a minha atenção, toda a minha devoção.
No balanço mensal anterior confessei o quanto tinha sido uma boa menina e o quanto me havia controlado para não pecar e não gastar dinheiro em habitantes novos. Não posso dizer que em abril o mesmo tenha acontecido. Caí em tentação duas vezes. Na primeira não resisti às promoções e adquiri uma obra para o maridinho e outra para mim. Na segunda, vinda de terras espanholas, trouxe na bagagem mais dois habitantes de língua castelhana. Por fim, tenho que agradecer muito ao afilhadinho mais novo, pois presenteou a madrinha com uma obra que fazia parte da minha wishlist!
Da primeira compra veio na encomenda dos correios a obra do Nobel Orhan Pamuk – Cevdet Bei e os seus filhos. Tal como é seu hábito, o maridinho pegou nela mal pôde e, apesar de ainda não a ter terminado (tem mais de setecentas páginas), já frisou por várias vezes que é muito, mas muito boa. Nessa encomenda veio igualmente A vida inútil de José Homem, de Marlene Ferraz, uma obra muitíssimo recomendada pela Márcia e pelo seu planeta e que suspeito que me vai arrebatar.
Os novos habitantes espanhóis são dois e de autores que já conheço e adoro. Patria, de Fernando Aramburu tem ocupado os primeiros lugares dos tops de vendas do país vizinho e vai levar-me de volta ao País Basco e à luta armada pela sua independência que deixou cicatrizes que ainda não sararam. La voz dormida, de Dulce Chacón também está ambientada num período bélico – a apaixonante Guerra Civil espanhola – e será na verdade uma releitura, pois a minha amiga Nancy já mo emprestou há uns bons anos atrás e lembro-me ainda hoje o quanto mexeu comigo a história de um grupo de mulheres inesquecíveis e que foram feitas prisioneiras, mas que nem por isso deixaram de mostrar a sua valentia, ousadia e sacrifício.
Por fim, o quinto habitante chegou à estante pelas mãos do afilhadinho mais novo e O czar do amor e do techno, de Anthony Marra, é outra recomendação vinda direitinha do PlanetaMárcia. As expectativas são elevadas, pois o que a Márcia recomenda dificilmente (mesmo dificilmente) desilude. Não se deixem enganar pelo título estranho e pela capa pouco apelativa, porque o conteúdo é bem sumarento!
Resumindo, abril foi o mês em que li menos. Aliás, não me lembro de ler tão pouco há muito, muito tempo. Contudo, foram três leituras suculentas, duas delas perfeitas ou quase perfeitas. Por isso não posso dizer que esteja desapontada. A vida é, afinal de contas, mais do que leituras!...
E o vosso abril como foi? Partilhem, por favor:
Deixo-vos, como é habitual, os links para acederem à opinião completa das obras lidas este mês:
§  As horas distantes, de Kate Morton
§  A vida no campo, de Joel Neto
§  Retrato de família, de Jojo Moyes

Divulgação de uma coletânea de contos - Desafios da Europa - que precisa do vosso apoio


A pedido da Márcia, companheira destas andanças “blogueiras”, dou-vos a conhecer uma coletânea de cinco contos (um dos quais escrito pela própria Márcia) selecionados pelo Prémio Literário e de Ilustração Eça de Queiroz. Segundo ela, para esta Coletânea ser uma realidade é vital divulgá-la e apoiá-la. A mesma está neste momento sujeita a um processo de crowfunding e se a correspondente campanha for bem-sucedida levará à publicação da obra!
O apoio é algo muito fácil e pode fazer-se com um montante a partir de 1 euro. Como a divulgação é igualmente essencial, deixo aqui o meu pequenino contributo com este texto e com a correspondente partilha em redes sociais.
Para estarem a par de todos os detalhes da campanha e de como podem apoiar e receber recompensas por esse apoio, deixo-vos o link da mesma:


Muita sorte, Márcia, e muitos, muitos parabéns! Tu bem os mereces!

