As histórias que não se contam, de Susana Piedade


Ficha técnica
TítuloAs histórias que não se contam
Autora – Susana Piedade
Editora – Oficina do Livro
Páginas – 342
Datas de leitura – de 30 de agosto a 03 de setembro de 2017

Opinião
Três mulheres. Três experiências traumáticas. Três dores imensuráveis e incomparáveis. Ana perde o noivo que morre inesperadamente, vítima de um AVC. Um atropelamento mortal rouba a luz da vida de Isabel, deixando-a amputada, deixando-a órfã do seu filho. Marta volta a ser vítima de violência doméstica. Depois de ter sido agredida física e verbalmente pela sua mãe, enquanto adulta volta a ser violentada, desta vez pelo seu namorado. Três histórias que nos atarantam, que nos desorientam e paradoxalmente nos centram porque nos põe ante experiências que nos podem tocar a todos.
Comprei esta obra após ter lido a opinião correspondente que a Márcia publicou no seu “Planeta”. Uma obra que ela recomendava muito. Uma obra recheada da dor que procuro de forma quase doentia. Uma obra finalista do prémio Leya. Uma obra com uma escrita aprimorada, que conduz o leitor ao lado mais íntimo, mais nu de cada uma das protagonistas e que vai abrindo brechas nesse novelo de dor que as compõe. Uma obra que, tal como a Márcia, recomendo muito.
Não é difícil compadecer-nos da Ana, da Isabel ou da Marta. Senti o coração apertado ao longo de toda a leitura, mas talvez porque sou mãe, senti-o ainda mais apertado com a dor e a perda de Isabel. A perda de um filho é algo que não consigo imaginar, só a perspetiva de, só o pensar em me deixa completamente transtornada e, por isso, amparei a dor dela, o seu sofrimento, a sua loucura, não questionei as suas atitudes. Li, absorvi ao mesmo tempo que repelia o que absorvia e chorei. Chorei muito. Com as outras protagonistas não criei uma ligação tão umbilical, porém não deixei de sofrer por ambas, de, por um lado, me alegrar com os pequenos passos que Ana vai dando para espantar a dor, para buscar consolo na amizade que se forma entre as três e, por outro, de abanar a cabeça de incredulidade sempre que Marta, uma jovem doce e genuinamente boa, se vergava e aceitava como merecida a violência que lhe caía em cima.
Esta obra foi a obra de estreia de Susana Piedade, mas desengane-se quem crê que nela irá encontrar indícios de inexperiência ou pouca maturidade. Pelo contrário. Para além do já referido estilo cuidado e aprimorado, a narrativa cativa ao leitor, leva-o a lê-la a um ritmo quase sôfrego, a querer entrar nas histórias destas três mulheres e a penetrar em dores, em fantasmas e em sofrimentos que não se partilham, que se escondem, que se enterram no cantinho mais recôndito talvez porque são dores, fantasmas e sofrimentos que se acha que mais ninguém vai entender ou que lados de uma vida que envergonham, que estigmatizam.
As histórias que compõem esta narrativa recomendam-se por tudo o que referi. Se tropeçarem nelas não deixem de as agarrar e de as conhecer. Não se arrependerão.

NOTA – 09/10


Sinopse

Ana pergunta-se como seria hoje o seu dia-a-dia se tivesse sabido detetar no namorado os indícios da doença que o levou inesperadamente. Isabel, seis meses depois da tragédia que lhe virou a vida do avesso, ainda se sente culpada por não ter chegado a horas ao infantário naquela tarde de chuva. Marta, que ousou abandonar, ainda adolescente, uma casa onde era maltratada, não tem agora a coragem de confessar que o amor em que apostou tudo está longe de ser um mar de rosas. São três mulheres jovens, com a vida inteira pela frente, mas para quem o presente se tornou um fardo difícil de carregar e o futuro um tempo sem qualquer esperança. Quem poderia entender a sua dor incomparável? Para quê, então, contarem as suas histórias?

