O labirinto dos espíritos, de Carlos Ruiz Zafón



Ficha técnica
TítuloO labirinto dos espíritos
Autor – Carlos Ruiz Zafón
Editora – Planeta Manuscrito
Páginas – 845
Datas de releitura – de 23 de janeiro a 03 de fevereiro de 2018

Opinião
Estou saciada. 845 páginas e 12 dias depois, estou saciada. Acedi ao âmago e coração do labirinto desta saga abrindo e fechando portas, interligando caminhos e atando muitas pontas que haviam ficado soltas ao longo das três narrativas anteriores. Obtive respostas, pude continuar na vida de personagens que nunca esquecerei, franqueei novamente o portão do Cemitério dos Livros Esquecidos, conheci Alicia Gris e soube por fim quem foi na verdade Isabel Sempere.
Se o primeiro volume se centra na história de um leitor, de “como nos seus anos de mocidade descobria o mundo dos livros e, por extensão, a vida, através de um enigmático romance escrito por um autor desconhecido que escondia um mistério daqueles de deixar a boca seca”; se o segundo tomo relata “a macabra peripécia vital de um romancista maldito” e a descida aos infernos da sua própria loucura; se o terceiro volume se dedica à personagem de Fermín Romero de Torres e ao modo picaresco como chega a ser quem é e nos descreve as suas “muitas desventuras nos anos mais turvos do século”, esta quarta parte, “virulentamente enorme e temperada com os perfumes de todas as anteriores,” leva-nos por fim ao centro do mistério e desvenda todos os enigmas pela mão de um anjo das trevas chamado Alicia Gris.
Continuamos a entrar e a sair da livraria Sempere e Hijos e a conviver com o Sr. Sempere, com Daniel, Bea, o filho de ambos – Julián –, Fermín, Bernarda e o punhado de vizinhos com quem travámos conhecimento no volume inicial desta saga. Estamos no final da década de 50 e um acontecimento desencadeia um turbilhão de consequências que fará com que as vidas aparentemente apaziguadas dos Sempere e amigos sofram uma reviravolta sem retorno. Mauricio Valls, o eminente Ministro da Educação Nacional e ex-diretor da prisão de Montjuic, desaparece sem deixar rasto. o homem que marcou de forma bárbara e tortuosa a vida de Fermín, de David Martín e sobretudo de Isabel Sempere evapora-se, some, mas deixa para trás um rasto de morte, de corrupção, de desejos de vingança, de dor. Deixa igualmente uma filha adolescente a quem Alicia, uma obscura agente de um obscuro grupo de agentes que fazem aquilo que a polícia nacional não consegue, promete encontrar o pai e trazê-lo de volta.
Este desaparecimento e esta promessa são apenas a via de acesso a labirinto de histórias e enigmas que se vão entrelaçando e oferecendo as respostas que o leitor vem sofregamente procurando desde que entrou pela primeira vez no Cemitério dos Livros Esquecidos pela mão de um Daniel Sempere muito jovenzinho. Mas são igualmente a via de acesso para conhecermos e convivermos de muito perto com outra das personagens inesquecíveis saídas do engenho de Zafón – o sombrio, maléfico e obscuro anjo das trevas que dá pelo nome de Alicia Gris. Se Fermín me havia conquistado pelas suas características únicas, Alicia atraiu-me como a luz atrai o inseto indefeso. Bastou ler as primeiras palavras sobre ela, sobre o seu lado indefeso que esconde debaixo de uma capa de crueldade, frieza, dissimulação e laivos diabólicos para que me rendesse ao seu encanto pérfido e me transformasse na sua mais acérrima defensora e protetora. Fui devorando capítulo atrás de capítulo sempre agarrada à sua sombra e quase esqueci a pequenina desilusão que ia sentindo por ver que a sua preponderância, o seu protagonismo ia abafando personagens que conhecia e mimava desde o primeiro volume da saga. Segui-a página