Retrato de família, de Jojo Moyes


Ficha técnica
TítuloRetrato de família
Autora – Jojo Moyes
Editora – Porto Editora
Páginas – 416
Datas de leitura – de 14 a 19 de abril de 2017


Opinião
Este romance foi mais um inquilino temporário que passou uns dias cá em casa vindo da biblioteca municipal da terrinha. Trouxe-o comigo porque, como sabem, sinto de vez em quando necessidade de leituras mais leves, daquelas que não exigem níveis muito altos de concentração e entrega. A outra razão pela qual o escolhi prendeu-se ao facto de não ter ficado completamente indiferente ao frenesim que a obra Viver depois de ti e a sua sequela provocaram nos tops de vendas dos últimos tempos.
Sendo assim, movida por essas duas razões, decidi conhecer o mundo de Jojo Moyes entrando nele através da sua obra de estreia. Retrato de família conta-nos a história de três gerações de mulheres da mesma família e a sua narrativa vai saltitando no tempo e no espaço. Nas suas páginas iniciais transporta-nos até Hong Kong por altura da coroação da rainha Elizabete II e à medida que nos adentramos na trama iremos passar temporadas em Londres e na parte rural da Irlanda, onde vivem no momento presente as referidas protagonistas.
Joy é a matriarca da família. É mãe de Kate e avó de Sabine. As três aparentemente apenas têm o sangue como elo de ligação, já que não poderiam ser donas de personalidades e gostos mais antagónicos. Contudo, a decisão de Kate de enviar a filha para passar uns tempos com a avó (à qual já não visita há muitos anos) irá proporcionar-nos a oportunidade de conhecê-las melhor e entender o que está por detrás dessas supostas diferenças de carácter e por que razão existe tanta mágoa e frieza entre os vários elementos da família.
Se compararem as datas de leitura da obra anterior com as referentes a esta, vão constatar que tardei bem menos a ler Retrato de família do que a deliciosa Vida no campo, de Joel Neto. Essa diferença é a prova de que consegui o que almejava, ou seja, ler uma obra levezinha, de fácil virar de página e assim intervalar a mesma com leituras mais densas, mas, caramba, sobejamente mais suculentas e avassaladoras.
Reitero que o romance de estreia de Jojo Moyes deixa-nos um sabor docinho na boca, mas daqueles que se esvanecem logo após o seu desenlace. As suas protagonistas são mulheres interessantes, possuidoras de carisma e não é difícil criarmos laços com as três. Mas considero que a autora poderia ter explorado mais aquela que nos acompanha desde as primeiras palavras da narrativa. Joy tem potencial para protagonizar “a solo” as 416 páginas da obra, mas tudo o mais que se desenrola à sua volta, sobretudo no momento presente e que é muitas vezes supérfluo, faz com que nos desapeguemos da mulher que viveu em Hong Kong, que seguiu o marido, oficial da Marinha, pelos vários cantos do mundo e que estabeleceu com ele o seu lar definitivo numa aldeia da Irlanda, criando e amando cavalos. Uma mulher destemida, arisca, temperamental, mas sobretudo amante dos seus, embora nem sempre o consiga demonstrar de forma clara.
Poderia ainda referir um ou outro pormenor que me deixou algo incómoda, mas assim estaria a ser demasiado injusta com uma obra e uma autora que me deram aquilo que procurava – uma leitura tranquila e rápida, com quase tudo bem mastigadinho. Por essa razão prefiro não me alongar mais, porque conhecendo-me como me conheço, nada de muito lisonjeiro sairia dessas palavras. Gostei de conhecer “as letras” de Jojo Moyes, não desdenho a possibilidade de voltar a “prová-lo”, mas para já regresso com avidez àquelas leituras que me deixam exaurida, mas saciada e feliz.

NOTA – 07/10

Sinopse
1953, Isabel II é coroada. A comunidade inglesa em Hong Kong reúne-se para celebrar o acontecimento. Para Joy, trata-se apenas de mais uma reunião enfadonha, idêntica a tantas outras. Mas a sua vida transformar-se-á nessa mesma noite ao conhecer o jovem oficial da Marinha Edward Ballantyne. A impulsiva proposta de casamento após um breve encontro parece ser a resposta a todos os desejos de Joy.
Mais de quarenta anos volvidos, Joy e Edward vivem na Irlanda e a sua relação com Kate, a filha, e Sabine, a neta de dezasseis anos, é distante e fria. Em Londres, Kate tenta resolver mais uma das suas inúmeras crises amorosas e, numa tentativa de proteger Sabine, decide que ela vá passar umas férias com os avós.
Para surpresa geral, Sabine parece adaptar-se bem à vida no campo e ao difícil temperamento da avó. Até que o súbito agravamento do estado de saúde de Edward obriga Kate a um inesperado regresso à casa de família, reabrindo as velhas feridas que a separam de Joy. Que segredos afastam mãe e filha? Poderá Sabine unir duas gerações tão diferentes, ou cairá também ela no silêncio que as separa? 