Pedro Alecrim, de António Mota


Ficha técnica
TítuloPedro Alecrim
Autor – António Mota
Editora – Edições ASA
Páginas – 112
Datas de leitura – de 22 de agosto a 02 de setembro de 2017

Opinião
Pedro Alecrim trouxe-me recordações, trouxe-me histórias que fui ouvindo ao longo dos anos, de crianças que tiveram que crescer demasiado depressa, mas que, mesmo assim, não se libertaram de resquícios da inocência e pragmatismo que dão cor à infância.
Um menino que vive numa aldeia, longe da escola onde frequenta o sexto ano: um menino que não tem muito tempo para fazer os deveres ou para estudar porque, mal chega a casa, tem que pousar a mochila e ajudar os pais nas lidas do campo e no trato dos animais. Um menino que, mesmo assim, não é um mau aluno, mas que não consegue entender muito bem para que lhe servirá no futuro as matérias que aprende em aulas dadas por professores algo enfadonhos e distantes. Um menino que ama a terra e os animais (excetuando as toupeiras, ratos, ratazanas, cobras e outros que não fazem falta nenhuma ao mundo), que anda muitas vezes às turras com os irmãos mais novos, que adora “perder-se” em conversas e brincadeiras com o seu amigo Nicolau, que odeia quando este troça do seu apelido e o associa à canção “Alecrim aos molhos” e que adoraria ter dito ao pai que gostava muito dele, mas que apenas conseguiu ficar plantado, junto à sua cama, a olhar para nenhures. Um menino como outro qualquer. Diferente dos meninos de hoje em dia, diferente do meu filhote, com uma vida e umas prioridades distintas, porém, tão semelhante aos de hoje em dia, na sua inocência, na sua frontalidade, no seu pragmatismo.
Gostei imenso de ler este livro, como gostei imenso de ler outras obras de António Mota. Poderão dizer que são obras datadas, de tempos que já não existem, mas as suas personagens são intemporais, são humanas e, mesmo que sejam crianças que não tenham telemóveis ou tablets como apêndices das suas mãos, são crianças, iguais às deste século ou às de séculos passados. A sua mensagem continua a chegar-nos e a fazer sentido – a mim para quem a lida do campo sempre foi familiar e ao meu filhote que nunca tratou de uma galinha, de uma vaca ou de um cavalo e que nunca soube o que é necessário fazer para regar um campo.
Esta foi a segunda leitura de férias do D. Ambos estamos de acordo que provavelmente será a melhor e que António Mota continuará a ser um autor muito querido para os dois.
Recomendadíssima!

NOTA – 09/10 (a nota reflete a minha opinião)

Sinopse
Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

Pedro Alecrim reparte os seus dias entre a escola, as brincadeiras com os amigos e o trabalho no campo para ajudar a família. Pedro gosta de andar na escola, embora se interrogue sobre a utilidade de algumas matérias e nem sempre aprecie o feitio de alguns professores. Os dias vão passando, com sonhos, alegrias e tristezas. A morte do pai alterará tudo. Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e jovens.

