Rosa Candida, de Audur Ava Ólafsdóttir

Sexta-feira, 26 de dezembro de 2014




Sinopse
Um jovem decide deixar a casa da sua infância, o irmão autista, o pai octogenário e as paisagens familiares de campos de lava cobertos de musgo, em busca de um futuro desconhecido.
Pouco antes da sua partida recebe um terrível telefonema: a mãe falecera num acidente de carro. As suas últimas palavras tinham sido de doce conselho ao filho, incitando-o a continuar o trabalho que partilhavam na estufa, mais especificamente o cultivo de uma variedade de rosa rara, a Rosa Candida.
Antes da morte da mãe, naquela mesma estufa, vivera um breve encontro de amor. Foi quando já preparava a sua partida que soube que, nessa noite, concebera inocentemente uma criança. Atordoado com todos estes súbitos acontecimentos, procura refúgio, recolhendo-se num majestoso jardim abandonado de um antigo mosteiro europeu. É aí que se vai dedicar a fazer florescer aquela rosa rara de oito pétalas. Ao concentrar a sua energia no seu cultivo, aprende também, sem dar por isso, a cultivar o amor.
Rosa Candida é a história de um jovem que assume o papel de pai ao mesmo tempo que se torna homem. Uma história de amadurecimento, sobre a beleza da vida e a forma como pequenas e simples experiências podem muitas vezes transformar a realidade numa extraordinária e incomum vida. Um livro impressionante que nos faz perceber que mudar, por vezes, é tudo o que precisamos...

Opinião
         Rosa Candida não foi o primeiro livro desta autora (de nome “impossível” de dizer – e de escrever!) que me “piscou o olho”! Uma vez mais, numa das muito frequentes visitas que faço aos sítios das “minhas editoras”, “tropecei” na sinopse da última obra publicada pela autora – La excepción, considerada o seu melhor romance até à data. Contudo, como podem perceber pelo título, o referido romance ainda não está traduzido para português… Sendo assim, prossegui as minhas nada penosas deambulações pelos habituais sítios e felizmente descobri que a editora Marcador havia publicado outro romance desta autora islandesa, que não só me seduziu pela sua capa lindíssima como também pela sinopse e pelo facto de haver sido traduzido e recomendado por João Tordo!
Aproveitei uma das recorrentes promoções da Betrand (que são sempre bem-vindasJ) como desculpa para adquirir Rosa Candida, mas a ordem cronológica que “ordena” as minhas leituras apenas me permitiu que o lesse nesta época natalícia.
A viagem que nos oferece a narrativa deste livro começa na ilha natal da autora, onde conhecemos o protagonista (também ele dono de um nome impronunciável, mas tratado carinhosamente pelo pai de Lobbi), o qual nos põe a par da sua história, passada, presente e do único projeto que quer concretizar – sair de casa dos pais para ir viver durante uma temporada numa povoação, perdida num país que não sabemos qual é, e assim poder pôr em prática o sonho que partilhava com a mãe – cultivar uma variedade de rosa rara, a Rosa Candida, no considerado mais belo jardim de rosas do mundo.
Não é de forma inconsciente que afirmo que a obra nos dá a possibilidade de acompanhar a viagem de Lobbi, a viagem da sua vida, uma viagem física, que o leva para longe do seu país, da sua casa, do seu ninho (onde já não mora a sua mãe, o coração daquele lar, a quem Lobbi era mais chegado), mas também uma viagem espiritual e de crescimento, que transformará o nosso protagonista, que o fará deixar de ser uma criança grande para tornar-se um adulto capaz de tomar decisões por si mesmo, de tomar conta de si, de ser independente e de responsabilizar-se pelas suas ações.
Como leitora, fui compreendendo que, através de uma linguagem muito simples, sem artifícios, aliada a um rol de acontecimentos que sacodem inesperadamente as vidas de Lobbi e dos que o rodeiam, este romance parece querer mostrar-nos que não devemos fugir, que não devemos desistir, que devemos retirar uma lição de tudo o que de bom e mau nos acontece, que a vida é tão delicada e rara como uma rosa de oito pétalas, que pode não florescer numa terra vulcânica e agreste como a Islândia, mas que, se for transportada com carinho e amor, pode sobreviver aos tumultos de uma viagem e encontrar o seu jardim, o seu futuro, a sua razão de existir longe de tudo o que nos é familiar, num terreno abandonado e maltratado, mas que ainda possui no seu âmago o que necessita para renascer.
Ainda como leitora, posso acrescentar que gostei de ler este livro. Gostei, tal como já referi, da evolução que se vai dando, ao longo da narrativa, na vida de Lobbi; da relação especial que ele teve com a mãe, de como ela influencia e guia as suas ações e pensamentos, mesmo já não estando viva; da forma paternalista como trata o pai; da delicadeza com que ele trata os pés de rosa que transporta consigo durante a viagem; e do tumulto de emoções que sente aquando do nascimento da sua filha, Flóra Sól. Gostei sobretudo da maneira atabalhoada (e posteriormente quase perfeita) como Lobbi trata de Flóra Sol e da mãe desta e como a ideia de família começa a encaixar-se na sua vida de até há bem pouco tempo filho da mamã e do papá, sem mais preocupações que as de um amante de rosas.
Rosa Candida é assim um livro que se lê com gosto, que nos entretém, que nos faz espreitar (como se fosse pelo buraco de uma fechadura) para um país que, pelo menos para mim, é quase desconhecido e que nos envolve como um ternurento e delicado conto de fadas. Tem alguns aspetos de que não gostei tanto, principalmente aqueles associados a alguma irrealidade que mexe com o meu lado cético – por exemplo, a ausência de referências que localizem geograficamente os locais da viagem de Lobbi. No entanto, consigo entender que essa irrealidade talvez seja propositada, que queira combater, como nos diz João Tordo, o realismo demasiado cru da literatura a que estou mais acostumada…
Por fim, e tal como já é habitual, deixo aqui algumas das passagens que fui sublinhando:
“Sempre que queria estar sozinho com a minha mãe, ia ter com ela à estufa ou ao jardim. Era aí que podíamos falar. Por vezes ela parecia distraída e eu perguntava-lhe em que estava a pensar, ela dizia: Sim, sim, gosto do que dizes. E depois oferecia-me um sorriso encorajante de aprovação.” (Pág. 20)
Ter um filho dá-te a certeza de que um dia irás morrer”. (pág. 126)

Os nossos corpos tocam-se, mas, por mais próximos que estejamos na cama, há um mar imenso que nos separa na solidão de cada. Sinto que a estou a perder, como perdi a minha mãe ao telefone (…)” (pág. 335)

Natal + Livros = Felicidade completa!!!!!

