Ruínas, de Hugo Lourenço


Ficha técnica
TítuloRuínas
Autor – Hugo Lourenço
Editora – Esfera do Caos
Páginas – 168
Data de leitura – de 06 a 12 de novembro de 2017

Opinião
No início do mês de outubro, o autor Hugo Lourenço contactou-me perguntando-me se estaria interessada em ler a sua obra e em fazer a correspondente crítica. É óbvio que fiquei muito contente com o pedido e acedi de imediato ao mesmo.
Confesso que o autor me era completamente desconhecido até àquele momento e, como nos últimos tempos tento fugir às tentações, não pondo os pés em muitas livrarias, não havia tropeçado ainda em Ruínas, a sua obra de estreia.
Terminei de lê-la há alguns dias e há conclusões que são óbvias. Apesar de ser muito jovem, Hugo Lourenço possui já uma bagagem cultural e literária considerável. A mesma está presente em constantes referências bibliográficas, em assertivas comparações de personagens, situações e contextos e em opiniões que o autor esboça, fundamentando-as com citações ou passagens de uma obra consagrada, como a Bíblia. É igualmente claro que muito do que está presente na obra provém do lado mais pessoal e mais biográfico do seu autor. A personagem principal é um jovem desiludido com as escassas oportunidades que tem tido na vida, um jovem que tem que passar um infindável número de horas por trás de um balcão, vendendo bilhetes de cinema e pipocas, porque tem que buscar a sua subsistência, tem que pagar as contas ao final do dia e porque o curso superior que tirou não dá dinheiro, como sempre lhe repetiu o pai. É ainda fácil de constatar que a referida escassez de oportunidades que afeta o protagonista e o autor deixa transparecer uma amargura que caracteriza a juventude dos dias de hoje – uma juventude envenenada pela precariedade de um futuro onde os sonhos não se cumprem, onde os jovens não conseguem cumprir-se profissionalmente.
Ruínas é assim uma obra onde habita muita amargura, muita desilusão. Porém não é apenas isso. É também uma obra que retrata a amizade de três rapazes que se conhecem desde os tempos de primária, três rapazes com personalidades e modos de ver a vida antagónicos. Daniel é o explosivo, o problemático, o que vive no limite. Ricardo é o menino de bem, nascido numa família de posses, que almeja a perfeição, a beleza, a luz. O narrador/protagonista é o inseguro, o tranquilo, o que tenta equilibrar o lado solar e o lado lunar de Ricardo e Daniel. Juntos criam uma amizade que à partida seria pouco provável de acontecer entre os três. Juntos vão conhecendo a vida, apesar de esta os ir separando à medida que vão crescendo. Juntos entabulam conversas que abordam o corriqueiro, o banal e abordam os sonhos, os medos, as angústias, a vida e a morte. Juntos representam três lados de uma realidade que poderá ser a nossa ou uma muito próxima de nós. Uma realidade de mundos díspares, que a amizade pode aproximar por breves instantes, mas que a amargura, a falta de oportunidades, a inveja, a solidão, o berço pode fragmentar e levar a um desfecho previsível, mas muito real.
Pessoalmente consegui identificar-me com o protagonista e com Daniel. Um é o resultado da já referida precariedade e da desilusão de muitas portas que se fecharam. O outro nasceu para ser o saco de porrada do pai, o menino a quem a mãe nunca defendeu da violência do pai, o rapaz que não conhece outra realidade que não essa, que busca um escape nas drogas. Com o Ricardo não consegui, porém, criar laços. É uma personagem esquiva, que vive num mundo muito seu, repleto de ideais inatingíveis e que soçobra quando a realidade, a imperfeição e a sujidade da vida lhe estraçalham as quimeras que sempre defendeu. O seu final pareceu-me pouco conseguido e também não fui capaz de engolir o “final paralelo” que o narrador imaginou, engendrou na sua cabeça, enquanto dava um passeio pela baixa lisboeta, tentando assim perdoar-se por não ter estado mais presente na vida de Ricardo e mesmo na de Daniel. Soou-me a forçado, a demasiado irrealista, ingénuo, contraditório face ao pendor amargurado do resto da obra.
Por tudo o que referi até ao momento, acho que tanto o autor como todos os que lerem esta opinião irão compreender-me quando digo que Ruínas me proporcionou uma leitura muito interessante, com trechos muito bem conseguidos, nomeadamente aqueles que, por um lado, aludem à triste realidade dos jovens portugueses a quem a vida, o país não oferecem as oportunidades necessárias para se realizarem profissionalmente e aqueles que, por outro, veiculam e pedem para que se comece a dar mais valor à arte, à arte como mote de mudança, de resistência ao cinzentismo que abafa sonhos, projetos, vontades. Espero que também me compreendam quando afirmo que a obra transparece o quanto o autor estava desejoso de se mostrar ao mundo enquanto criador, enquanto dono de uma voz, de uma opinião, de um saber a partilhar e que essa ânsia, esse desejo por vezes tornam confusos e repetitivos alguns momentos da obra. Por fim, espero que todos os que lerem esta opinião vejam o potencial que está por detrás da escrita de Hugo Lourenço, arrisquem a ler Ruínas e lhe desejem, como eu, um futuro brilhante, onde a escrita continue a aprimorar-se e lhe traga o sucesso que merece.
Termino agradecendo, e muito, ao autor por me ter disponibilizado um exemplar da obra e reiterando os meus votos de muito sucesso. Eu cá estarei para seguir com muita atenção o que vier a publicar no futuro. Continua o bom trabalho, Hugo!