atrás de página e assim fui saltando no tempo e no espaço, fui viajando para os anos da guerra civil, para os que imediatamente lhe seguiram e para um presente de ditadura franquista instalada de forma absoluta e que continuava a eliminar sem piedade todos aqueles que a ameaçavam. Saí de Barcelona e viajei com Alicia para a capital, uma Madrid negra, maquiavélica, onde num quarto de um hotel de luxo, com falinhas mansas, doçura temperada com veneno e promessas de uma vida finalmente livre, se transformam jovens indefesas, desamparadas e sós no mundo em bonecas assassinas. Fui, como já referi a sua mais que perfeita sombra e assim constatei o que já é óbvio para mim, mas que me continua a perseguir de forma obsessiva – o dia-a-dia de um país esmagado por uma ditadura, de milhares e milhares de cidadãos das suas duas principais cidades que têm que continuar com as suas vidas, que têm que continuar a engolir o sabor a fel e a dor de anos que lhes roubaram entes queridos, amigos e companheiros, que têm que continuar a ser as marionetas perfeitas de um punhado de poderosos que podem desmembrar famílias, matar-lhes pais, mães, roubar-lhes as crianças apenas porque sabem que a mão omnipotente de Franco será sempre a sua fiel protetora.
No início deste texto mencionei que através deste quarto e último volume soube por fim quem foi na verdade Isabel Sempere, mãe de Daniel. No final de O prisioneiro do céu, fiquei a saber o que de verdade lhe havia provocado a morte. Agora, com esta última leitura, recuei até à sua infância, adolescência e juventude, soube como conhecei o seu marido e outros pormenores que não vou revelar, mas que me saciaram muitas dúvidas e questões. Não posso dizer que tenha ficado satisfeita com todas essas respostas, mas gostei do temperamento de Isabel, da sua garra, da sua determinação e do quanto ela amou e provou amar os seus. É mais um exemplo da força das personagens femininas que povoam esta saga. Bea, Nuria, Isabel e Alicia são, à sua maneira, inesquecíveis e mostram inclusive uma preponderância nas múltiplas narrativas dos quatro volumes que relega para segundo plano algumas das personagens do mundo masculino.
Não posso rematar esta opinião sem referir que Zafón soube manter o ambiente gótico, rocambolesco e pontuado com características folhetinescas que acompanham o leitor desde A sombra do vento. A linguagem algo rebuscada, as descrições polvilhadas de hipérboles, metáforas e outros recursos, as tiradas deliciosas de Fermín continuam em O labirinto dos espíritos e são acentuadas pelo carácter misterioso e de thriller que caracterizam este volume. As portas que vão sendo paulatinamente abertas para o desvendar dos múltiplos enigmas desta saga são também uma mais-valia para conseguir manter o leitor interessado e fazer com que este esqueça o volume gigantesco da obra. Por fim, a parte que encerra a obra e que muitos leitores (de quem fui lendo as correspondentes opiniões no Goodreads e blogues) consideram supérflua faz-nos voltar ao início da saga e encerra o ciclo de uma maneira muito hábil, deixando-nos um sorriso nos lábios – pelo menos a mim deixou – e a sensação de apaziguamento que referi no início deste texto.
Li este calhamaço em apenas 12 dias. Acho que este número diz tudo. Resta-me agradecer a Zafón ter-me proporcionado leituras que se manterão comigo por muito e muito tempo. Este último volume fecha com chave de ouro uma saga que recomendo veementemente e até faz com que me esqueça da desilusão que foi (pelo menos para mim) o segundo tomo da saga, talvez porque me dá uma visão mais realista do papel que o mesmo teve em toda a série de O cemitério dos livros esquecidos.