Quinta-feira, 25 de dezembro de 2014




As celebrações natalícias decorreram como habitualmente – mesa farta, família junta, conversas, boas gargalhadas, sorrisos, corridas e espreitadelas às prendas empilhadas por baixo da árvore e uma espera (penosa para a criançada) pela hora de agarrar uma prenda de cada vez, rasgar o papel de embrulho e saborear a descoberta de uma surpresa ou da confirmação de que “era isto mesmo que eu queria!”.
É por tudo isto, que se repete ano após ano, que gosto tanto desta época, não pelo consumismo que, a meu ver, ganha proporções extremas, mas sim porque tanto a véspera de Natal, como o dia em si, são as oportunidades ideais para estarmos em família, estarmos sentadinhos, aconchegados pelo calor humano e por uma crepitante lareira, e comemorarmos tudo o que nos une e aquilo que realmente importa J
Quando chega a hora da troca de prendas, sei de antemão que a maior parte das que me estão reservadas serão livros, já que todos sabem que essa é e será a minha prenda preferida, aquela que me fará sorrir e ganhar aquele brilho nos olhos. E este ano não foi exceção J! À medida que eu e o N. íamos desembrulhando os pacotes, a pilha de livros ia crescendo e estes foram os que traziam o meu nome:
- Recomeçar, de María Dueñas
- Até nos vermos lá em cima, de Pierre Lemaitre
- Alabardas, de José Saramago
- Os livros que devoraram meu pai, de Afonso Cruz


Agora, toca a anotar a data em que entraram cá em casa, aconchegá-los na estante, junto a outros que tenha do mesmo autor e/ou da mesma editora, refrear a vontade de lê-los já e riscá-los da minha “wishlist” J
Termino esta mensagem com a fórmula matemática que resume na perfeição o sentimento que me preenche nestes dias:

Natal + Livros = Felicidade completa!!!!!

O amor nos tempos de cólera, de Gabriel García Márquez

Domingo, 21 de dezembro de 2014




RELEITURA

Sinopse
O Amor nos Tempos de Cólera constitui na obra de Gabriel García Márquez um marco equiparável ao do célebre Cem Anos de Solidão, considerado até hoje, a sua obra-prima.

Opinião
Tenho que discordar do que é referido na sinopse. Para mim, e que me desculpem todos os que não concordam comigo, Gabriel García Márquez atingiu a perfeição com a narração de amores, misturada com uma crónica social da região caribenha, nos tempos de cólera.
Li pela primeira vez Cem anos de solidão há mais de quinze anos e já estive com a obra nas mãos para fazer-lhe a releitura que sinto que merece, mas confesso que não passei daí… Desfolhei-a, mantive-a na mesinha de cabeceira por umas horas, mas, por fim, tive que voltar a pô-la na estante, porque sei que reler uma obra que está repleta de um número quase infinito de personagens, com o correspondente número de nomes (que ainda por cima são muito parecidos), de situações confusas, escrita com um estilo que vive do realismo mágico levado ao extremo (e que, para uma cética como eu, é demasiado para “poder ser engolido” como crível) seria uma pequena tortura, tal como foi quando a li pela primeira vez… Por todas estas razões, ao mesmo tempo que devolvia Cem anos de solidão ao lugar que ocupa na estante, decidi que seria bem mais saboroso recordar os amores de Florentino Ariza e da sua “deusa coroada”, Fermina Daza J
É certo que García Márquez deleita-nos com uma história recheada de sensualidade e poesia, que centra a sua ação nos cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias que Florentino vive à espera de que Fermina lhe abra a sua intimidade, se entregue a ele e possam assim gozar os prazeres de um amor recíproco. Mas O amor nos tempos de cólera é muito mais que uma história de amor. É uma porta que se abre e que nos dá a oportunidade de embrenharmo-nos na vida (dos finais do século XIX e princípios do século XX) de uma cidade portuária, dos seus habitantes, desde os aristocratas falidos, os comerciantes que vão ganhando a vida de forma mais ou menos legal até aos que vivem na miséria e tentam sobreviver em condições tão desumanas, que estão praticamente condenados a morrer de doenças como a cólera, que assolam a cidade demasiadas vezes. Oferece-nos igualmente uma paleta de costumes, mitos e tradições enraizados (de índole católica e pagã), de como o telégrafo revoluciona as comunicações e da importância que a navegação fluvial tem para a economia da cidade onde coabitam os nossos protagonistas. Já na última parte, o autor narra-nos a viagem “de núpcias” de Florentino e Fermina e em simultâneo vai-nos mostrando, sobretudo através das conversas que eles mantêm com o comandante do navio, o quanto a prosperidade das companhias de navegação fluvial estava diretamente relacionada com a destruição da fauna e flora das margens do rio Magdalena… Há então, nas páginas finais da obra (como acontece ao longo de toda a obra), um entrecruzar da belíssima história dos amores dos nossos protagonistas que conhece o seu desenlace feliz com a realidade económica da companhia dirigida por Florentino e também do seu país, uma realidade que não se restringiu à Colômbia, mas que infelizmente assolou outros países vizinhos – a sobre-exploração da natureza que levou à extinção de milhares de espécies…
Mas deixemos de lado estes factos menos positivos e centremos agora a nossa atenção na já tão conhecida e comentada demanda (de mais de cinquenta e um anos) de Florentino para entrar no coração e na vida da altiva e felina Fermina Daza. Centremo-nos na demanda que faz com que João Melo, no Posfácio que escreve sobre García Márquez e a sua obra, se refira a O Amor nos tempos de cólera como “um livro para viver” J. É óbvio que não posso deixar de concordar (e em absoluto), porque, num cenário onde impera a cólera que devasta populações, onde a morte ronda muito de perto as vidas dos dois protagonistas, Florentino não desiste de viver para conseguir que o seu amor seja correspondido, e, mesmo que só o tenha alcançado aos setenta e seis anos, consegue com isso dar-nos a melhor lição de todas – o amor não tem verdadeiramente idade, podemos ser tão ou mais felizes quando somos jovens ou menos jovens, que não devemos deixar que os anos que carregamos sejam um impedimento para a nossa felicidade, que somos donos do nosso destino, que somos nós que o escrevemos e o determinamos J! Perante tudo isto, como é possível não ficar rendida de corpo e alma a esta obra genial?...
Finalizo transcrevendo algumas das muitas passagens que sublinhei  e que são o exemplo perfeito (pelo menos para mim) do estilo poético, humorístico e cheio de pinceladas realistas e mágicas do autor. Aproveito ainda para assinalar que a edição que li (a 14ª edição das publicações Dom Quixote) está pontuada de gralhas que mostram que falhou o cuidado que deveria haver de uma editora tão reconhecida L
A sanita deve ter sido inventada por alguém que não sabia nada de homensJ (pág. 40)
A leitura converteu-se para ele num vício insaciável. J J(pág. 86)
O coração tem mais quartos do que uma pensão de putas.” (pág. 290)
Por outro lado, quando uma mulher decide ir para a cama com um homem não há muralha que não trema nem fortaleza que não caia, nem nenhuma consideração moral que esteja disposta a ser o seu fundamento; não há Deus que lhe valha”. (pág. 351)

Pois tinham vivido juntos o suficiente para se darem conta de que o amor era amor em qualquer tempo e em qualquer lugar, mas tanto mais denso quanto mais próximo da morte. (pág. 368)

Numa mesma noite, de Leopoldo Brizuela

Segunda-feira, 23 de dezembro de 2013




Sinopse
Leonardo Bazán, escritor, regressa a casa dos pais numa madrugada de 2010 quando testemunha, por acidente, um assalto à casa vizinha. Não é um assalto vulgar, pois é perpetrado por um grupo de crime organizado de que fazem parte agentes das forças da autoridade. Mas o que mais perturba o escritor é a recordação de um assalto de contornos semelhantes, ocorrido naquela mesma casa trinta e seis anos antes, pouco tempo depois da instauração da ditadura militar que engolia a Argentina numa onda de terror galopante.