NOTA – 07/10

Sinopse

A precariedade laboral e os empregos rotineiros. Uma juventude desiludida e assolada por falsas promessas. As frustrações de um jovem adulto, inteligente e bem preparado, que, num país em crise, não encontra mais que trabalhos mal pagos e incapazes de o fazerem sentir-se realizado. 

O rosto da avó, de Simona Ciraolo


Ficha técnica
TítuloO Rosto da Avó
Autora – Simona Ciraolo
Editora – Orpheu Negro
Páginas – 36
Data de leitura – 05 de novembro de 2017

Opinião
Sei que já é altura para não o fazer, porque tenho provas suficientes de que a literatura dos mais pequenos é do melhor que há, mas ainda me deslumbro como uma criança, ainda arregalo os olhos de puro prazer quando deito a mão a uma historinha infantil e esta, que veio da biblioteca há duas semanas atrás, veio confirmar isso mesmo. Eu, já dona também de alguns cabelos brancos e de algumas rugas, rendi-me completamente a esta história de uma avó que mata a curiosidade da neta e lhe confidencia as histórias que estão por detrás das rugas que sulcam o seu rosto.
A história conta-se em meia dúzia de palavras. Há partes que nos chegam apenas através de ilustrações lindíssimas, que conseguem transmitir-nos na perfeição o que vai no pensamento de uma avó que sabe a que momento da sua vida corresponde cada uma das múltiplas rugas que cobrem o seu rosto – momentos de dor, de saudade, de sofrimento e momentos de alegria, de sorrisos, de felicidade.
Uma união mágica entre palavras e ilustrações, entre uma neta e uma avó, entre uma obra e um leitor de qualquer idade, entre uma história e eu, que não pude conter as lágrimas desde que a abri até que a encerrei. Uma união simples, comovedora e sublime, como conseguem ser as boas e saborosas histórias infantis.
Amei de paixão, sem dúvida!

NOTA – 10/10

Sinopse
O que é que guardas nesta linha, avó?
E o que é que está nestas pequeninas?
Hoje a avó faz anos e é dia de festa para toda a família!
Mas a menina está intrigada: como podem as linhas que marcam o rosto da avó ser tão pequeninas e guardar tantas memórias?

O bibliotecário de Paris, de Mark Pryor


Ficha técnica
TítuloO bibliotecário de Paris
Autor – Mark Pryor
Editora – Clube do Autor
Páginas – 328
Data de leitura – de 01 a 05 de novembro de 2017

Opinião
Quem me conhece sabe que o género policial não é um dos meus géneros favoritos. Aliás, há uns bons anos que não lia nenhum. Mas a editora Clube do Autor teve, ao longo do mês de outubro, a gentileza de deixar na minha caixa do correio três miminhos e um deles foi esta obra que é protagonizada por Hugo Marston, chefe de segurança da embaixada norte-americana em Paris, e que alguns leitores poderão conhecer da obra O livreiro, também publicada sob a chancela da editora Clube do Autor.
Parti para esta leitura sem qualquer expectativa, sabendo apenas aquilo que me contou a sinopse e tirando algumas ilações da imagem da capa. A trama inicia-se com a morte do diretor da Biblioteca Americana de Paris que acontece aparentemente de causas naturais. Contudo, o que à partida parece ser um óbito causado por um ataque cardíaco acaba por revelar-se um assassinato que é seguido de outras mortes não menos estranhas. Com a ajuda de uma inspetora da Polícia Francesa, Hugo Marston, amigo do diretor da biblioteca assassinado, seguirá um rasto de pistas complexas e desencontradas para poder finalmente encontrar o assassino.
Mesmo não sendo grande apreciadora do género, a leitura desta obra foi muito agradável e encaixou na perfeição num início de mês caótico a nível profissional. Fui seguindo com interesse as manobras policiais do protagonista e da inspetora Camille Lerens, ganhando simpatia pelos dois, abrindo um sorriso à sua cumplicidade e tentando manter a mente aberta para poder responder à principal pergunta que assola um leitor de um romance deste género – quem é afinal o assassino? Confesso que suspeitei praticamente de toda a gente e que por isso não foi uma surpresa esmagadora quando, por fim, o homicida foi descoberto. Porém, o autor fez um ótimo trabalho nesse aspeto, pois, pelo menos para mim, amadora nestas andanças, Mark Pryor urdiu a trama de forma engenhosa, deixando pelo caminho algumas pistas que podem passar despercebidas aos mais desatentos, mas que encaixam umas nas outras no final e esclarecem os motivos que estiveram por trás dos assassinatos e como é que os mesmos ocorreram.
Quem, como eu, entra nesta leitura sabendo apenas o que lhe informam a sinopse e a imagem da capa, pode pensar que, para além da trama puramente policial, O bibliotecário de Paris evoca a Segunda Grande Guerra e que esta época, que tanto mexe com as minhas predileções, terá um papel fundamental para o desenlace dos assassinatos. Contudo e apesar de a narrativa contar com uma personagem que se suspeita ter estado envolvida na Resistência francesa à ocupação nazi, não se pode afirmar que esse período de que tanto gosto, tenha uma participação tão marcante no enredo e que sobretudo a imagem da capa não seja mais do que uma algo dececionante manobra de diversão ou de simples marketing. É certo que existe uma personagem secundária, que irrompe na narrativa porque é amiga de uma amiga do protagonista, que está interessadíssima em escarafunchar tudo a que possa deitar a mão para descobrir se os boatos que correm sobre o envolvimento de uma atriz famosa com a Resistência francesa são verdadeiros, mas esse interesse parece, por um lado, ser somente uma intriga muito secundária que corre paralela à principal e, por outro, indicar que o autor poderá em breve lançar uma nova obra protagonizada por Hugo Marston para que este se lance em busca da verdade sobre os referidos boatos. A ver vamos. Se assim for, eu não me importo nada de regressar a Paris e acompanhar Hugo Marston, personagem com quem simpatizei desde o princípio.
Resumindo o que fui dizendo até aqui, reitero que esta leitura foi deveras agradável, que abriu brechas na minha resistência em ler obras policiais e que o autor mostrou saber como manter o interesse dos leitores e não defraudar as suas expectativas, principalmente aquelas que pedem que não se saiba demasiado cedo quem é o responsável pelos vários assassinatos que dar cor a uma obra com características policiais. Por tudo isto, refiro mais uma vez que Mark Pryor fez um bom trabalho.
Resta-me agradecer à editora Clube do Autor o envio da obra e a confiança que deposita em mim e no meu cantinho!