RECOMENDADÍSSIMO!

NOTA – 10/10

Sinopse
Na Barcelona de fins dos anos de 1950, Daniel Sempere já não é aquele menino que descobriu um livro que havia de lhe mudar a vida entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos. O mistério da morte da mãe, Isabella, abriu-lhe um abismo na alma, do qual a mulher Bea e o fiel amigo Fermín tentam salvá-lo.
Quando Daniel acredita que está a um passo de resolver o enigma, uma conjura muito mais profunda e obscura do que jamais poderia imaginar planta a sua rede das entranhas do Regime. É quando aparece Alicia Gris, uma alma nascida das sombras da guerra, para os conduzir ao coração das trevas e revelar a história secreta da família… embora a um preço terrível.
O Labirinto dos Espíritos é uma história eletrizante de paixões, intrigas e aventuras. Através das suas páginas chegaremos ao grande final da saga iniciada com A Sombra do Vento, que alcança aqui toda a sua intensidade, desenhando uma grande homenagem ao mundo dos livros, à arte de narrar histórias e ao vínculo mágico entre a literatura e a vida.

Balanço mensal - livros lidos e recebidos em janeiro


Janeiro é muito especial para os adultos cá da casa. Os dois somos “nativos” do mês que arranca o ano e celebramos o nosso aniversário com quinze dias de diferença. Ora, devem suspeitar que, sendo nós um casalinho amante das leituras, oferecemos leituras um ao outro e ainda recebemos mais leituras dos pais, amigos e familiares. O resultado é esta pilha que me rasga um sorriso pateta todas as vezes que me perco nela e que deve provocar alguma invejazinha boa em muitos de vocês. Eu entendo e perdoo 😊
Como se já não bastasse, à pilha de nove livros que fomos, eu e o maridinho, desembrulhando, juntaram-se dois miminhos que a editora Clube do Autor deixou na nossa caixa do correio. Melhor seria mesmo impossível!
Confesso que tudo o que desembrulhei justifica ainda mais o que, um dia destes, uma colega de trabalho me disse – “A vida sorri-te, não sorri?”. Dos homens da minha vida recebi Atos humanos, de Han Kang e A rapariga do casaco azul, de Monica Hesse. Este último constava da minha wishlist e foi o docinho do meu pequenote. O de Han Kang foi uma surpresa, que resulta das inúmeras conversas que tenho com o N. sobre títulos e obras com que vou tropeçando nos blogues que sigo, nas livrarias, no Goodreads ou nos comentários de quem me segue (não é verdade, Paula?). Referi uma noite qualquer o quão curiosa estava sobre esse romance brutal da autora sul-coreana e, pouco tempo depois, já o tinha comigo.
Da mulher da minha vida recebi carta-branca para comprar o que quisesse. Assim sendo, aproveitei uma das muitas promoções que me tentaram durante todo o mês, aliei-a a um cheque aniversário oferecido pela FNAC e encomendei dois dos inquilinos mais antigos da wishlist – A casa redonda, de Louise Erdrich, e O segredo dos seus olhos, de Eduardo Sacheri.
Novamente espicaçada pelas sugestões suculentas da Paula, comprei (com a permissão do papá) num domingo de manhã e com a Bertrand quase toda para mim, Deixem falar as pedras, de David Machado.
Por fim, os meus queridos sogrinhos ofereceram-me A escada de Istambul, de Tiago Salazar e continuaram, dessa forma, a dizimar a wishlist. Coisa boa!
Quinze dias depois era a vez do maridinho ser mimado como tão bem merece. O filhote presenteou-o com o calhamaço que lhe faltava do José Rodrigues dos Santos – Sinal de vida. Já eu mimei-o com outra das suas obsessões – uma obra sobre a Segunda Guerra Mundial – Os meninos que enganavam os nazis, de Joseph Joffo. Os papás seguiram o meu exemplo e deram-lhe a obra imortal de Primo Levi – Assim foi Auschwitz.
Dois aniversários, nove novas leituras. Apetece-me dizer que o Natal se repetiu em nossa casa apenas umas semanas depois e que temos as prateleiras de livros para ler a rebentarem e a vergarem com o peso de seguramente mais de quarenta obras que esperam que as saboreemos com dedicação, prazer e um sorriso que ilumina o mundo!
Para rematar a primeira parte deste balanço, agradeço muito, muito, muito à editora Clube do Autor que continua a confiar em mim e me enviou o thriller Marcada para morrer, de Peter James (já li e ouvi comentários muitos positivos sobre outros thrillers do autor) e o romance A herdeira dos olhos tristes, de Karen Swan, que, segundo a capa, aborda “um desejo de liberdade ou a fuga de uma vida que não se desejou”. Serão duas leituras para muito em breve, por isso estejam atentos!