A vida no campo, de Joel Neto


Ficha técnica
TítuloA vida no campo
Autor – Joel Neto
Editora – Marcador
Páginas – 228
Datas de leitura – de 06 a 14 de abril de 2017


Opinião
Nesta época pascal, na qual a primavera que rebentou em força nos faz olhar com encanto e confiança para os dias que aí se avizinham, tive o privilégio de viajar (fisicamente) até a outra ponta desta península “à beira-mar plantada” e de, através das belíssimas e serenas palavras de Joel Neto, atravessar o Atlântico e penetrar nas portas da sua casa em Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, ilha Terceira, Açores.
Nunca estive no arquipélago açoriano. Até hoje, apenas pude sentir-lhe o sabor a partir da partilha de relatos de amigos e familiares, de imagens e fotos, do anticiclone homónimo e ultimamente dos escritos de Joel Neto, um autor que me arrebatou com a obra Arquipélago. Contudo, apesar de o contacto com essas nove ilhas mágicas nunca ter passado disso, sinto uma vontade imensa em aterrar numa das ilhas, calcorrear a sua paisagem, fixar o olhar naquela imensidão de mar, absorver o seu verde até à náusea e inclusive experimentar a sensação de claustrofobia que me aprisiona sempre que estou num pedacinho de terra rodeado de água.
Como monetariamente ainda não me pude dar ao luxo de desfrutar de uns dias nos Açores, vou tentando colmatar essa falha nas minhas escapadelas geográficas com escapadelas literárias. Sendo assim, tento escolher os “guias” mais conhecedores e que, através de uma linguagem simples e serena, me oriente e dê autonomia para que o deslumbramento seja intenso e pleno, tal como o é tudo o que se relaciona com umas ilhas onde a palavra “paraíso” continua a fazer completo sentido.
Joel Neto entrou na minha vida com o seu Arquipélago. E deixou marca. Uma marca indelével e que exige o que qualquer obra sublime exige – busca companhia, busca outras narrativas do mesmo autor que deixem o leitor em estado de êxtase. De novo.
Sabia de antemão que A vida no campo não era uma narrativa ficcionada. Sabia que se assemelhava a um diário que nos possibilitava seguir as pisadas de Joel Neto durante um ano, durante as quatro estações em que a obra está dividida. Mas estava confiante de que voltaria a deliciar-me não só com o estilo singelo do autor como com uma continuação de uma ode à infância, às gentes que povoaram não só esta etapa como a mais adulta e à simplicidade e magia do verde e do azul das paisagens açorianas.
Não estava enganada. Joel Neto apropria-se de tudo – sobretudo o mais corriqueiro e quotidiano – para partilhá-lo connosco. O seu dia-a-dia no lugar de Dois Caminhos e os passeios que vai fazendo por outras bandas da sua ilha, as suas fugidas para Lisboa, a gente que traz um colorido especial à sua rotina, os costumes, tradições, linguagens e nomes estapafúrdios que abundam pela ilha da Terceira e vizinhas, tudo isto escrito num estilo muito simples, prosaico, mas repleto de humor, alguma ironia e com muita matéria para reflexão.
Foi, como é fácil de adivinhar, uma leitura muito produtiva, que me abriu de novo as portas para entrar no arquipélago açoriano, mas que me deixou, por um lado, imensamente agradecida a Joel Neto e desejosa de ler mais dos seus escritos e, por outro, com um travinho de frustração, já que pude, a partir das suas palavras, viajar do continente até à Terceira, mas não estive verdadeiramente lá e sei que, se já lá estivesse estado, sentiria como mais minhas as paisagens, as gentes, as alterações climatéricas, as tradições, as comidas, enfim a alma açoriana. É só por esta razão que não lhe atribuo a nota máxima. Apenas por isso.
Termino com alguns dos muitos fragmentos que fui sublinhando:

Àquele silêncio nunca mais o encontrei. Acho que é sobre ele que escrevo todos os dias.”
Mas não tenho uma insónia há quase dois anos e meio.”
No alarm and no surprises cantam os Radiohead. Tenho o disco no porta-luvas desde o primeiro dia – quase todas as semanas o ponho no leitor.” (Muito bom gosto musical, Joel)
As mentiras em que as pessoas sustentam a sua felicidade são tão válidas como as verdades.”