NOTA – 07/10

Tal como disse, este livro foi-me disponibilizado pela Editora Clube do Autor em troca de uma opinião sincera. Podes obter mais informações sobre a obra clicando aqui.




Sinopse
A morte de um oficial nazi durante a ocupação de Paris pode ser a chave para resolver um mistério do presente.
O diretor da Biblioteca Americana em Paris é encontrado morto numa sala trancada. A polícia conclui que o homem morreu de causas naturais, porém o responsável pela segurança da Embaixada dos EUA tem a certeza de que algo errado se passou. A sua investigação leva-o até à cena do crime cometido durante a Segunda Guerra e as suas descobertas vão surpreender tudo e todos.

Balanço mensal - livros lidos e recebidos em outubro


Tal como calculava, este mês não seguiu as pisadas dos seus antecessores. O trabalho intrometeu-se e encolheu para tamanhos reduzidíssimos o tempo que posso dedicar às minhas saborosas leituras. Por isso, apenas li quatro obras – uma juvenil e três adultas.
É certo que os números não foram os desejados, mas outubro foi dos melhores meses deste ano, já que a nota mínima que atribuí às correspondentes leituras foi um nove, uma nota que espelha a quase perfeição!
A primeira leitura mensal levou-me a um mundo de que gosto muito – o mundo das letras e das histórias que saem da imaginação criativa da autora Joanne Harris. Uma questão de classe é a sequela da obra Xeque ao Rei e volta a levar-nos para lá dos portões de um colégio masculino, onde a modernidade resiste a penetrar e onde dá aulas um dos professores literários a que devoto maior carinho e devoção – Roy Straitley. Voltamos, tal como acontece na obra precedente, a contactar com acontecimentos que abalam as paredes centenárias do colégio, a ficar agarrados à narrativa para querer a todo o custo obter respostas e a levarmos um abanão quando aquilo que tínhamos como garantido desde as páginas iniciais desaba como um castelo de cartas. Foi assim uma leitura que consolidou ainda mais a paixão que tenho por aquilo que Joanne Harris escreve, uma leitura a que atribuí a nota máxima e uma leitura que deveras recomendo, mesmo àqueles que não leram Xeque ao Rei, porque, apesar de em Uma questão de classe se tropeçar com referências ao que se passou na narrativa precedente, essas mesmas não atrapalham em nada a compreensão da narrativa consequente. Bem pelo contrário. Aguçam a vontade de voltar ao contacto com Roy Straitley e de conhecê-lo ligeiramente mais novo.
Se adoro Joanne Harris, tenho que admitir que sou obcecada por Kate Morton, a cujas obras que já li sempre atribuí nota máxima. O último adeus não foi exceção. E como poderia sê-lo, se as mais de seiscentas páginas se tornaram curtas e se desejei a todo o custo que fossem o dobro! A narrativa é apaixonante, o enredo salta, como de costume, do presente para o passado, há uma dose suculenta de mistério e emoção que nos faz roer as unhas e rebentar a chorar e as personagens são fascinantes, sobretudo as femininas. Recomendadíssima! Recomendadíssima! Recomendadíssima!
Depois de dois calhamaços de mais de meio milhar de páginas, decidi fazer um parênteses antes de saltar para o próximo e trouxe da biblioteca municipal uma obra de António Mota que estava na minha wishlist “bibliotecária” desde que havia lido que o autor havia derramado lágrimas ao escrever o seu desenlace. A casa das bengalas retrata uma realidade cada vez mais presente na vida de todos nós, o facto de os nossos velhinhos viverem na solidão, de os seus filhos não terem como tratar deles ou não quererem tratar deles e de o final da vida ser frequentemente um período de dor, de desilusão, de desunião e não de paz, harmonia e união. Foi uma leitura que mexeu comigo de uma forma muito pessoal, como todas as leituras com velhinhos são.
Terminei o mês como o iniciei – lendo um calhamaço que já habitava a minha estante desde janeiro. Regressei a uma das épocas históricas preferidas – a Segunda Grande Guerra – para viver de perto a ocupação nazi em França e compreender melhor como os locais se adaptaram a mais uma guerra, a obedecer a soldados alemães, a perderem amigos e conhecidos apenas porque professavam a religião judaica e a tentarem criar meios para resistir a essa ocupação e tentar ganhar a guerra contando apenas com um punhado de gente temerária e disposta a perder vida para voltar a trazer a liberdade para o seu país. O rouxinol permite-nos isto tudo e mais – conhecer de perto duas irmãs, duas mulheres de personalidades opostas mas apaixonantes, que tornam uma narrativa de guerra, já de si empolgante, em maravilhosamente empolgante. Foi a primeira obra que li de Kristin Hannah, mas não será, de certeza absoluta, a última!