Balanço mensal - livros lidos, adquiridos e recebidos em agosto


Em agosto descansei, passeei, relaxei e ainda tive tempo para ler nada mais, nada menos do que sete livros, um número record de leituras este ano. Li em português e em espanhol. Li em formato de papel e em formato digital. Li 4 obras de autores portugueses, uma obra de uma autora italiana, uma obra de uma autora espanhola e partilhei com o filhote a leitura da obra As naus de verde pinho, de Manuel Alegre.
Arranquei o mês com uma estreia dupla. Li pela primeira vez uma obra que me foi facultada pela própria autora – Ana Gil Campos. As impertinências do Cupido proporcionou-me uma leitura divertida, fresca, apropriada à estação veraneia. Gostei do estilo e da escrita da Ana e espero poder ler em breve mais obras suas.
 As obras que li em seguida foram-me igualmente oferecidas, desta vez pela editora. Tão-pouco conhecia as suas autoras, mas as horas que devotei às suas obras resultaram em experiências muito produtivas, especialmente a que correspondeu à leitura de Café Amargo, de Simonetta Hornby, que nos apresenta uma protagonista com um carácter forte, determinado e que, desde que se casa com uma tenríssima idade até alcançar uma idade madura, sempre se regeu por aquilo que a sua razão e acima de tudo o seu coração lhe ditavam. É uma mulher formidável e alimenta uma narrativa muito bem construída e condimentada com um contexto histórico e epocal aliciantes. Já A ilha das quatro estações, de Marta Coelho, é uma obra mais vocacionada para um público juvenil, mas não deixa de nos enredar com as dores e os problemas de quatro jovens nada distintos daqueles que poderemos encontrar no nosso quotidiano.
Em agosto também tive a oportunidade de regressar às leituras partilhadas com o filhote. Lemos num dia a obra em verso de Manuel Alegre – As naus de verde pinho – e foram uns momentos muito saborosos, recheadinhos de cumplicidade e troca de conhecimentos.
O regresso às leituras em espanhol foi pela mão da escritora basca, Marian Izaguirre. Los pasos que nos separan foi a segunda obra que li dela e, apesar de não ter sido uma experiência tão intensa como foi a que me ofereceu A vida quando era nossa, senti uma empatia muito grande com os seus protagonistas e com um tom intimista e emocional que prevalece ao longo da sua narrativa.
A única desilusão deste mês veio de onde menos esperava… Não consegui ligar-me às personagens, às suas personalidades, ao que as movia, às suas atitudes, a nada… Sobrou o estilo e a escrita, tão perfeitos e mágicos. Fico à espera de novos trabalhos de Valter Hugo Mãe, que apaguem este travo amargo que me ficou da leitura de Homens imprudentemente poéticos.
A última leitura do mês ficou a cargo de mais uma autora lusa, de mais uma novidade. O assunto da narrativa de O rapaz e o pombo é talvez aquele que mais persigo, de forma quase psicopata, mas tudo o que leio sobre a Segunda Guerra Mundial nunca me extingue a vontade de saber mais, de tentar entender o que ainda hoje não sou capaz de entender… Gostei muito desta obra, da maneira como Cristina Norton misturou ficção com factos verídicos e me violentou com episódios de horror medonho. A sua trama está obviamente povoada do lado mais miserável do ser humano, mas inclusive nesse lado mais negro há espaço para o amor, para a união, para o altruísmo.

Em agosto, para além de ler, passear, relaxar e descansar, também frequentei livrarias dos dois lados da fronteira e voltei a pecar… Aproveitei uma promoção irresistível e comprei a metade do preço Amores secretos, a única obra de Kate Morton que ainda não habitava a estante cá de casa. Do outro lado da fronteira comprei três obras que estavam na wishlist há muito tempo – Dile a Marie que la quiero, de Jacinto Rey; La delicadeza de David Foenkinos e Cuentos, do meu amado Mario Benedetti. Quatro obras que irão esperar pacientemente a sua vez na prateleira dos não-lidos, mas que sei que, este ano ou o próximo, me proporcionarão momentos únicos de leitura.
Em agosto, para além de ler, passear, relaxar, descansar e pecar “literariamente”, tive o imenso prazer de ser surpreendida pela Cristina Tista, que novamente partilhou comigo mais umas obras em formato e-book. Cuando aparecen los hombres, de Marian Izaguirre, Quien de nosotros, de Mario Benedetti e El secreto de mi marido (O segredo do meu marido), de Liane Moriarty vieram adoçar ainda mais um mês que foi praticamente perfeito e aumentar a estante virtual que vai ganhando espaço na biblioteca do tablet.
Antes de terminar, quero agradecer também à Paula, outra assídua seguidora e que no final de julho me ofereceu, igualmente em formato digital, duas obras que figuravam na minha wishlist há “eternidades” – Charlotte, de David Foenkinos e 84, Charing Cross, de Helene Hanff. Serão sem dúvida leituras muito suculentas e possibilitar-me-ão a oportunidade de voltar a ler em inglês, coisa que já não faço há pelo menos 8 anos.

Como veem, agosto será dificilmente repetível. Leituras, aquisições e ofertas com fartura. Espero que o vosso mês tenha sido igualmente muito apetitoso. Fico à espera dos vossos comentários.

Termino deixando-vos os links para acederem à opinião completa das obras lidas este mês:
§  As impertinências do Cupido, de Ana Gil Campos
§  Café Amargo, de Simonetta Agnello Hornby
§  A ilha das quatro estações, de Marta Coelho
§  As naus de verde pinho, de Manuel Alegre
§  Los pasos que nos separan, de Marian Izaguirre
§  Homens imprudentemente poéticos, de Valter Hugo Mãe
§  O rapaz e o pombo, de Cristina Norton

O rapaz e o pombo, de Cristina Norton


Ficha técnica
TítuloO rapaz e o pombo
Autora – Cristina Norton
Editora – Oficina do Livro
Páginas – 268
Datas de leitura – de 26 a 29 de agosto de 2017