As memórias de Leonardo, à altura com 13 anos, recuperam a figura de Diana Kuperman, antiga ocupante da casa assaltada e vítima de tortura psicológica pelo poder vigente. Mais do que apenas recordar, Leonardo questiona qual terá sido o papel do pai nos acontecimentos que levaram à detenção da vizinha. Para poder entender, Leonardo começa a escrever um romance, com o objetivo de resgatar e exorcizar um passado que tudo fizera para esquecer. Talvez assim possa salvar-se da sua própria cobardia.
Pista atrás de pista, o escritor aproxima-se do mistério, ao mesmo tempo que faz uma viagem pessoal pelo medo, pela reação à brutalidade do poder e pela memória do terror e da cobardia. Um texto tão íntimo quanto político, tão confessional quanto misterioso.

Opinião
Prémio Alfaguara Romance 2012, Numa mesma noite é um thriller com muito boas críticas, mas cuja leitura, para mim, se revelou uma tortura e um desgosto… Detesto dedicar-me a ler uma obra que, pelas opiniões de nomes consagrados, é uma obra “a não perder” e, a meio da sua narrativa, ter consciência de que só o orgulho e a teimosia de não deixar a sua leitura a meio me farão levá-la até ao fim!... E infelizmente foi isso que aconteceu com este romance de Leopoldo Brizuela…
Tudo o que li na sinopse me cativou de imediato e por essa razão maior foi a deceção quando, à medida que a leitura se ia desenrolando, fui constatando que a narrativa nada tem do que esperamos de um thriller, que é muito confusa, que não nos dá respostas para o que se poderá ter passado tanto no momento presente (2010) como nos anos 70 e que, para piorar, não nos oferece uma conclusão, um desenlace, o que, na minha opinião, poderia ter como que bálsamo no meio de tanto tédio e frustração… 
Sendo assim, ou este não era para mim o momento adequado para ler esta obra, ou então considero que um prémio tão prestigiado como o da Alfaguara não foi devidamente atribuído, principalmente porque não sou a única a dizer (já li comentários em outros blogues e que vão ao encontro do meu) que Numa mesma noite não consegue cativar o leitor, não consegue que o interesse despoletado pela sinopse se mantenha ao longo da narrativa… Pelo contrário, torna-se algo penoso levar a sua leitura até ao fim L

O único aspeto positivo que retirei desta leitura foi o conhecimento que adquiri da ditadura que assolou a Argentina, como assolou muitos outros países latino-americanos… Mas, de resto, não posso dizer que recomendo a sua leitura…

Os Enamoramentos, de Javier Marías

Terça-feira, 03 de dezembro de 2013





Sinopse
O novo romance de um dos mais importantes e respeitados escritores espanhóis. Com obra publicada em mais de 50 países, e mais de 6 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo e distinguido com o Prémio Literário Europeu 2011.
Os Enamoramentos foi considerado o melhor romance do ano 2011 (eleito por um painel de 57 críticos literários espanhóis). O autor aborda o mistério em torno de uma morte acidental para refletir sobre o estado do "enamoramento", considerado quase universalmente como algo positivo, quase redentor, que tanto justifica as ações nobres e desinteressadas, como as maiores tragédias e catástrofes.
Críticas de imprensa
«O que interessa a Javier Marías é a narração enquanto mecanismo de incerteza, a essencial ambiguidade e obscuridade da narrativa. Vivemos em grande medida daquilo que nos contam, dos “factos” que resultam dessa “informação” e que estruturam o nosso conhecimento do mundo. Mas se esses factos forem uma maquinação? Com efeito, tudo aquilo que “sabemos” faz parte da nossa consciência, mesmo as falsidades e as ficções. […] O ceticismo de Marías, especulativo, inteligente, elegante, supõe uma teoria da ficção que é uma teoria da vida.
Pedro Mexia, Expresso

Opinião
Hoje terminei de ler esta obra e só posso classificá-la de MAGNÍFICA!!! É, no meu ponto de vista, mais uma prova contundente de que a literatura que se faz em terras de “nuestros hermanos” é de muito boa qualidade e recomenda-se!
Até há bem pouco tempo a literatura espanhola contemporânea que “passava pelas minhas mãos” resumia-se basicamente às fenomenais obras de uma das minhas autoras favoritas de todos os tempos – Almudena Grandes. Contudo, através das opiniões que vou trocando com as minhas queridas compinchas apreciadoras do “bichinho da leitura” – sobretudo Lucinda, Nancy, Orlanda, Ana Luísa J – e das visitas que faço aos sítios da Alfaguara espanhola e das Tusquets, fui descobrindo que há outros nomes sonantes que podem e devem fazer companhia à “minha” Almudena na estante cá de casa. É o caso de Javier Marías cuja obra felizmente está a ser traduzida para português!
Deparei-me com Os Enamoramentos numa frutífera ida à Fnac – que começam a ser raras, já que são poucas as vezes que um livro me atrai ao ponto de anotar o seu título no meu caderninho… Contudo, essa ida foi a exceção, porque recordo-me que apontei este de Marías e pelo menos dois mais (Numa mesma noite, de Leopoldo Brizuela e Conversa n’ A Catedral, de Mario Vargas Llosa). Recordo-me ainda que o que me prendeu a atenção foi o resumo que nos é apresentado na contracapa e que tem todos os elementos que sempre me levam a querer comprar mais um exemplar para encher as já repletas prateleiras da minha estante J
A consequente leitura só veio confirmar essa impressão inicial deixada pelo referido resumo. Enamorei-me pela história, pelas personagens femininas, pela escrita de Marías e não posso deixar de mencionar que me apaixonei de imediato pela frase que dá arranque à narrativa - “A última vez que vi Miguel Desvern ou Deverne foi também a última vez que a mulher, Luísa, o viu, que não deixa de ser esquisito e porventura injusto, visto que ela era isso mesmo, sua mulher, e eu, em contrapartida, era uma desconhecida e nunca tinha trocado uma palavra com ele.”
O mote estava assim lançado – a condução da narrativa a cargo da protagonista María Dolz, o entrecruzar diário da sua vida com o casal Deverne, que personifica uma relação de amor perfeita, e a morte inesperada e brutal de Miguel Deverne que despoletará uma cadeia de acontecimentos imprevisíveis nas vidas de várias personagens. E é aqui que tenho então que avisar futuros leitores desta fantástica obra (que espero que venham a ser muitos) que não se deixem cair no engodo que podem produzir tanto a correspondente capa como o título. Os Enamoramentos não nos oferece uma clássica história de amor, mas é, tal como nos diz o próprio autor, um romance com carácter sombrio, pessimista e que nos faz questionar acerca do que são capazes as pessoas de levar a cabo por amor, “un sentimiento casi universalmente considerado deseable y positivo, "mejorador", incluso salvífico y "redentor"…
A felicidade que envolve o casal Deverne e que é “espiada” todas as manhãs por María é barbaramente interrompida com o assassinato de Miguel, que acontece sem que haja uma explicação convincente para o mesmo. Quando María toma conhecimento disso, inicia uma “viagem” que mudará para sempre a sua vida (que até aí apenas via a monotonia que a caracterizava quebrada pelos momentos que “partilhava” com o casal Deverne no café que frequentavam todas as manhãs) e que fará com que se torne alguém que passa a frequentar a casa da viúva – Luísa Deverne – e sobretudo em alguém que se torna íntima do melhor amigo de Miguel Deverne.
Essas mudanças na vida da narradora serão portanto o ponto de partida para o desenrolar de um emaranhado (muito bem engenhado e desfiado numa prosa que nos agarra e nos envolve) de pensamentos, de recordações, de momentos de dúvida, de citações de livros clássicos J, de divagações acerca do impensável choque que se abate nas vidas daqueles que perdem os seus entes mais queridos e sobretudo (e essa é a grande mensagem que o autor nos quer fazer chegar) acerca de que, hoje em dia, a sensação de impunidade impera nas nossas sociedades – “la sensación de que la impunidad domina es inevitable en nuestras sociedades”. Quantas vezes somos “bombardeados” pelos meios de comunicação social com exemplos de casos em que ditadores seguem as suas vidas, com os bolsos recheados, sem pagar pelo que fizeram, políticos que abusam do poder, provocam crises ou guerras e são condecorados e convidados para outros cargos importantes ou então anónimos que cometem crimes horrendos em nome desse sentimento redentor e magnânimo que é o amor?
Por tudo isto, estou plenamente convencida de que Os Enamoramentos tem tudo para que fiquemos rendidos à sua narrativa e consequentemente ao seu autor! Eu fiquei, sem dúvida nenhuma, e, por isso, recomendo a leitura desta e de outras obras de Javier Marías!!!