Quem segue com assiduidade este meu cantinho, sabe que em agosto fiz a promessa de não comprar nenhum livro para mim até ao final do ano. Em setembro fui uma linda menina e mantive essa promessa. Em outubro a promessa também não caiu, fui mais forte do que as tentações e pus outro mês para trás – só faltam dois J Contudo, essa vontade férrea foi premiada e os dois homens cá de casa obrigaram-me a aceitar uma oferta feita com muito carinho – O pianista de hotel, de Rodrigo Guedes de Carvalho. Da editora Clube do Autor caíram na caixa do correio três romances – O bibliotecário de Paris, de Mark Pryor; A cicatriz do mal, de Pierre Lemaitre e Os nove magníficos, de Helena Sacadura Cabral. Por fim, o autor Hugo Lourenço enviou-me o seu romance de estreia – Ruínas – para que o leia e publique no blogue a correspondente opinião. Como vêm, não tenho gastado dinheiro em novas aquisições, mas, tal como diz o maridinho, nem sequer preciso, pois livros novos não param de chegar à estante!

A ver agora o que me reserva este mês que já vai quase a meio! Espero que o vosso outubro tenha sido tão ou mais saboroso que o meu!

Termino deixando-vos os links para acederem à opinião completa das obras lidas este mês:
§  Uma questão de classe, de Joanne Harris
§  O último adeus, de Kate Morton
§  A casa das bengalas, de António Mota
§  O rouxinol, de Kristin Hannah

O Rouxinol, de Kristin Hannah


Ficha técnica
TítuloO rouxinol
Autora – Kristin Hannah
Editora – Bertrand Editora
Páginas – 504
Data de leitura – de 24 a 31 de outubro de 2017

Opinião
As expectativas eram muito altas. Há quase um ano que esta obra morava na prateleira dos livros não lidos e há quase um ano que me pedia encarecidamente que a lesse. Mas nisto das leituras sou um bocadinho masoquista (como todos já devem saber) e, como tal, não cedi ao desejo de pegar-lhe antes que chegasse a sua vez. Entretanto, fui aconselhando-a a várias pessoas, tal era a minha confiança de que a sua narrativa, a sua contextualização histórica e as suas personagens não defraudariam. E não defraudaram. Nem as minhas expectativas nem as de quem embarcou na sua leitura primeiro do que eu.
A narrativa de O Rouxinol está bipartida. Inicia em 1995, nos Estados Unidos e narrada na primeira pessoa. No seu segundo capítulo recuamos ao ano de 1939, aos dias que antecedem o começo da segunda Grande Guerra, e conhecemos Vianne, uma jovem mulher francesa, que vive na aldeia de Carriveau na companhia do marido e da filha. A partir daqui viajaremos entre os dois lados do oceano, saltaremos do final do século XX para os seis anos hediondos que arrasaram a superfície de inúmeros países e as vidas de milhões de seres humanos, seguiremos de muito perto, como se fôssemos as suas sombras, os passos de duas irmãs, de Vianne e de Isabelle, e constataremos, uma vez mais, que as guerras não são apenas combatidas pelos homens.
Vianne e Isabelle são órfãs de mãe. E também poderemos dizer que são órfãs de pai, pois Julien Rossignol perdeu a alma e a vontade de viver nas trincheiras da Primeira Grande Guerra e regressou das mesmas oco de sentimentos e destroçado por dentro. As duas irmãs viram-se assim entregues a elas próprias, afundadas na dor de perder os dois progenitores praticamente ao mesmo tempo e sem saberem como lidar com isso. Vianne, a mais velha, não foi capaz de amparar e cuidar da pequenita Isabelle e um fosso foi crescendo entre as duas. Rapidamente se separaram e enquanto Vianne engravidou e casou muito novinha, Isabelle foi sendo escorraçada de colégio em colégio devido ao seu carácter tumultuoso e a uma vontade feroz de não depender nem obedecer a ninguém.
Quando a guerra começa, as duas irmãs possuem visões e vontades opostas. Enquanto Vianne tenta a todo o custo manter a sua casa, sobreviver e fazer o possível para que não falte nada à sua filhota, Isabelle dá asas ao seu lado impetuoso e procura, de forma quase descarada, lutar contra o inimigo e ajudar a que a França não se verga ainda mais. Teremos assim o mote lançado para acompanharmos as duas irmãs ao longo dos anos da ocupação nazi e, como é óbvio, entranharmo-nos numa narrativa apaixonante, sofredora, dorida e emotiva, como são todas as narrativas bem estruturadas, bem escritas e que se debruçam sobre um conflito que tem tanto de horrendo como de entusiasmante para aqueles que, como eu, não se cansam de saber mais, de ler mais sobre essa época.
O Rouxinol é uma obra que, como facilmente se depreende, nos oferece um lado da guerra que não é muitas vezes explorado. O lado feminino, das mulheres que se vêm sem os maridos, os namorados, os irmãos, os pais e que sobrevivem. Sobrevivem tendo que conviver muitas vezes de forma íntima com o inimigo que se apropria das suas casas, sobrevivem passando horas intermináveis em filas em busca de algo para comer, sobrevivem escondendo as suas angústias e medos para que os filhos não sofram ainda mais, sobrevivem ultrapassando esses medos e pondo as suas vidas em perigo apenas para ajudar quem ainda está em piores situações. São heroínas anónimas, mas são heroínas que nos conquistam o coração, como Vianne conquistou o meu. É certo que Isabelle é mais temerária, ajudou o seu país de forma mais concreta que a sua irmã, porém Vianne é mãe, é uma mulher como qualquer uma de nós, que sabe que ações grandiosas e arriscadas podem pôr em perigo a segurança e a vida da sua filha e que, por isso, prefere salvaguardar o que é seu, com sensatez e bom senso.
As duas irmãs são personagens fascinantes e estão rodeadas de outras que contribuem para que a obra seja também ela fascinante. A época que ocupa grande parte da sua trama, a cuidada contextualização, os acontecimentos dolorosos que afetam a vida das irmãs e dos seus entes queridos, a veracidade que os habita mesmo sendo uma obra ficcionada e um epílogo pungente (fez-me derramar inúmeras lágrimas) que finalmente desvela o elo entre o presente e o passado são motivos mais do que suficientes para que eu tenha adorado a companhia que O Rouxinol me fez durante a última semana de outubro e para recomendar vivamente a sua leitura. Tenho apenas que dizer que não lhe atribuo a nota máxima por causa do seu início, sobretudo porque considero que a caracterização de Isabelle, bem como as suas atitudes, são algo exageradas. Pareceu-me que a autora “esticou a corda” ao vincar tanto a sua petulância, a sua imaturidade, a sua impulsividade, o que não era de todo necessário.
Agora resta-me estar atenta a outras obras da autora, porque se forem tão boas como esta, têm que ser de leitura obrigatória! Se conhecerem outros títulos seus que sejam suculentos como O Rouxinol, deixem-nos nos comentários. Eu agradeço!