Opinião
O rapaz e o pombo não foi apenas mais uma obra que li acerca das atrocidades cometidas contra os judeus em prol da supremacia da raça ariana. O desconcerto, a dor, o horror, o murro no estômago nunca perdem intensidade, tenha lido um ou dezenas de livros sobre o tema. Continuo a não ser capaz de entender como é que o ser humano pode ser tão desumano com outro apenas porque esse outro professa outra religião, acredita em outros ideais, não segue a mesma orientação sexual ou simplesmente nasceu com outra cor de pele. Continuo a não ser capaz de entender e sinto que a “batalha” que eu e aqueles que também não são capazes de entendê-lo está infelizmente a ser paulatinamente mais difícil de travar, que estamos a perder terreno face ao renascer da barbaridade, da tortura, do controlo, do fanatismo. Perspetiva-se um futuro que vai buscar ao passado o que de pior ele teve.
É por causa dessa perspetiva inqualificável, de tão medonha que é, que urge continuar a vasculhar os hediondos exemplos do passado, partilhá-los com o maior número de pessoas para que a sanidade do mundo em que vivemos não se perca sem volta. Assim, alio o prazer da leitura com a necessidade que tenho de saber, de saber mais sobre tudo o que nos rodeia, sobre quem somos, quem fomos e quem temos que ser como homens e mulheres decentes, respeitadores e que se comportam como seres racionais que somos. Porque o passado e infelizmente o presente em que vivo já nos deram provas mais do que suficientes de que sabemos ser escumalha.
Um dos períodos mais negros e repugnantes da História Mundial foi, sem dúvidas nenhumas, aquele que dizimou milhões e milhões de pessoas apenas porque um ser profundamente maquiavélico e psicopata chegou ao poder de um país humilhado por uma recente derrota e, através de uma ideologia fanática, fez uma lavagem cerebral à maioria da sua população e a levou a crer que o judeu com quem trabalhava, que era o vizinho de uma vida, que o tratava quando estava doente era inferior a um animal, que era a representação do pior dos males e que, como tal, devia ser exterminado. O rapaz dono de um pombo era um desses judeus, um menino filho de um médico respeitadíssimo e de uma enfermeira muito competente, irmão mais novo de uma pré-adolescente com quem andava amiúde às turras e neto de avós carinhosos e dedicados. Um menino igual a tantos, mas de que quase todos se afastam como se estivesse infestado de parasitas desde que determinaram que, mesmo tendo nascido na Alemanha, era o pior dos inimigos da “sua pátria”.
A obra de Cristina Norton retrata a vida da família do rapaz do pombo, as agruras que sofreram na pele como judeus, as tentativas para fugirem à mão assassina dos nazis e o destino que partilharam com milhões de outros judeus e que se adivinha qual foi observando a capa do livro. É uma narrativa que é ocasionalmente interrompida por partes que estão escritas com um tipo de letra diferente e que estão associadas a testemunhos verídicos de duas mulheres nomeadas pelo seu nome próprio e que cujas vidas “tropeçaram” na do rapaz do pombo e familiares mais próximos. Lilo é alemã e amiga da irmã do protagonista que dá título à obra. Rute é judia e foi por breves tempos vizinha da família do rapaz. Ambas, com os seus testemunhos, ajudam a contextualizar os dois lados desta contenda bárbara, a voltar a provar, por um lado, que nem os alemães eram simpatizantes de Hitler e, por outro, a deixar-nos sem fôlego perante um sofrimento e uma dor intraduzíveis e impossíveis de imaginar.
É óbvio que não foi uma leitura fácil. Roí unhas, fechei os olhos, respirei fundo, contive a respiração e chorei. Chorei muito. Mas também é verdade que não podia deixar de fazê-lo, de ler mais uma obra que nos ensina, que nos mostra de forma crua e dura o que se já fez de mais monstruoso e o que não se pode repetir. Ou melhor, continuar a repetir. Os últimos sobreviventes de Auschwitz estão a partir. Mas temos os seus testemunhos. E temos os testemunhos de gente deste século que sobreviveram ou perderam entes queridos nos atentados de Paris, de Barcelona, de Nice, na guerra da Síria, do Afeganistão. A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, mas o Homem não aprendeu. Continua a matar e a torturar. E temo que continuará e que essa matança e tortura não será residual.
Termino por aqui. Necessito ver o sol, o sorriso do meu filho.
Leiam esta obra. Não foi aquela que mais me preencheu sobre o tema. Mas isso é secundário. Conheçam o rapaz do pombo, a sua família (dos quais nunca sabemos o nome), judeus, homens, mulheres e crianças como tantos de nós. Conheçam a sua história, aprendam com ela.