Não poderia terminar esta opinião sem fazer referência ao facto de que não quereria a vida de María Dolz por nada, a não ser talvez a sua profissão – trabalha numa editora em Madrid J J

Anna Karénina, de Lev Tolstói

Quarta-feira, 03 de dezembro de 2014



Sinopse
«Embora seja uma das maiores histórias de amor da literatura mundial, Anna Karénina não é apenas um romance de aventura. Verdadeiramente interessado por temas morais, Tolstoi era um eterno preocupado com questões que são importantes para a humanidade em todas as épocas. Bom, há uma questão moral em Anna Karénina, embora não aquela que o leitor habitual possa crer que seja. Esta moral não é certamente o ter cometido adultério, Anna pagou por isso (num sentido vago pode dizer-se que é esta a moral do final de Madame Bovary). Não é isto, seguramente, por razões óbvias: se Anna ficasse com Karenin e escondesse do mundo o seu affair, não pagaria por isso primeiro com a felicidade e depois com a própria vida. Anna não foi castigada pelo seu pecado (podia muito bem ter-se safado deste) nem por violar as convenções da sociedade, muito temporais como aliás são todas as convenções e sem ter nada a ver com as eternas exigências da moralidade. Qual era então a «mensagem» moral que Tolstoi queria passar neste romance? Entendemo-la melhor se olharmos o resto do livro e compararmos a história de Lévin e Kiti com a de Vronski e Anna. O casamento de Lévin é baseado num conceito metafísico, não apenas físico, do amor, na boa vontade e no sacrifício, no respeito mútuo. A aliança Anna-Vronski é fundada apenas no amor carnal e é aqui que reside a sua ruína.»
Do Posfácio, de Vladimir Nabokov

Opinião
Há muito tempo que sentia o bichinho de aventurar-me na leitura dos clássicos russos, mais propriamente nas obras aclamadíssimas de Lev Tolstói, como Guerra e Paz e Anna Karénina. Mas também é verdade que essa vontade arrefecia um pouco sempre que pegava numa dessas obras e via o quanto custavam L
Contudo, no passado dia da mãe, os homens da minha vida resolveram esse pequeno problema ao presentearem-me com o pesadíssimo (e ainda caríssimo – mas com as prendas há que pôr de lado esses pormenores materiais…) volume da Relógio D’água de Anna Karénina! Só o comecei a ler no início de novembro por questões que já expliquei em publicações anteriores (leituras sempre por ordem cronológica de chegada à minha estante J) e demorei praticamente um mês a terminá-lo, não só porque é um volume com muitas páginas, com uma letrinha miúda, mas também porque o trabalho não permitiu que a leitura avançasse a um ritmo mais célere!...
É óbvio que já tinha muitas “luzes” acerca da trama desta obra, nem que fosse apenas pelas variadíssimas adaptações cinematográficas já feitas. Sabia que a narrativa se centrava nos amores escaldantes e impossíveis que revolucionam a vida de uma aristocrata casada com um homem que não ama. Mas esses conhecimentos “spoilers” não retiraram o prazer inerente a qualquer livro que passa pelas minhas mãos, nem que seja pelo facto de ter absoluta consciência de que um filme é sempre redutor quando comparado à obra à qual foi “roubar” o seu argumento. Sendo assim, inaugurei a minha “entrada” no mundo de Karénina com o costumado entusiasmo e digo, desde já, que esse entusiasmo nunca arrefeceu, apesar de ter sentido alguma resistência nas partes mais descritivas e que abordam temas que nunca me interessaram, como a agricultura ou a política.
Bom, tal como já disse e como se pode confirmar pela sinopse/comentário de Nabokov, a protagonista que dá título ao romance é-nos caracterizada no início da narrativa como sendo uma mulher extremamente bela, que faz qualquer homem e mulher segui-la com o olhar (por razões obviamente opostas) mal entra numa sala. Também ficamos a saber que está casada com um homem mais velho, a quem devota sentimentos de respeito e cordialidade e com quem tem um filho que adora. Vive uma existência pacata, que se rege pelas tradições e normas típicas de alguém que pertence à aristocracia – festas, jantares, visitas sociais a amigos ou a conhecidos, participações em eventos, etc. Será, contudo, num desses eventos que a vida de Anna experimentará um momento de viragem irreversível ao travar conhecimento com aquele que, até ao momento, era o prometido da cunhada mais nova do seu irmão. Desde que vê Anna entrar na festa, com um simples vestido preto, mas que realça de forma estonteante a sua beleza, Vronski fica enfeitiçado e tudo faz para que ela repare nele e compartilhe do seu entusiasmo. Segue os seus passos, “tropeça” nela e sente que a sua insistência começa a produzir frutos sempre que vê nos olhos de Anna uma centelha de alegria e prazer.
Como leitores, entendemos perfeitamente que Vronski e a atenção que lhe dedica não são indiferentes a Anna, mas como mulher ainda me apercebi melhor disso quando, após o regresso a San Petersburgo (feito na companhia da mãe de Vronski), a nossa protagonista repara, como se fosse a primeira vez, no quanto lhe são desagradáveis as orelhas grandes do marido… Para mim, esta é prova chave de que, para Anna, já não há retorno à sua vida de antes, àquela que vivia tranquilamente, antes da aparição de Vronski. Por muito que a sua consciência e moralidade lhe digam que esse sentimento que sente desenvolver por esse belo jovem está errado, Anna não lhe resiste e começará assim a viver uma existência dupla e adúltera. Primeiro fá-lo-á às escondidas de todos, mas posteriormente desafiará o mundo russo ao sair de casa, acompanhada do fruto do seu amor e pronta para enfrentar tudo e todos!
Contudo, este desafio sair-lhe-á muito caro, sobretudo porque, enquanto mulher adúltera, será ostracizada, quase todos lhe virarão costas e Anna nunca mais terá a vida que sonhou que poderia ter com Vronski. E o sofrimento é ainda mais doloroso por ter noção de que, ao escolher viver o seu amor, perderá para sempre Serioja, o seu filho querido, aquele que eternamente será o seu menino, aquele a quem devota uma adoração tal que a impede de sentir o mesmo pela filha que teve com Vronski.
         É em tudo o referido até agora que reside a mestria de Tolstói, a utilização de uma linguagem simples, objetiva, realista, pormenorizada, para comunicar com o leitor, para dar-lhe a conhecer toda a história trágica de Karénina, o quanto ela sofreu (talvez, segundo depreendemos pela voz do autor, por culpa própria…), mas também o quanto fez sofrer o seu marido, Vronski e sobretudo o seu filho Serioja. Aliás, tomamos verdadeiramente conhecimento desse sofrimento numa pequena passagem da obra, mas que me enterneceu e tocou muito, pois Tolstói, em poucas páginas, põe em cena um Serioja mais crescido, mas que continua a sonhar com a mãe, a vê-la em todas as mulheres de cabelo negro que passam na rua e a ansiar pelo seu toque, pelos seus mimos, pelos seus beijos…
         Esta minha opinião (que já vai um pouco longa J) não ficaria completa se não fizesse referência a outros aspetos não menos importantes – a inevitável comparação dos amores de Anna e Vronski com os de Lévin e Kiti, a evidente identificação de Tolstói com a personagem de Lévin e a permanente sensação que experimentei em toda a leitura e que me fez recordar o realismo de Eça e associar Anna Karénina a Os Maias. Começando pelas duas intrigas amorosas paralelas, acho que é fácil de adivinhar (com a ajuda da sinopse) que o que, à partida, indicava que a relação adúltera de Anna iria acabar de modo trágico, indicava igualmente que os amores de Lévin e Kiti teriam o merecido final feliz. Já no que diz respeito à identificação do autor com a personagem de Lévin, posso dizer que não precisaria de ler o posfácio de Nabokov para compreendê-la! Lévin é-nos descrito, desde o início, como um homem de princípios, que se rege pela sua consciência e não para satisfazer os seus impulsos e que “sabe que é seu dever assimilar o mundo à sua volta de forma inteligente e trabalhar para ocupar nele o seu lugar”. Na última parte da obra, encontramos mais uma prova dessa identificação autor-personagem, já que Lévin (que sempre questionou a fé) sente crescer no seu íntimo (tal como Tolstói na altura sentia) a importância da religião vista como a ferramenta para acreditar e espalhar o Bem. Por fim, foi impossível não fazer associações entre o autor russo e o nosso mestre do Realismo, pois, para além das descrições pormenorizadas da vida política e económica do país (algumas chatinhas, mas que me mostraram um pouco como era a Rússia dos finais do século XIX), faz-nos um retrato fidedigno de todas as personagens, que nos expõe o seu carácter, com defeitos, qualidades, opiniões, sentimentos e aquela perceção de que o que vem de fora é que é bom, é mais avançado, mais moderno, enfim, melhor do que é nosso, tradicional, genuíno…
         Concluindo, Anna Karénina proporcionou-me (nos quase 30 dias que esteve nas minhas mãos) uma leitura muito agradável e cumpriu o seu principal objetivo – fazer-me entrar no mundo dos clássicos russos e conhecer a fundo uma das maiores histórias de amor da literatura mundial.