NOTA – 09/10

Sinopse

O Rouxinol narra a história de duas irmãs separadas pelos anos e pela experiência, pelos ideais, pela paixão e pelas circunstâncias, cada uma seguindo o seu próprio caminho arriscado em busca da sobrevivência, do amor e da liberdade numa França ocupada pelos alemães e arrasada pela guerra. Um romance muito belo e comovente que celebra a resistência do espírito humano e em particular no feminino. Um romance de uma vida, para todos.

A casa das bengalas, de António Mota


Ficha técnica
TítuloA casa das bengalas
Autor – António Mota
Editora – Gailivro
Páginas – 164
Data de leitura – de 21 a 22 de outubro de 2017

Opinião
A última obra que li de António Mota – Pedro Alecrim – conduziu-me a uma entrevista dada pelo autor a alunos de uma escola qualquer deste nosso país. Li-a com bastante interesse e fiquei em pulgas quando o autor referiu que a obra que o havia feito ir às lágrimas havia sido A casa das bengalas, que havia escrito as suas últimas páginas com os olhos marejados. É claro que não perdi tempo em tentar saber de que tratava a narrativa em questão e quando constatei que se centrava na solidão dos idosos, tratei logo de ver se a biblioteca da terrinha o tinha. E tinha-o, para minha grande alegria!
Por isso, na semana passada trouxe-o comigo e devorei-o praticamente todo numa manhã onde a leitura andou de mão dada com o desporto. A personagem principal é o avô Henrique que viveu a sua já longa vida numa aldeia perdida do interior do país. Vive sozinho na sua casinha e sempre cuidou de si próprio com brio e aprumo, mas agora que a saúde começa a pregar-lhe recorrentes partidas tem que obedecer à sua filha e fechar a porta da sua casinha, abandonar os seus pertences, deixar para trás tudo o que até então orientou os seus dias e passar uma temporada no apartamento da filha e posteriormente resignar-se a partilhar quarto com outro ancião num lar de terceira idade.
A obra é de 1995, mas o tema continua a ser muito pertinente. Cada vez mais. Os velhos que são vistos como velhos, como indesejados, como incómodos, como ocupadores de espaço e de tempo. Os velhos que se tenta despachar a qualquer custo para que definhem e sejam apenas um corpo enfezado, abatido numa cadeira ou numa cama qualquer, sem lampejo de calor ou vida. Os velhos que ninguém quer. Os velhos de que tenho tantas, mas tantas saudades e que tanto, mas tanto queria de novo comigo.
O avô Henrique abriu a ferida que nunca vai fechar, porém abriu-a com uma mistura de lágrimas e de sorrisos. Regressei aos meus tempos de adolescente, aos dias passados ao ar livre entre árvores de fruta, videiras, batatais, abóboras, milheiral, animais à solta; aos almoços e jantares na cozinha dos meus avós, divisão de construção tosca, mobilada com peças desconjuntadas e decorada com o indispensável calendário “que tem que ter as luas, que tem que ter as luas”. Voltei a sentir os meus velhinhos junto a mim graças aos diálogos carregados de sabedoria e experiência entre o avô Henrique e o seu neto Tião e a todo o carinho disfarçado de rudeza e pragmatismo que os envolvia sempre que estavam juntos.
Foi assim uma leitura muito emocional, muito pessoal. Foi mais uma prova (como se ainda precisasse de provas) do quanto a literatura infanto-juvenil me faz bem, me afaga e me tranquiliza. A casa das bengalas reforçou ainda o apreço que tenho pelo seu autor, criador de histórias simples, habitadas por personagens simples, portadoras de situações com as quais me identifico sempre por me serem muito familiares. Saio da sua leitura com um sorriso nos lábios, mesmo tendo vertido algumas lágrimas, tal como o fez o autor enquanto a escrevia. Saio feliz e apaziguada, prometendo a mim mesma um regresso rápido aos livrinhos infantis e juvenis.

NOTA – 09/10

Sinopse
Um avô que fica sozinho na aldeia. A cidade não o seduz, apesar de aí residir a escassa família que possui. O recurso a um lar de idosos para afastar a solidão daquele avô que precisa que alguém cuidasse dele. As visitas da família são frequentes mas rápidas, pois os visitantes "desta casa têm sempre muita pressa". Mas há o neto que não se esquece do que o avô lhe ensinou e está sempre pronto a satisfazer-lhe todos os caprichos.
Prémio António Botto.