NOTA – 08/10

Sinopse

A história, passada entre os anos 1930 e 1958, gira à volta de três personagens. A principal é um rapaz judeu, que descobre o ódio, o desalento, a ternura e o amor à vida. As personagens à volta dele representam todas as pessoas que passaram por uma das maiores injustiças de todos os tempos. Cristina Norton sentiu também que tinha o dever de escrever e denunciar o que por vergonha as mulheres que haviam sido obrigadas a prostituir-se nos campos de concentração não ousavam contar.

Homens imprudentemente poéticos, de Valter Hugo Mãe


Ficha técnica
TítuloHomens imprudentemente poéticos
Autor – Valter Hugo Mãe
Editora – Porto Editora
Páginas – 214
Datas de leitura – de 20 a 25 de agosto de 2017

Opinião
Tenho que ser sincera – Valter Hugo Mãe é um dos meus autores prediletos. Sigo a sua obra com muito fervor e abre-se-me um sorriso de orelha a orelha quando constato que publicou mais um livro. Foi o que aconteceu com Homens imprudentemente poéticos que marchou para a minha wishlist mal chegou às bancas. Não pairou por lá muito tempo, pois no último Natal alguém o pôs debaixo da árvore com o meu nome escrito na etiqueta natalícia. E agora que finalmente o li, sinto um misto de vergonha e defraudação, porque, após o encerro, tive que render-me àquilo que ainda hoje é inquestionável – a história de Itaro, Sabugo, Matsu, da criada Kame e da senhora Fuyu não me deslumbrou, será infelizmente mais uma… Aparte a genialidade da escrita do seu autor, que maneja a nossa língua como poucos e cria jogos linguísticos de uma pureza e beleza quase surreais, não criei empatia com as personagens, não fui capaz de vislumbrar a mensagem da narrativa nem de sentir nada exceto um ligeiro interesse e compaixão por Matsu e a criada Kame e alguma incredulidade e estupefação sobre o porquê de tanto ódio entre Itaro e Saburo.
Questiono-me se esta pouca ligação com a trama e correspondentes personagens poderá ter algo a ver com o pouco interesse que nutro pelas sociedades, costumes e tradições asiáticas. Questiono-me se terei lido a obra na altura certa. Questiono-me se a minha ânsia em ter nas mãos uma obra que me abalroe (até agora 2017 só me ofereceu três e uma delas foi uma releitura) prejudicou esta leitura em particular. Questiono-me e questiono-me, mas no final a dolorosa sensação mantém-se – Homens imprudentemente poéticos não me tocou, não me cativou, não mexeu como desejei que mexesse, como esperei que mexesse.
Por tudo isto, creio que não devo alongar-me mais… Dói...


NOTA – 06/10


Sinopse
Num Japão antigo o artesão Itaro e o oleiro Saburo vivem uma vizinhança inimiga que, em avanços e recuos, lhes muda as prioridades e, sobretudo, a capacidade de se manterem boa gente.
A inimizade, contudo, é coisa pequena diante da miséria comum e do destino.
Conscientes da exuberância da natureza e da falha da sorte, o homem que faz leques e o homem que faz taças medem a sensatez e, sobretudo, os modos incondicionais de amarem suas distintas mulheres.
Valter Hugo Mãe prossegue a sua poética ímpar. Uma humaníssima visão do mundo.