NOTA – 09/10

Sinopse

Um homem e uma mulher. Um jardim e uma horta. Dois cães. Ao fim de vinte anos na grande cidade, Joel Neto instalou-se no pequeno lugar de Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, ilha Terceira. Rodeado de uma paisagem estonteante, das memórias da infância e de uma panóplia de vizinhos de modos simples e vocação filosófica, descobriu que, afinal, a vida pode mesmo ser mais serena, mais barata e mais livre. E, se calhar, mais inteligente.

As horas distantes, de Kate Morton


Ficha técnica
TítuloAs horas distantes
Autora – Kate Morton
Editora – Porto Editora
Páginas – 528
Datas de leitura – de 22 de março a 06 de abril de 2017


Opinião

Paredes antigas que entoam as horas distantes.” (pág. 63)

Bastaram três livros para que Kate Morton se tornasse numa das minhas autoras preferidas. Melhor dizendo, bastaram dois, pois este que acabei de ler há uns dias serviu apenas de confirmação.
Já o afirmei e repito-o – não considero esta autora australiana um “monstro” da literatura. Não o é, mas também não necessita sê-lo, pois tudo o que escreve, as histórias que engendra, as personagens que concebe, os inúmeros saltos temporais que apimentam a narrativa, os cenários onde esta se desenrola, tudo é sinónimo de prazeres perfeitos e de leituras que nos enchem, que extravasam para além das páginas das correspondentes obras e se enroscam em nós indefinidamente.
Depois de ter lido e devorado O Jardim dos segredos e O segredo da Casa de Riverton, admito que tinha expectativas elevadíssimas, mas estava certa de que esta narrativa que me levaria de novo para terras misteriosas da Inglaterra não as defraudaria. Bem pelo contrário. Iria preencher-me os dias com minutos de leitura que passariam como se segundos fossem, iria desligar-me de tudo o que se passasse à minha volta e iria provocar-me a conhecida sensação agridoce que sempre se me produz quando tenho entre mãos uma história que quero devorar e ao mesmo tempo saborear pedacinho a pedacinho, para apoderar-me de todo o seu sabor.
Tal como acontece com as suas antecessoras, esta narrativa pula constantemente entre o presente – 1992 – e o passado – década de 1940, sobretudo. O elo de ligação entre estes dois tempos é uma carta que chega ao seu destinatário cinquenta anos depois e que desencadeia consequências imediatas em quem a abre e estranheza, suspeita e uma vontade incontrolável de querer saber mais em quem presencia o estado de choque do destinatário e obviamente no leitor.
Edie é uma jovem cuja vida se encontra posicionada numa encruzilhada. Recém-saída de uma relação, funcionária de uma editora sem perspetivas de futuro e filha única de um casal de classe média, a nossa protagonista testemunha o quanto a chegada de uma carta escrita há cinquenta anos perturba a sua mãe e sente-se obrigada a tentar perceber o que continha essa carta e quem são na verdade as irmãs Blythe, com quem a mãe passou uma temporada nos anos 40, época na qual muitas famílias londrinas enviaram as suas crianças para casas de famílias rurais para assim tentarem salvá-las dos bombardeamentos alemães.
Está assim lançado o ponto de partida para uma leitura repleta de mistério, de personagens que nos vão cativando e de toda uma panóplia de motivos suculentos que fazem o leitor querer ler mais um parágrafo, mais uma página, mais um capítulo, mais uma das cinco partes que compõem a obra. Para além de saltarmos no tempo, vamos viajando entre Londres e Milderhurst, onde se encontra o castelo homónimo e residência das irmãs Blythe, e vamos também alternando de narrador, pois sempre que voltamos ao presente, Edie assume esse papel enquanto nos múltiplos recuos ao passado, o narrador é heterodiegético. Vamos ainda travando conhecimento com um leque de personagens muito interessantes, algumas das quais habitam as duas épocas. É o caso obviamente das três irmãs Blythe e da mãe de Edie (apenas para nomear aquelas que têm um papel mais preponderante na trama).