O último adeus, de Kate Morton


Ficha técnica
TítuloO último adeus
Autora – Kate Morton
Editora – Suma de Letras
Páginas – 616
Data de leitura – de 12 a 21 de outubro de 2017

Opinião
Este mês vai ser curto em leituras, sobretudo porque viajei de um calhamaço para outro. De calhamaço de 494 páginas para outro de 616. São mais de 1000 páginas reunidas em apenas duas narrativas. Daí o número reduzidinho de obras lidas. Mas caramba, que importam números e quantidades quando aterram nas minhas mãos histórias tão sumarentas como as que saem do engenho e arte de Joanne Harris e de Kate Morton? Uma ninharia, importam uma ninharia.
O último adeus é a quarta obra que saboreio da australiana Kate Morton. E tal como as suas antecessoras, esta história que percorre espaços lindíssimos da Cornualha e as ruas movimentadas de Londres agarrou-me, prendeu-me, colou-me às suas páginas e comprovou o que não precisava de mais nenhum comprovativo – as obras desta autora cumprem as minhas expectativas, melhor dizendo, ultrapassam as expectativas que já de si são sempre elevadíssimas. Quarta obra lida, quarta obra a que atribuo a nota máxima.
O mote é familiar – uma recordação, uma carta, uma herança, uma casa abandonada descoberta por acaso. Algo que sacode a vida de uma jovem e que a “obriga” a escarafunchar um passado remoto abalroado por um acontecimento marcante ou trágico. Em O último adeus, Sadie, uma inspetora da Scotland Yard, refugia-se em casa do avô, na região da Cornualha, para esquecer o que a levou a ter que ausentar-se do trabalho. Numa das habituais corridas matinais, “tropeça” num jardim e numa casa abandonados. Espreita por uma das janelas e constata que no seu interior tudo está exatamente como era há setenta anos, como se os donos tivessem abandonado a casa sem olhar para trás, sem se preocuparem em levar nada consigo. Intrigada e com o seu faro de inspetora em alerta máximo, Sadie tudo faz para descobrir o que se terá passado naquela magnífica mansão e acaba por descobrir que no dia do solstício de verão do ano de 1933, o filho do casal Edevane, um bebé de pouco mais de um ano, desaparecera misteriosamente e nunca mais fora encontrado.
Os dados estavam assim lançados para uma leitura vertiginosa, que me fez, tal como aconteceu com as outras obras de Kate Morton, avançar desenfreadamente página atrás de página, saltar sem descanso do ano de 2003 para o início do século XX, para anos como os de 1911 ou 1933, conhecer e apaixonar-me por um conjunto de personagens fascinantes e voltar a render-me aos encantos da Cornualha (espaço que habita também a obra O Jardim dos segredos), uma região que tenho mesmo que visitar. Nos nove dias em que a obra não saiu do meu lado, bastava-me fechar os olhos para empreender uma viagem que me levava para junto de personagens que iluminaram e encheram os meus dias de uma luz e de um brilho ainda mais intenso. Senti-me como mais um elemento da família Edevane, senti-me como mais uma neta de Bertie, o avô de Sadie, vi-me ao lado desta muitíssimas vezes, a vasculhar, por um lado, jornais e outras provas que desde há setenta anos estavam à espera de que alguém as consultasse e a observá-la, por outro, a ampará-la sempre que se rendia ao desespero por não conseguir desvendar o mistério da criança desaparecida e nem conseguir encontrar um rumo para a sua vida.
Pressenti desde o início que esta seria uma leitura muito especial. Não esperava outra coisa de uma obra de Kate Morton. E como podem comprovar por tudo o que referi até ao momento, os pressentimentos cumpriram-se. Não só se cumpriram como se suplantaram. A autora sabe como poucos criar o ambiente perfeito para uma experiência também ela perfeita. A atmosfera possui a quantidade exata de mistério, de encantamento, de beleza, de sedução, as personagens enfeitiçam-nos, enredam-nos para que nos apaixonemos por elas, para que sintamos por cada uma delas uma forte ligação, os espaços por onde se movimentam são imagens que nos chegam como se as estivéssemos a ver num ecrã ou ao vivo e as emoções, os sentimentos, os dramas, as alegrias, os desesperos, as tentações rematam uma narrativa que é construída de uma forma muito simples, mas infalível.
  Já se passaram alguns dias desde que terminei de ler O último adeus. Entretanto li uma obra juvenil e estou no início de uma mais adulta. Contudo, ainda não saí de Loeanneth, ainda não fechei as portas da mansão da família Edevane. Não consegui ainda dizer um último adeus àquelas paredes quase centenárias e a todos que as habitaram ou as conheceram. Tenho saudades de Sadie, de Bertie, de todos os membros da família Edevane, mas a quem me está a custar mais dizer esse último adeus é a Eleanor, a mulher que criou três filhas enquanto o marido lutava pela pátria na Primeira Grande Guerra, que manteve a promessa que lhe fez, que se viu de um momento para o outro “órfã” do seu menino pequenino e que me conquistou por isto e por tantas outras facetas que não posso e nem devo revelar.
Kate Morton voltou a fazê-lo. Voltou a arrebatar-me, voltou a chocalhar o meu mundinho das leituras, voltou a deixar-me sedenta de mais histórias como muito poucos como ela sabem oferecer-me! Tão, mas tão bom que foi!
Rogo-vos – experimentem, leiam-na! Garanto-vos que vale a pena!

NOTA – 10/10

Sinopse
O melhor romance da autora reconhecida mundialmente pelo público e a crítica.
Numa majestosa casa de campo inglesa um miúdo desaparece sem deixar rasto. Setenta anos depois Sadie Sparrow, de visita a casa de seu avô, encontra uma mansão abandonada. Espreita através de uma janela e sente que alguma coisa terrível aconteceu nessa casa.