Los pasos que nos separan, de Marian Izaguirre


Ficha técnica
TítuloLos pasos que nos separan
Autora – Marian Izaguirre
Editora – Lumen (e-book)
Páginas – 290
Datas de leitura – de 12 a 20 de agosto de 2017

Opinião
Regressei às leituras em espanhol guiada pela mão de Marian Izaguirre, uma autora que já conhecia de A vida quando era nossa, obra publicada no nosso país pela Bertrand e que me preencheu com uma intensidade quase perfeita alguns dias do verão de 2015.
Dois anos mais tarde, aproveitando mais uma oferta da Cristina Tista, descarreguei a edição digital de Los pasos que nos separan para o tablet e levei-a comigo em mais uma passeata por terras castelhanas. Durante uma semana, enquanto calcorreava espaços impregnados de História e respirava os ares de uma das antigas capitais do país vizinho, fui-me adentrando nas vidas de Salvador, de Edita, de Jana e de Marina e com eles calcorreando respirando outros espaços, outros tempos.
As páginas desta obra guiam os nossos passos por várias cidades europeias – iniciamos a viagem em Barcelona, a estada mais longa faz-se em Trieste e terminamos em terras da antiga Jugoslávia, mais propriamente em Liubliana e Zagreb. Percorremo-las em duas épocas distintas que se intercalam – vários anos da década de 1920 e fins dos anos setenta. O elo de ligação entre estes espaços e estas épocas é a vida de Salvador Frei, escultor idoso que sente a morte acercar-se e quer encerrar algumas portas que necessitam ser encerradas.
Através de uma escrita muito intimista, que nos chega polvilhada de frases curtas, adentramo-nos em duas épocas muito marcantes da vida do nosso protagonista – na primavera de 1920, com 21 anos, quando se apaixona perdidamente por Edita, uma mulher casada e nos finais de 1970, com 80 anos, quando sente a morte morder-lhe os calcanhares e sabe que há mais uma jornada a cumprir.
Para cumprir essa jornada, Salvador publica um anúncio num jornal em busca de alguém jovem que o acompanhe e esteja sempre ao seu dispor. A esse anúncio responde Marina, uma jovem de Bilbao, que estuda em Barcelona e que procura neste emprego a solução para os problemas que a assolam e que são consequência de “ser inconsciente y despreocupada por obligación.” Duas personagens de gerações díspares, mas que se juntarão porque uma necessita da outra e que, no breve tempo que desfrutarão na companhia uma do outra, terão a oportunidade de abrir o livro das suas vidas e compreender que nem tudo as separa, que há vivências e sentimentos que as acercam e as fazem passar de completos desconhecidos a cúmplices, a parceiros de uma jornada que está prestes a acabar para Salvador e a iniciar-se para Marina.
Los pasos que nos separan é assim uma obra sobre vidas, sobre sentimentos, sobre escolhas e sobre as consequências dessas escolhas.
Por um lado, temos a história de amor entre Salvador e Edita, dois estranhos que se esbarram e se apaixonam, caindo rapidamente nos braços um do outro. O desejo, a atração, a vontade de estarem juntos são incomensuráveis e com eles vêm a culpa, a traição, o ciúme. Edita é casada, tem uma filhota pequenina, mas põe tudo em causa a partir do momento em que o seu pensamento e o seu corpo lhe exigem que esteja sempre junto a Salvador. É uma mulher forte, decidida, determinada, mas sente-se dividida em duas – uma que lhe pede que não ceda ao desejo adúltero, outra que a obriga a mentir, a desleixar os seus deveres de mãe e a procurar o amante. É uma personagem imperfeita, mas humana, tão próxima de alguém que se possa sentar ao nosso lado e que apenas quer ser feliz. Por sua vez, Salvador revela-se um jovem imaturo, que se entrega a uma relação proibida, mas que não sabe muito bem lidar com esse lado clandestino. Em mais de que um momento, reconhecerá que não tem a coragem necessária para enfrentamentos – “Pasar de puntillas. Mirar para otro lado. Sabía hacerlo muy bien. Se había entrenado durante toda la vida para no tener que afrontar las cosas cara a cara.” Na reta final da sua existência, fazendo o inevitável balanço, tem a clara consciência de que viveu a vida como pôde, teve o seu quinhão de felicidade, mas que esta foi à custa da infelicidade de outros. Por isso, a culpa pesa, faz mossa e exige perdão, redenção.
Do outro lado da história está Marina, uma jovem que também sente na pele as consequências das suas escolhas, dos seus atos. Quis ser independente, dona do seu destino, mas não está minimamente preparada para o que este lhe reservou – “… recuerda esa sensación que le perseguirá para sempre. El desamparo. Algo parecido al frío de los amaneceres o al miedo de las noches sin luna.” A determinada altura, procurará o conforto da experiência de Salvador, partilhará os seus medos e estará atenta a tudo o que ele lhe conta. Aprenderá, amadurecerá e olhará de frente o que o futuro lhe reserva.
Esta obra de Marian Izaguirre é assim uma obra de personagens, de pessoas comuns que nos falam, que nos tocam. Tem um tom aconchegante que me cativou e que me faz querer continuar a ler esta autora, seja em português, seja em espanhol.
Obrigada, Cristina, por me teres oferecido esta leitura!