Quem está familiarizado com a obra literária de Kate Morton, sabe que a autora preza o universo feminino e que são as mulheres, tenham a idade que tenham, que movem a narrativa, que lhe dão, para além de movimento, cor, intensidade, emoção, vida. Em As horas distantes, temos o privilégio de conviver com cinco mulheres determinadas, umas mais pragmáticas, outras mais sensíveis, mais emotivas, mas todas elas dotadas de um poder e de um magnetismo que não nos deixam indiferentes. Nem poderia ser de outra forma.
Outra razão que me impele a corroer-me de uma vontade irrefreável em devorar tudo o que esta autora australiana escreve são os cenários nos quais as personagens deambulam em busca de respostas a variados mistérios. Se nas obras anteriores tinha ficado atrapada pelos encantos e segredos de uma casa senhorial e de um jardim, desta vez não consegui resistir às paredes antigas e conhecedoras de um castelo, que entoam, se nos detivermos a escutá-las, horas e histórias distantes. O castelo de Milderhurst, com o seu aspeto imponente, majestoso e que resiste com a dignidade possível à implacável passagem do tempo provoca, em quem o visita, emoções e sensações antagónicas. Quando Edie se aproxima das suas paredes pela primeira vez, entendemos, como se fôssemos nós mesmos a aproximar-nos, que os calafrios de medo e angústia que a povoam lutam em pé de igualdade com uma atração irresistível que guia os seus passos e a levam a querer e a não querer ali estar, a querer e a não querer visitar mais uma dependência degradada, a querer e não querer percorrer espaços que há cinquenta anos atrás tanto seduziram a sua mãe.
Como se tudo isto não bastasse, a autora ainda apimenta a narrativa com múltiplos segredos que vamos desvendando até às derradeiras páginas e revelando na altura certa as múltiplas camadas que moldam o carácter e a vida cada uma das suas fascinantes personagens. Abri os braços e deixei que cada uma das irmãs Blythe – Percy, Saffy e a deliciosa Juniper – e Edie e a sua mãe se acocorassem no meu colo, porque todas, sem exceção são arrebatadoras e merecedoras de um lugar de destaque no leque de personagens inesquecíveis.
As horas distantes proporcionaram, como não é difícil de adivinhar, uma leitura soberba, da que não vou “desprender” tão cedo e que me faz repetir aqui aquilo que disse ao maridinho mal a terminei – “Das cinco obras que Kate Morton já publicou, eu já li três, isto é, já li mais do que as que me faltam… Oxalá ela nos brinde com uma obra nova muito em breve para equilibrar a balança – três lidas, três não lidas…
Para finalizar, reitero um desejo que já formulei aquando da leitura das outras obras – quem ainda não leu Kate Morton deve fazê-lo o quanto antes, porque está a perder experiências de leitura com um sabor único! Recomendo vivamente Kate Morton, rogo encarecidamente para que leiam todas as suas obras!

NOTA – 10/10


Sinopse
Tudo começa quando uma carta, perdida há mais de meio século, chega finalmente ao seu destino...
Evacuada de Londres, no início da II Guerra Mundial, a jovem Meredith Burchill é acolhida pela família Blythe no majestoso Castelo de Milderhurst. Aí, descobre o prazer dos livros e da fantasia, mas também os seus perigos.
Cinquenta anos depois, Edie procura decifrar os enigmas que envolvem a juventude da sua mãe e a sua relação com as excêntricas irmãs Blythe, que permaneceram no castelo desde então. Há muito isoladas do mundo, elas sofrem as consequências de terríveis acontecimentos que modificaram os seus destinos para sempre.

No interior do decadente castelo, Edie começa a deslindar o passado de Meredith. Mas há outros segredos escondidos nas paredes do edifício. A verdade do que realmente aconteceu nas horas distantes do Castelo de Milderhurst irá por fim ser revelada...