Uma questão de classe, de Joanne Harris


Ficha técnica
TítuloUma questão de classe
Autora – Joanne Harris
Editora – ASA
Páginas – 494
Data de leitura – de 30 de setembro a 09 de outubro de 2017

Opinião
Continuo a saga de deitar abaixo a pilha de livros que habitam as prateleiras dos não-lidos. Já estamos em outubro e ando ainda a ler aqueles que recebi em janeiro, aquando do meu aniversário! É claro que as leituras que trago da biblioteca da terrinha contribuem e muito para este mais do que significativo atraso, mas confesso-vos aqui, com um sorrisinho matreiro e uma piscadela de olho, que não me incomodo com o contínuo engordar da referida prateleira!... Aliás, poucas coisas me dão tanto prazer como olhar para ela, contar os livros que ainda tenho para ler e saborear com aquela antecipação gostosa a certeza de que eles estão ali, à minha espera J
Uma questão de classe, da minha querida “velha amiga”, Joanne Harris, foi a primeira obra que li daquelas que aterraram cá em casa em 2017. Todos os que me vão acompanhando aqui no blogue sabem que tenho um carinho especial por esta autora e a que muitas das suas obras atribuí a nota máxima. São exemplos disso Cinco quartos de laranja e Praia roubada. E, para grande alegria minha, a Uma questão de classe também não tive outro remédio que dar-lhe 10/10, porque, resumidamente, me agarrou e me surpreendeu do princípio ao fim!
Guiados por um professor e um antigo aluno, franqueamos os portões do Colégio de St. Oswald, um colégio exclusivamente masculino e algo avesso a ser contagiado pela modernidade. Num edifício histórico, proliferam os quadros a giz, os quadros de honra que remontam a muitos anos atrás, o cheiro a bafio, as poltronas deformadas, que encaixam que nem uma luva nas formas corporais de quem as usa para descansar após um dia esgotante de trabalho e professores, disciplinas e metodologias de ensino que assentam na tradição, na experiência e num formalismo que deixaria os alunos de hoje em dia estarrecidos.
Roy Straitley é professor de Latim há 34 anos em St. Oswald. Conhece as suas paredes, os seus recantos melhor do que os de sua casa, já que, para além de professor, foi ele próprio aluno do colégio. Está prestes a atingir a idade da reforma, mas essa perspetiva assusta-o, pois não concebe a sua vida fora de St. Oswald, sem transmitir os seus ensinamentos a miúdos que lhe alegram ou agitam os dias, que fazem com que a sua vida continue a fazer sentido. Prepara com afinco mais um ano letivo, apesar de saber que este será um ano de muitas mudanças, a começar pelo facto de o colégio vir a ser gerido por um novo diretor, que não é, nada mais, nada menos, do que Johnny Harrington, um ex-aluno seu, por quem sempre sentiu uma clara antipatia.
Estão assim lançados os dados para uma narrativa viva, pulsante, que nos cativa desde as suas páginas iniciais e que nos vai prendendo como dizem os amantes do xadrez que nos prende um jogo estrategicamente muito bem jogado. Vamos viajando de 1981 a 2005, através da perspetiva de Straitley e de um antigo aluno, conhecendo-os pouco a pouco, tentando saber com um crescente desespero o que esteve por detrás da condenação e consequente prisão de um antigo professor, tentando entender a animosidade que estala entre Straitley e Harrington e ficando assombrados com a mestria e a genialidade de Joanne Harris, que consegue, como muito poucos autores conseguem, agitar a trama com reviravoltas que nos fazem questionar tudo aquilo que tínhamos como garantido desde o início da leitura.
Como é percetível, adorei regressar ao mundo de Joanne Harris. Adorei voltar a ser surpreendida, adorei ler mais uma obra fantasticamente bem urdida, que puxou por mim desde a primeira página e sobretudo adorei Roy Straitley, com quem tenho o privilégio de partilhar a profissão. É uma personagem deliciosa, que nos arranca muitos sorrisos, por quem ganhamos um carinho que não para de crescer e a quem perdoamos todas as imperfeições. Ficará comigo por muito tempo, sem dúvida alguma.
Resta-me dizer-vos que esta obra é a “sequela” de outra que já li há mais de dez anos e da qual pouco ou nada me recordo. Falo-vos de Xeque ao rei. Fui ainda agora retirá-la da estante e prometi a mim mesma que a relerei muito em breve, porque quero regressar a St. Oswald, quero voltar a conviver com Roy Straitley e quero regressar ao mundo de Joanne Harris, que tanto me enche as medidas!
Termino rogando-vos que leiam Uma questão de classe! Não se arrependerão, prometo! A mestria de Joanne Harris não permite que haja arrependimentos!

NOTA – 10/10

Sinopse
O colégio de St. Oswald é antigo e cheio de tradição.
Mas nos seus imponentes salões e longos corredores, sopram agora ventos de mudança. A vaga de modernidade parece imparável e inclui a admissão de raparigas, novas tecnologias, uma possível "fusão" com um colégio feminino, e até um novo diretor. É por esse motivo que Roy Straitley, o excêntrico professor de Latim, decide adiar a sua reforma. Há mais de trinta anos que Straitley dá aulas em St. Oswald, onde ele próprio estudou.
Para ele, a escola é o seu lar e a sua vida. Enquanto faz os possíveis para manter a tradição, o professor descobre que o novo diretor é nada menos que um ex-aluno seu, um rapaz cuja memória nunca deixou de o atormentar. E que representa agora uma ameaça que apenas Straitley consegue antever. Pois o novo diretor é admirado por todos. Mas por entre o pó de giz que cintila sob o sol de outono e o ranger das tábuas do soalho ancestral, há sombras que se agitam… e alguém que aguarda o momento certo para ajustar contas com o passado. 