Aqueles que vão espreitando o blogue com assiduidade sabem que janeiro foi sobretudo o mês de Carlos Ruiz Zafón. Arranquei o ano com a releitura de A sombra do vento e tenho plena consciência de que voltar à narrativa desta obra foi a forma mais perfeita de iniciar o meu ano. Simplesmente perfeita, ainda mais saborosa do que a leitura que fiz há dez anos. Embrenhei-me e perdi-me na narrativa, nas sombras de Barcelona e na magistralidade com que o autor engendrou uma história que nos abana, que nos faz engolir as páginas, saltar de donde estamos no tempo e no espaço e querer não sair mais, ficar presos, presas a uma história mágica, repleta de sombras, de claridade, de dor, de esperança, de amores, de ódios, de risadas e sobretudo de livros, livros esquecidos e malditos. Obra soberba e merecedora de uma nota que rebenta a escala.
A segunda leitura do mês foi-me enviada no final de 2017 pela editora Clube do Autor. As lágrimas de Aquiles foi a obra de estreia do autor José Manuel Saraiva, de quem li há muitos anos Rosa Brava. Aborda a guerra do Ultramar e o quanto esta ceifou vidas de muitos soldados, mesmo que os mesmos não tenham perdido a vida em Moçambique, em Angola ou na Guiné. É uma narrativa amarga, que nos dói, que mostra uma maturidade de escrita surpreendente e que recomendo muito.
Da editora Clube do Autor veio igualmente a minha terceira leitura. Desta vez, tive que pôr de lado a aversão que confesso sentir por Miguel Sousa Tavares enquanto homem e deixar-me encantar pela história juvenil que compõe O planeta branco. Li-o de uma assentada porque é composto por poucas páginas (muitas delas ilustradas) e porque a história que conta cativa miúdos e graúdos e está repleta de mensagens ecológicas e de algo mais, algo que nos leva a entender o que de verdade é esse planeta branco. Atrevam-se a lê-la com os vossos filhos e vão ver que não se arrependem!
Para recordar aquilo que nunca deveria ter acontecido, li e adorei O rapaz do caixote de madeira, de Leon Leyson. É um livrinho pequeno, mas inesquecível, que nos conta em primeira pessoa quem foi Leon Leyson e como a sua vida de rapazinho judeu foi barbaramente trespassada pelo jugo nazi e como sobreviveu ao que poucos como ele sobreviveram apenas porque teve a sorte de ter conhecido e trabalhado para Oskar Schindler. Foi, como é fácil de calcular, uma leitura muito dorida e muito emotiva, mas que não trocaria por nenhuma outra, pois, por mais leituras do género que faça, continuo, por um lado, a não conseguir assimilar as atrocidades inenarráveis que cometeram alguns homens apenas porque se consideravam superiores a outros e, por outro, a precisar de recordar todos aqueles que morreram às mãos desses seres abjetos.
Finalizei o mês de volta a Barcelona, à livraria Sempere e Hijos e à deliciosa companhia do homem narigudo que me conquistou para sempre. Reli O prisioneiro do céu e agradeci inúmeras vezes ao autor ter oferecido as páginas do terceiro volume da saga de O cemitério dos livros esquecidos Fermín Romero de Torres, permitindo-me conhecê-lo melhor, deliciar-me com as suas tiradas e ficar com desejos de ter uns Sugus pertinho de mim, para confirmar se realmente têm essas propriedades curativas de males físicos e psicológicos que Fermín afirma terem. Este volume não é tão bom como A sombra do vento, mas não fica longe da pontuação máxima, sobretudo porque uma obra que tenha Fermín será sempre uma obra perto da genialidade!

Cinco obras lidas. A uma dei uma pontuação que rebentou a escala, a outra dei a pontuação máxima, a duas atribuí-lhes um nove e à que sobra dei-lhe um oito. Não poderia ter começado melhor o ano!
E o vosso janeiro? Leram muito? Compraram muito? Receberam algum miminho? Fico à espera dos vossos comentários!