         Agora num tom mais cómico/irónico, não posso deixar de partilhar esta imagem, que apesar de estar em espanhol, espelha na perfeição o meu dilema face ao preço exorbitante de alguns livros como o de Anna Karénina:


Contracorpo, de Patrícia Reis

Quinta-feira, 31 de outubro de 2013




Sinopse
Uma mulher fica viúva com dois filhos. Alguns anos depois da morte do marido, a vida não se refez e o filho mais velho, agora adolescente, cresce contra a mãe, num silêncio obstinado que só quebra nas histórias que se conta para adormecer e nos desenhos que faz de forma compulsiva. Com o anúncio do chumbo escolar, a mãe decide, sem grandes reflexões, fazer uma viagem com este filho, deixando o pequeno com os avós. Não se trata de uma viagem com destino, mas antes uma procura.
Contracorpo é um livro contra o silêncio e sobre o silêncio. É uma história de procura de identidades distintas - da mulher e do quase homem - e ainda de descobertas. Uma mãe nunca é o que se espera. Um filho é sempre uma surpresa. O encontro dá-se enquanto procuram caminhos, de Lisboa a Roma, num jogo de claro escuro. Como se tudo fosse uma imagem.

Opinião
Não é novidade que sou fã incondicional de Patrícia Reis – tenho as suas obras todas! Identifico-me muito com a sua escrita, que à partida parece muito simples, com parágrafos e capítulos predominantemente curtos, mas que nos agarra, que nos toca e que nos faz refletir.
Em Contracorpo, deparei-me com a primeira história que tem como protagonista Maria, uma mãe viúva, que desde a morte do marido, vive para o trabalho e para os filhos. Contudo, enquanto a relação com o filho mais novo decorre tranquilamente, com ternura e mimos q.b. e os cuidados necessários para que as suas necessidades básicas sejam cumpridas, entre ela e a sua “cria” mais velha levantou-se um muro de silêncio (apenas quebrado por raros momentos monossilábicos) que parece não querer ceder… Então, num momento de desespero e que podemos descrever como sendo um daqueles de “ou vai ou racha”, Maria toma uma decisão – fazer uma viagem, aparentemente sem destino concreto ou regresso planeado, tendo apenas como companhia Pedro, o filho mais velho. E será nessa viagem que conheceremos mais intimamente estes dois, continuando a autora a dividir a narrativa em capítulos que alternam entre si os narradores – Maria e Pedro.
Não consigo imaginar a dor que sentirá um filho quando a morte lhe rouba um dos progenitores. Esse “roubo”, com toda a certeza, será traumatizante em qualquer fase da nossa vida, mas na adolescência, naquela fase que questionamos tudo e todos, que paradoxalmente testamos a autoridade dos pais e ao mesmo tempo necessitamos deles mais do que nunca, será como se nos tirassem o chão, nos deixassem desprotegidos, desamparados face à passagem dos dias, à passagem que, a partir daquele momento, passa a ser mais solitária e repleta de perguntas sem respostas, de muita revolta surda e muda…
Sem recorrer à lamechice (como nunca o faz), mas com passagens emotivas, serenas e que ficam connosco, Patrícia Reis convida-nos a entrar no carro de Maria e de Pedro, a sentar junto deles, a apreciar a paisagem que vai ficando para trás à medida que a viagem continua e a ser o espetador das mudanças subtis que vão ocorrendo enquanto o conta-quilómetros vai acumulando quilómetros. O silêncio deixa de ser incómodo como até aí havia sido, instala-se como muitas vezes se instala entre duas pessoas que compreendem que muitas vezes esse silêncio é de ouro e que as palavras podem ser desnecessárias… Os monossílabos vão sendo substituídos e mãe e filho conquistam passo a passo, quilómetro a quilómetro, uma relação, um entendimento que os faz ver um ao outro como alguém que sabe, que sofreu na pele a mesma dor que o outro sofreu e que está ali para dar a mão, uma palavra ou um olhar de conforto e alento.
Sendo assim, o risco que Maria tomou valeu a pena. Arriscou tudo para reconquistar o filho, não quis passar por mais uma perda e recuperou não só o seu lugar de mãe na vida de Pedro, como se recuperou a si mesma. Como mãe e como mulher.
Por fim, só me falta dizer que recomendo sem reserva este livrinho precioso e registar aqui algumas (das muitas) passagens que sublinhei J
As viagens preferidas (…) sempre foram curtas, de carro, sem destino. (…)
Hoje vamos dormir na paisagem.
E o carro levava-os para o Alentejo, para o Gerês, para a raia. Nessas viagens existia um silêncio reconfortante. Nada de conversas forçadas ou de constrangimentos. Deixavam a música correr a estrada e cantarolavam. Por vezes sorriam. Outras, as mãos tocavam-se por instantes.” (pág. 52)