Uma história única de obsessão, vingança, devoção e amor.

Balanço mensal - livros lidos e recebidos em setembro


Estava totalmente enganada quando pressupus que agosto seria o mês em que leria mais livros este ano. Em setembro consegui ler oito, mais um do que o seu predecessor! Foram três leituras partilhadas com o filhote e cinco mais adultas!
Partilhei com o D. as leituras que ele trouxe para fazer em férias. Em agosto, lemos mais ou menos ao mesmo tempo As naus de verde pinho, mas com o meu regresso ao trabalho não foi possível fazê-lo com as restantes três. Li-as pela mesma ordem, mas sempre uns dias após ele as ter terminado. Fomos trocando impressões e coincidimos em eleger como a melhor a obra de António Mota – Pedro Alecrim. É uma história que cativa miúdos e graúdos, que nos faz viajar para uma aldeia “perdida” no meio de serras e campos, onde a lei do trabalho não perdoa, onde todos, incluindo os mais novos e franzinos, têm que colaborar nas tarefas diárias de tratar da lida da casa, do campo e dos animais. É impossível não nos afeiçoarmos ao jovem Pedro, ao seu grande amigo Nicolau e a tudo e todos que os rodeiam. Foi um regresso muito saboroso às letras de António Mota e sinto-me muito feliz por constatar que não sou a única cá de casa que se derrete com o que o autor de Baião escreve.

As outras duas obras que li em parceria com o filhote não foram tão saborosas. Nem Ulisses nem Os piratas nos preencheram, embora admita (e que a senhora Maria Alberta Menéres nos perdoe) que as façanhas de Ulisses foram menos capazes de nos entreter e entusiasmar que Os Piratas que, em sonhos ou de forma real, agitaram a vida de Manuel e Ana.
Nos princípios do mês acabei de ler a obra de estreia da autora Susana Piedade. Histórias que não se contam aborda a vida de três mulheres que carregam dores insuportáveis. Uma é vítima de violência doméstica desde muito nova, outra perdeu o filho e a terceira perdeu o homem que a faria feliz. São histórias muito dolorosas, que nos esmagam, mas que, ao contrário do que diz o título, devem ser contadas, partilhadas e devem chegar ao maior número de pessoas, não só porque nos mostram o lado mais negro (porém, muito real) da vida, mas também porque nos permitem conhecer novos autores como Susana Piedade, que muito tem a trazer ao panorama literário nacional.
Continuei o mês viajando até um país inventado pelas mãos do genial Afonso Cruz. Descobri para Onde vão os guarda-chuvas e apaixonei-me perdidamente por Isa, uma criança que apenas quer ser amada e que é de tal forma especial que nunca mais o deixarei partir. Ficará comigo para sempre e só por isso, só por tê-lo conhecido, posso sorrir e enternecer-me quando ler e ouvir a palavra “escarlatina” e agradecer ao seu criador, do fundo do meu coração.
Desse país inventado fui de malas, bagagens, almofadas e pijamas para terras britânicas passar uma temporada em A casa do sono. Logo eu, que adoooooro dormir! Senti-me extremamente confortável, embalada até, pelo estilo humorístico do autor, pelas personagens que compõem a narrativa e pelas reviravoltas que esta sofre e que nos levam a um final surpreendente. Jonathan Coe é um autor a seguir, sem dúvida!
Antes de embarcar naquela que sabia que iria ser a leitura mais exigente e mais dura do mês, refugiei-me nas montanhas e fiz companhia a um homem simples, de mãos calejadas, O homem que plantava árvores, por um lado, provou que não precisamos de muito para cuidar e mimar do mundo que nos rodeia e, por outro, mais de cinquenta anos depois, conseguiu dar uma bofetada de luva branca a muitos poderosos que supostamente governam o mundo e na verdade governam apenas os seus interesses.
A última leitura adulta do mês foi uma das leituras que vão marcar este ano. Impunidade apresentou-me o seu autor (a quem segurei e perseguirei de muito perto) e afetou-me como muito poucas obras conseguem nos dias de hoje. É uma leitura cruíssima, que nos dá murros no estômago do princípio ao fim e praticamente não deixa que retomemos o fôlego tal é a violência, a dureza, o desamor que habitam as suas páginas. Recomendadíssima! Por tudo e apesar de tudo.

O mês de setembro foi o primeiro em que mantive em pé a promessa de não cair em tentação. Como tal, não comprei nada, nadinha J Mas as minhas estantes digitais voltaram a engordar um bocadito e abro o sorriso daquele tamanho ao escrever que tenho mais três delícias à minha espera, que lá habitam a última obra de dois dos meus autores espanhóis mais, mais favoritos – Berta Isla, de Javier Marías e Los pacientes del Doctor García, da minha querida Almudena Grandes – e Las três heridas, de Paloma Sánchez Garnica, uma autora que quero muito conhecer.

Agora venha outubro e veremos o que ele me reserva! Espero que o vosso setembro tenha sido igualmente suculento. Fico à espera dos vossos comentários.

Termino deixando-vos os links para acederem à opinião completa das obras lidas este mês:
§  As histórias que não se contam, de Susana Piedade
§  Pedro Alecrim, de António Mota
§  Ulisses, de Maria Alberta Menéres
§  Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz
§  A casa do sono, de Jonathan Coe
§  O homem que plantava árvores, de Jean Giono
§  Impunidade, de H. G. Cancela
§  Os Piratas – Teatro, de Manuel António Pina