NOTA – 08/10

Sinopse
La bora, el viento que azota Trieste en ciertas épocas del año, es un aire apasionado que dura poco pero dobla el cuerpo y muda el ánimo. Salvador y Edita se conocieron en esta ciudad un día de primavera de 1920. Soplaba el viento, y todo cambió. Ella había nacido en Liubliana y él en Barcelona, y los dos rondaban los veinte años, una edad espléndida para permitirse cualquier locura, pero Edita, hermosa y discreta, estaba casada y tenía una hija. Salvador solo tenía su trabajo en el taller de un gran escultor y ganas de ser por fin un hombre y pisar fuerte en la vida.
Luego, en Barcelona, casi a finales de los años setenta...Un hombre ya mayor y viudo que busca ayuda para volver a Trieste y a todos los lugares donde un día creyó ser feliz, y una chica, Marina, que va a ir con él para buscar un futuro. Y entre Salvador y Marina, de repente, casi sin avisar, los recuerdos: un parque a orillas del mar, las sábanas revueltas de un amor a media tarde, un andén, una niña que se aleja, y una espléndida tabla renacentista con una Virgen que mira y duda.

Con esas voces que se cruzan en el tiempo y en el espacio, Marian Izaguirre ha escrito una novela donde la culpa y el perdón juegan el mejor de los partidos y cada paso importa.

As Naus de verde pinho, de Manuel Alegre


Ficha técnica
TítuloAs Naus de verde pinho
Autor – Manuel Alegre
Editora – Publicações Dom Quixote
Páginas – 20
Datas de leitura – 20 de agosto de 2017

Opinião
O D. trouxe trabalhinho para férias – terá que ler até ao início das aulas as quatro obras de leitura obrigatória para a disciplina de Português. Após uns meses de merecido descanso, começámos ontem a maratona literária e arrancámos com a obra mais curtinha, feita de estrofes e ilustrações.
As naus de verde pinho, escritas por Manuel Alegre e ilustradas pelo seu filho, trazem-nos um dos episódios mais marcantes dos nossos Descobrimentos - a dobragem do Cabo das Tormentas.
Tal como n' Os Lusíadas e na Mensagem, acompanhamos a viagem de Bartolomeu Dias e o seu "embate" com um Cabo simbolicamente representando por uma nuvem negra, monstro perneta e ameaçador. Voltamos a encher o peito de orgulho luso ao ouvir o grande Capitão afirmar sem temor algum que está ali em nome do povo português, que nada o fará demover da sua missão e que continuará a avançar por mares nunca até aí navegados para poder mostrar ao mundo a fibra da alma lusitana.
A obra, como se depreende pelo título, evoca igualmente o papel fundamental de D. Dinis, o rei das trovas e das cantigas de amigo, o rei que encheu a costa do centro do país de verdes pinhos que possibilitaram a construção das caravelas, das naus que levaram os bravos lusos "ao outro lado/ ao ali ao longe ao lá/ ao cabo nunca dobrado".
Por fim, esta pequenina narrativa poética relembra-nos que o sonho comandou a vida destes descobridores e comanda a vida de todos nós:
"Sempre que em teu pensamento
o verde pino florir
abre os teus sonhos ao vento
porque é tempo de partir."

Recomendo-a para miúdos, pois é de leitura fácil, as rimas ficam no ouvido, as ilustrações muito boas e recordam assim conhecimentos que vão adquirindo nas aulas de História ou de Estudo do Meio. Recomendo-a também para graúdos porque as rimas de Manuel Alegre têm uma musicalidade notável, abordam momentos da nossa História que nos deixam com o orgulho em alta e porque não é possível ficarmos indiferente ao apelo final da obra, presente na estrofe que transcrevi no parágrafo anterior.

NOTA – 08/10 (a nota reflete a minha opinião)

        
         Sinopse
         Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

Um belo poema sobre os Descobrimentos, no primeiro livro para a infância de Manuel Alegre, que mereceu o Prémio António Botto 1998. Ilustração de Afonso Alegre Duarte.