“Maria hesita em continuar a falar. Cala-se. De repente sente medo. O filho despe a camisola, as calças, vai à casa de banho. Ouve-o, os tais gestos que adivinha, todos os detalhes, mesmo os mais pequenos, como se os estivesse a ver. Era tão pequeno. E agora? Quase um homem. Quando Pedro regressa ao quarto, deita-se a medo. A cama é curta. E estreita. Maria sorri e fecha o livro
Dorme bem.
Boa noite, mãe.
Na escuridão do quarto, Pedro continua de olhos abertos. Há uma luz que vem da janela, por vezes passa um carro e o barulho vem de longe, aproxima-se afasta-se. De repente pergunta
Tens medo do quê, mãe?
Ah, do escuro, de aranhas, que vos aconteça alguma coisa. Não sei. E tu, Pedro?
Às vezes acho que não tenho medo de nada, tento não pensar nisso. Outras vezes tenho medo dos dias a seguir. Do futuro.
Sabes, uma das coisas que aprendi é que não vale a pena pensar no futuro. A vida troca-nos as voltas.
Pois. Boa noite, mãe.
Boa noite.” (pág. 106)


O pai é um abraço enorme que me deu um dia. É essa a recordação que o mantém preso a mim. Aquele abraço apertado e depois um afago no meu cabelo, a mão do pai presa, por instantes, no cabelo. Sinto lágrimas nos olhos.” (pág. 153)

O ano sabático, de João Tordo

Domingo, 13 de outubro de 2013



Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

Depois de treze anos de vida desregrada no Québec, Hugo, um contrabaixista de jazz, decide tirar um «ano sabático» e regressar a Lisboa, onde espera reencontrar o equilíbrio junto da família. Porém, logo numa das primeiras noites, assiste ao concerto de Luís Stockman - um pianista que se tornou recentemente famoso -, e a almejada paz transforma-se no pior dos pesadelos: Stockman toca um tema inédito que Hugo conhece bem demais, pois é o mesmo que vem escrevendo há anos na sua cabeça…
Quando o começam a confundir na rua com o pianista - e a própria mãe lança a dúvida sobre a sua identidade -, Hugo encetará uma busca obsessiva da verdade e do seu duplo, entrando num labirinto de memórias e contradições que o conduzirá a um destino muito mais funesto do que imaginara ao deixar Montreal. É nessa mesma cidade que Stockman desaparecerá, curiosamente, mais tarde, segundo nos conta o seu melhor amigo - o narrador deste romance - a quem cabe agora desmontar os acontecimentos, destrinçar fantasia e realidade e enfrentar as assustadoras e macabras coincidências que unem, como num espelho, a vida dos dois músicos.

Opinião
Acabadinho de ler, este livro de Tordo (o terceiro que leio) centra a sua ação (tal como nos informa a sinopse correspondente) na vida de um músico chamado Hugo. Presentemente, este músico, que regressa a Lisboa deixando uma vida de emigrante no Canadá, caracterizada (pelo menos nos últimos anos) pela desilusão, tristeza e bebida, não tem nada a seu favor, nem mesmo o que fora até aí o seu ganha-pão e razão para levantar-se da cama todos os dias – a música e o seu contrabaixo (que trata como se fosse um filho e ao qual trata carinhosamente de “Nutella”).
Contudo, como se tudo isto não bastasse, a sua vida piora quando, já em Lisboa, ouve um concerto de um pianista em ascensão e percebe que este toca uma música que ele, Hugo, estava a compor e que ninguém havia ouvido… A partir daí, Hugo inicia uma demanda “enlouquecida” para tentar descobrir tudo o que possa sobre esse músico que não só parece ter-lhe roubado a criação musical como também a identidade, já que é extremamente parecido consigo fisicamente, como se fosse o seu outro gémeo, para além da sua irmã.
Infelizmente não posso dizer que tenha gostado muito desta obra… Apesar de não ter ficado indiferente às linhas que ligam o protagonista Hugo ao autor João Tordo – ambos passaram pela experiência traumática de ter perdido o terceiro gémeo no momento do parto e os dois tocam contrabaixo – não me senti agarrada por esta narrativa como me senti, por exemplo, com a leitura de O Homem Duplicado, de Saramago. Em O Ano Sabático, há uma loucura desesperada que determina a busca de Hugo no que parece ser a tentativa de confirmar se o músico que ouviu em Lisboa poderá ser o seu terceiro gémeo, aquele que morreu no momento do parto. Há também uma deterioração física e psicológica em Hugo que nos toca, mas que nos deprime e que nos faz adivinhar o seu fim trágico. Nada na sua vida faz sentido, a relação que tem com a mãe, com o cunhado e inclusive com a irmã nada contribui para a sua tranquilidade e o contrabaixo deixa de ter utilidade, deixa de ser um prolongamento de Hugo como tinha sido até então…
Tenho, no entanto, que fazer uma ressalva à personagem que, pela sua inocência, comentários e traquinices próprios da sua idade, permitiu que, entre tantas linhas e páginas entranhadas de sentimentos depressivos e de desespero, eu sorrisse e me sentisse completamente rendida. Falo do pequeno Mateus, sobrinho de Hugo e que, apesar de surgir pontualmente, tem o encanto que só uma criança consegue ter ao chamar, por exemplo, “barco baixo” ao contrabaixo do tio e ao sujar-se todo com a comida, ao meter os dedos na boca e ao estar constantemente a perguntar algo, nem que seja a mesma coisa por mais de uma vez, como se a(s) resposta(s) anterior(es) não o satisfizessem J

Concluindo, muito provavelmente não relerei esta obra, mas não perdi a vontade de continuar a ler Tordo! Ai, isso é que não!

El lector de Julio Verne, de Almudena Grandes

Sábado, 28 de setembro de 2013



Sinopse
Nino, hijo de guardia civil, tiene nueve años, vive en la casa cuartel de un pueblo de la Sierra Sur de Jaén, y nunca podrá olvidar el verano de 1947. Pepe el Portugués, el forastero misterioso, fascinante, que acaba de instalarse en un molino apartado, se convierte en su amigo y su modelo, el hombre en el que le gustaría convertirse alguna vez. Mientras pasan juntos las tardes a la orilla del río, Nino se jurará a sí mismo que nunca será guardia civil como su padre, y comenzará a recibir clases de mecanografía en el cortijo de las Rubias, donde una familia de mujeres solas, viudas y huérfanas, resiste en la frontera entre el monte y el llano. Mientras descubre un mundo nuevo gracias a las novelas de aventuras que le convertirán en otra persona, Nino comprende una verdad que nadie había querido contarle. En la Sierra Sur se está librando una guerra, pero los enemigos de su padre no son los suyos. Tras ese verano, empezará a mirar con otros ojos a los guerrilleros liderados por Cencerro, y a entender por qué su padre quiere que aprenda mecanografía.

Opinião
Que alegria poder dizer que li mais um livro da “minha” Almudena! E que livro!!! Tal como havia dito no post/comentário que escrevi sobre o primeiro volume de “Episodios de una Guerra interminable” – Inés y la alegría –, a ansiedade, as expetativas que sentia por ler este segundo volume eram imensas e agora posso afirmar que, como sempre acontece com um livro desta fantástica autora espanhola, as expetativas foram amplamente superadas!!! Só posso exclamar, como qualquer espanhol exclamaria, que “es precioso” J
        É incontestável que “devorei” El Lector de Julio Verne porque em primeiro lugar, é mais uma obra de Almudena Grandes, em segundo porque é o volume número dois do projeto iniciado com Inés y la alegría e por fim, mas não menos importante, porque sei que um romance com um título como esse não me passaria despercebido!... É certo que não me considero a maior fã de Júlio Verne, mas sei o impacto que as suas obras tiveram e ainda têm na vida de adolescentes que, como eu, não conseguem/conseguiram passar sem a companhia de uma bela aventura literária, repleta de emoção e momentos entusiasmantes, que não nos deixam/deixaram “largar” o livro até que lemos a sua última página!
        Tal como nos informa a sinopse, a ação de El lector de Julio Verne passa-se em Jaén (Andalucía), mais propriamente numa pequena povoação chamada Fuentesanta de Martos e tem como narrador e protagonista Nino, um miúdo de nove anos, filho de um guarda civil, que vive com a família no quartel, numa pequena casa com quartos que dividem paredes finíssimas com o referido quartel e que, como tal, são incapazes de abafar os horríveis sons do sofrimento dos presos que são torturados… As noites de Nino são assim muitas vezes povoadas por essa dor que ele ou confunde com pesadelos ou com ruídos próprios de um filme… É isso que diz a si mesmo e à sua irmã mais nova quando esta acorda e o procura com medo.
        Numa vida que é assim uma mistura de mentiras e de verdades veladas, Nino tem plena consciência de uma coisa – quando for adulto não quer ser guarda como o seu pai, não quer ser tratado como é o seu progenitor e os outros guardas pelos habitantes da aldeia que os veem como os inimigos, os detentores de uma lei castradora e que obriga a inúmeros homens e jovens a procurarem refúgio nas montanhas, a tornarem-se guerrilheiros, a fugirem para o exílio ou a perderem a vida só porque não concordam com o regime que a lei defende tão acirradamente. Nino vive então do lado da defesa da lei, mas esse lado faz com que seja uma criança que não tem com quem jogar futebol ou brincar… Contudo, no verão de 1947 a sua vida mudará por completo quando conhecer Pepe, el portugués (J), um forasteiro que vem viver para um moinho afastado da povoação e que será a partir desse momento o seu grande amigo, o seu confidente e aquele que o apresentará ao maravilhoso mundo dos livros, dos livros de Júlio Verne.
        Para além de Pepe, também as Rubias, que compõem uma família de apenas mulheres e Elena, que é hóspede delas, terão uma presença preponderante na vida de Nino. Com Elena aprenderá mecanografia para poder ter, segundo o pai, um bom emprego no futuro (já que a sua pequena estatura compromete a possível entrada na Guarda Civil) e conhecerá outros livros de Verne e outros autores (como o amado Galdós de Almudena) que mudarão de uma forma irreversível a visão que Nino tem do mundo. Por sua vez, com as temíveis Rubias entrará no universo feminino, um universo de mulheres de coragem, de “pelo na venta” e que lhe abrirão também as portas do misterioso e proibido mundo dos guerrilheiros…
        Num dos livros mais pequenos que já escreveu, Almudena mostra-nos assim outro episódio pouco conhecido de uma guerra interminável – um episódio que nos faz viajar para uma pequena povoação do sul de Espanha, com habitantes pouco afortunados, que vivem em duras condições, mas que continuam a combater uma guerra que supostamente já terminou há bastante tempo. E combatem-na tanto os guerrilheiros como as suas famílias que vivem no povoado, longe da montanha, mostrando sem piedade o quanto odeiam e desprezam aqueles que estão contra eles, sejam eles os guardas-civis ou mesmo os seus filhos, como Nino. Um desses guerrilheiros é o lendário e mítico Cencerro, cuja história (contada a Almudena por um habitante natural de Fuentesanta de Martos e ponto de partida para a consequente escrita de El Lector de Julio Verne), quase setenta anos mais tarde (Cencerro morreu em 1947) foi relembrada como se a sua lenda, o seu mito ainda estivessem frescos na memória de alguém que nasceu 2 anos após a sua morte!...
        É sobejamente sabido de que lado a autora se coloca e se colocaria nesta guerra interminável, mas, neste romance não há uma fronteira que separa radicalmente os guerrilheiros dos guardas, ou seja, nem os guerrilheiros e suas famílias são caracterizados como os “bons” nem os guardas como os “maus”. Para além do que já referi sobre o ódio que os familiares dos foragidos sentem sem distinção por todos os que “pertencem” aos defensores da lei, também estes últimos são personagens realistas, com qualidades e defeitos, como por exemplo o pai de Nino, que está deste lado da fronteira porque combateu, por coincidência, neste regimento e aí se manteve por uma questão de sobrevivência, sua e dos seus.

        Não posso terminar este comentário sem fazer alusão ao elemento de ligação entre Inés y la alegría e El Lector de Julio Verne, ou seja, ao restaurante La cocina de Inés, que aparece na foto que um guerrilheiro que foge para terras francesas manda à sua família. Sendo assim, é um elemento tão frágil que pode passar perfeitamente despercebido e não impedir que a leitura destas duas obras seja feita de um modo não cronológico e independente.

        Concluindo, não posso fazer outra coisa que não seja afirmar com todas as letras que ADOREI e RECOMENDAR que leiam este estupendo livro!!!


Explicação dos pássaros, de António Lobo Antunes

Quinta-feira, 06 de novembro de 2014




RELEITURA

Sinopse
Um homem e uma mulher deixam Lisboa para se dirigirem a Tomar, onde decorre um congresso, mas é em Aveiro que passam o fim-de-semana. O homem quer deixar a mulher, não é capaz de lhe dizer, e finalmente ela resolve deixá-lo. A mulher regressa sozinha. O homem desapareceu. Mais tarde, encontra-se o seu corpo na ria de Aveiro. Suicidou-se. Há pássaros junto do cadáver.