A ilha das quatro estações, de Marta Coelho


Ficha técnica
TítuloA ilha das quatro estações
Autora – Marta Coelho
Editora – Clube do Autor
Páginas – 420
Datas de leitura – de 08 a 11 de agosto de 2017

Opinião
Do cais da rotina, das leituras exigentes e que reclamam uma atenção e uma entrega sem reservas embarquei em direção a uma ilha dividida em quatro zonas que correspondem a quatro estações, preparadas para receber os leitores e sobretudo a jovens a braços com problemas, que aí se refugiem e tentem “aceitar os ventos da mudança” para que possam finalmente abraçar a vida e voar.
A ilha das quatro estações é uma obra que encaixa na perfeição no rótulo de literatura juvenil. Chegou à estante como um bónus, uma espécie de “recebes dois quando pediste apenas um”, pois veio na companhia da obra que li antes, as duas gentilmente oferecidas pela editora Clube do Autor. É de autoria de Marta Coelho, até hoje, uma autora que desconhecia por completo, mas que, segundo a informação bibliográfica presente numa das abas laterais, pertenceu à equipa de autores que escreveu algumas séries juvenis e telenovelas. Conta, tal como referi no parágrafo anterior, a viagem e estada de alguns jovens na Ilha das Quatro Estações, um projeto que visa ajudá-los, através de uma terapia ocupacional, a superarem problemas das mais variadas índoles.
Catarina, Santiago, Misha e Rute têm praticamente a mesma idade e estão na ilha com o mesmo objetivo – fechar a porta (quem sabe definitivamente) ao lado escuro, aos demónios pessoais que os atormentam e que não lhes permitem desfrutar de uma vida que mal começou. Ingressados na ilha ou por traumas, perdas ou por serem vítimas de violência, os quatro acolhem-se uns aos outros e, num ápice, transformam-se em amigos inseparáveis. Partilham alojamento, partilham as horas de trabalho e partilham confissões. Todos são belos, todos são altruístas, todos são ótimos companheiros e ótimos confidentes e todos são dignos de compaixão, pois carregam fardos intensamente dolorosos. São personagens que nos falam ao coração, ao nosso lado mais emotivo e puxam pela nossa lágrima fácil (pelo menos puxou pela minha que está sempre prestes a cair!). Aliam-se de forma simbiótica ao discurso da autora, composto por doses certas de lamechice e por frases e expressões embebidas, por um lado, de otimismo, de encorajamento, de sentimentos à flor da pele, de borboletas no estômago e, por outro, de dor, escuridão, luto, angústia, prostração e desistência.
Uma narrativa de jovens e para jovens. Escrita de forma simples, mas muito certeira. Passada numa ilha que parece demasiado irreal, povoada, porém, por protagonistas que padecem de dores e problemas tipicamente juvenis e atuais. Uma narrativa que encerra deixando no ar muitas questões sem respostas e abre a possibilidade de uma sequela. Uma narrativa que se nos aninha no peito, nos abraça, nos embala como uma canção romântica e que apenas exige que mantenhamos a porta dos sentimentos escancarada. Uma narrativa ideal para intervalar com narrativas mais densas e mais tortuosas e para levar no saco de praia.
Gostei e aconselho a quem se quiser recuar no tempo e recordar as dores e as paixões da juventude, a quem estiver ainda a saborear os docemente turbulentos anos da juventude ou a quem estiver a precisar de mergulhar em doses “quase industriais” de lamechice.

Agradeço a gentileza da editora que me enviou esta obra em troca da correspondente leitura e opinião.

NOTA – 07/10

Sinopse
Aqui não são permitidos telemóveis, computadores nem tablets. Só te resta viver.
Onde todos os sonhos são possíveis.
Este é o livro com que todos os jovens se conseguem identificar, uma história atual e relevante sobre os receios, as paixões, as fragilidades e a força de quatro jovens à procura de um novo rumo.
Cat sentia-se sem rumo e não queria ver ninguém. Tiago só desejava poder voltar a viver como antes. Misha isolara-se do mundo à sua volta. Rute precisava de vencer uma batalha muito dolorosa.
Os seus caminhos cruzam-se na ilha e, juntos, preparam-se para enfrentar os seus demónios pessoais. Mas há quem tenha outros planos para eles…

Será que a tua vida pode mudar quando tudo parece correr mal?