Opinião
Admiro a obra de António Lobo Antunes desde que, há uns bons anos atrás, a minha querida mamã me ofereceu O Manual dos Inquisidores, obra que já li pelo menos três vezes e que recomendo vivamente a todos – àqueles que não conhecem Lobo Antunes e àqueles que já o conhecem, mas ainda não tiveram o prazer de ler essa obra.
Já mencionei antes que, neste momento, as minhas leituras estão a ser intercaladas – leitura de uma obra que tenha “aterrado” ultimamente na minha estante e releitura de outra que já lá esteja há uns aninhos e que, por uma razão válida ou por um impulso do momento, me apeteça voltar a ler. Explicação dos pássaros era uma dessas obras que estava há uns tempos na “lista de possíveis releituras”, sobretudo por ser uma das obras escritas por Lobo Antunes que ainda consigo ler, ou seja, que não é tão densa e complexa como Ontem não te vi em Babilónia (cuja leitura se transformou em tortura, mesmo para alguém como eu, com alguma “bagagem” leitora) ou outras obras mais recentes, mas que possui todas as características que fazem deste autor alvo de uma justa admiração.
Contudo, não foi uma releitura fácil… Não sei se o facto de a ter relido numa altura de muito trabalho, de pouco tempo disponível para sentar/deitar no sofá e embrenhar-me na sua leitura tenha tido alguma influência, mas o que é verdade é que sinto que não voltarei a pegar nesta obra por muito e muito tempo…
Todos os que conhecem os romances de Lobo Antunes sabem que nenhum deles está recheado de momentos alegres, positivos ou que nos possam levantar o ânimo. Nada disso. Mas, mesmo tendo consciência disso, não consigo deixar de sentir que em a Explicação dos Pássaros, o autor conseguiu criar um protagonista que não poderia ser mais fraco ou volúvel. Desde as primeiras páginas sabemos que Rui S. irá suicidar-se e, numa narrativa que salta do presente para o passado ou para o futuro em poucas linhas, vamos acompanhando os seus últimos quatro dias de vida e ao mesmo tempo conhecendo a sua família, os seus tempos de jovem, as suas relações amorosas falhadas e a sua vida miserável, a vida de alguém que não tem nada que o faça lutar, que o faça querer viver um dia após o outro com ânimo e vontade de seguir em frente. O narrador faz questão de nos pôr a par de tudo o que poderia estar por detrás dessa fraqueza de carácter de Rui – uma família burguesa que vive das aparências, uma mãe que passa os dias a jogar cartas com as suas amigas burguesas e sobretudo um pai ausente, que trai constantemente a mulher e que, desde a infância de Rui, quando o tratava como um pai deve tratar um filho, se afastou abruptamente, deixou de brincar, de passar tempo com ele, como fazia no verão, quando o pegava ao colo e lhe explicava os pássaros.
Sendo assim, tal como acontece em O Manual dos Inquisidores, voltamos a uma obra que nos põe em contacto com uma personagem masculina que vê o seu crescimento seriamente abalado com a falta de atenção e acompanhamento da figura paternal. Mas, no caso de Rui S., nem essas recordações nostálgicas da infância, dos preciosos momentos passados com o pai, me levaram a sentir empatia por ele. A descrição que o narrador faz dele, das suas atitudes, dos seus comportamentos faz com que pareça que não quer que simpatizemos ou tenhamos compaixão dele, porque, à medida que a narrativa avança para o seu conhecido desenlace, tudo o que se relaciona com Rui S. nos mostra o seu lado mais fraco e mais abjeto. O narrador parece, dessa forma, ter como único propósito despedaçar, extirpar lentamente a vida do protagonista, tal como farão os amados pássaros ao seu corpo depois de se ter matado…
Resumidamente é um livro muito bem escrito, mas deprimente, que aborda de uma forma crua e nada abonatória a vida do nosso país na época pré e pós 25 de abril, critica sem piedade burgueses salazaristas e comunistas e faz com que a morte/suicídio de um ente querido seja vista como mais um número de circo sem qualidade…

Por tudo isto, sei que não voltarei tão cedo à obra “antuniana”!...

As pontes de Madison County, de Robert James Waller

Segunda-feira, 09 de setembro de 2013




RELEITURA



Sinopse
As Pontes de Madison County é a história de Robert Kincaid, famoso fotógrafo, e de Francesca Johnson, mulher de um agricultor do Iowa. Kincaid, de 52 anos, é fotógrafo da National Geographic - um estranho e quase místico viajante dos desertos asiáticos, dos rios longínquos, das cidades antigas, um homem que se sente em desarmonia com o seu tempo. Francesca, 45 anos, noiva italiana do pós-guerra, vive nas colinas do Iowa com as memórias ainda vivas dos seus sonhos de juventude. Qualquer deles tem uma vida estável, e no entanto, quando Robert Kincaid atravessa o calor e o pó de um Verão do Iowa e chega à quinta dela em busca de informações, essa estabilidade desaba e as suas vidas entrelaçam-se numa experiência de invulgar e estonteante beleza, que os marcará para todo o centro.
O resultado é uma história apaixonante e profundamente comovedora, que coloca Robert James Waller na vanguarda dos novos romancistas norte-americanos.

Opinião
Na sexta-feira dei comigo a rever o filme baseado nesta obra. Sim, não foi a primeira vez que o vi, nem a primeira que o revi, mas o impacto é sempre o mesmo – a extraordinária cumplicidade da fantástica Meryl Streep e do ex “Dirty Harry” apanha-me sempre desprevenida e o resultado é o esperado – não descolo do ecrã e sofro com uma intensidade brutal, de tal forma que choro, choro baba e ranho, como choro!!!
O filme é realmente arrebatador e como consequência tive que ir à estante, retirar de lá o livro homónimo e relê-lo.
A releitura levou-me de novo a Iowa, a acompanhar a chegada de Robert a casa de Francesca, a perceber o que nesse preciso momento começou a mudar nas suas vidas e a viver intensamente aqueles quatro dias em que os dois saborearam a história de amor das vidas deles. O livro narra tudo isto numa linguagem simples, despretensiosa, mas, e para minha surpresa (porque será das pouquíssimas vezes que direi isto), falta-lhe algo quando comparado com o filme: os gestos, os silêncios, os olhares trocados, os movimentos que sobretudo o IMENSO talento de Meryl Streep nos oferece em cada cena – o arrebatamento típico de uma adolescente que se enamora pela primeira vez, a sensualidade que ela emana nas cenas que divide com Clint Eastwood, o sofrimento que reflete o seu olhar nas cenas finais, o desespero que a faz quase abrir a porta da carrinha e abandonar o marido – todo essa magia e carga de sentimentos que só esta atriz sabe pôr em cada cena fazem com que a leitura do livro resulte um pouquinho defraudada, já que é impossível não fazer comparações!...

Comparações aparte, As Pontes de Madison County contam-nos uma belíssima história de amor, que se torna impossível porque aparece no momento errado na vida das duas personagens principais. Mas, apesar de aparecer nesse momento errado e de durar apenas 4 dias, não nos consegue de forma alguma deixar indiferente, porque quem não gostaria de viver uma história assim, uma história em que “(…) tínhamos cessado de ser dois seres distintos e que nos tínhamos tornado num terceiro ser formado por nós os dois. Nenhum de nós existia independente desse ser.”?...