Termino deixando-vos os links para acederem à opinião completa das obras lidas este mês:
§  A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón
§  As lágrimas de Aquiles, de José Manuel Saraiva
§  O planeta branco, de Miguel Sousa Tavares
§  O rapaz do caixote de madeira, de Leon Leyson
§  O prisioneiro do céu, de Carlos Ruiz Zafón


O prisioneiro do céu, de Carlos Ruiz Zafón

RELEITURA

Ficha técnica
TítuloO prisioneiro do céu
Autor – Carlos Ruiz Zafón
Editora – Planeta Manuscrito
Páginas – 398
Datas de releitura – de 19 a 23 de janeiro de 2018

Opinião
De volta às releituras e de volta à saga de “O Cemitérios dos Livros Esquecidos”. Como sabem, iniciei este ano de leituras com uma releitura que já me tentava há demasiado tempo. Reli A sombra do Vento e de novo rendi-me à sua narrativa pincelada de mistérios, de amores impossíveis, de vinganças, de personagens sublimemente (im)perfeitas como Daniel, Bea, Julián, Penélope, Nuria ou Fermín (como ri e chorei com este homem!) e de uma absoluta devoção aos livros, sobretudo àqueles que se classificam de malditos ou àqueles que jazem quase moribundos nas prateleiras da livraria Sempere e Hijos ou no labirinto mágico de um cemitério a que um punhado de afortunados vai tendo acesso. Saboreei a releitura com mais prazer do que a havia saboreado na leitura original e vi-me obrigada a rebentar a escala e dar-lhe uma classificação de 11!
Também já confessei aqui algures que pretendo fazer de 2018 um ano de muitas releituras. Irei intercalando-as com leituras novas e assim poderei satisfazer uma vontade que me persegue sempre que percorro com os olhos e os dedos as lombadas dos livros das estantes cá de casa e sinto aquele arrepiozinho bom ao deter-me num título de uma obra que há dois, três ou mais anos atrás me conquistou sem reservas. Dei azo a essa vontade logo quando o ano arrancou, com a referida releitura de A sombra do vento e a ela seguiu-se a do volume três da saga de Carlos Ruiz Zafón.
Quem conhece esta saga sabe que a mesma não necessita ser lida pela ordem cronológica de publicação. Contudo, essa não foi a razão pela qual decidi saltar do volume um para o três. A razão principal (e única) prende-se com o facto de ter lido o volume dois – O Jogo do Anjo – pouco tempo depois de ter sido publicado e ter ficado muito desiludida com ele. A aura de mistério mantém-se, continuamos em Barcelona, recuamos alguns anos em relação ao período narrado em A sombra do vento, tropeçamos em personagens conhecidas, continuamos enredados pelo amor pelos livros, mas a partir do momento em que o sobrenatural mancha a história, lá se vai o meu interesse e a correspondente credibilidade que tem que sustentar qualquer história que me queira agarrar.
Sendo assim, após ter-me deliciado e lambuzado com A sombra do vento, segui direitinha para O prisioneiro do céu, sem qualquer tipo de dúvida ou remorso. Daniel está casado com Bea e os dois são pais de um bebé chamado Julián. Fermín está prestes a casar, mas anda num estado de irritabilidade e melancolia que não se adequa com a iminente concretização do sonho de juntar os trapinhos com Bernarda. Este estado, porém ficará ainda pior quando se inteirar de uma visita de um homem de aspeto pouco tranquilizador à livraria Sempere e principalmente do recado que o mesmo deixou para si num exemplar da obra O conde Monte Cristo.
Este recado será o motor desencadeador para uma narrativa que nos abrirá portas ao passado de Fermín Romero de Torres e nos fará conhecer ainda melhor este homenzinho enxuto de carnes, dono de um enorme nariz e de um ainda maior coração. Regressaremos aos anos tormentosos do imediato pós-guerra civil, franquearemos as portas da tortuosa cadeia do castelo de Montjuic, saberemos quem era afinal aquele homem estranho e assustador que foi à livraria Sempere apenas para deixar um enigmático recado a Fermín, perceberemos finalmente por que razão este sempre esteve relacionado com a família Sempere e conheceremos um pouco melhor quem foi na verdade Isabel Sempere, mãe de Daniel. Meteremos a mão a tudo isto numa leitura vertiginosa, feita de capítulos curtinhos e de uma história habilmente montada pelo autor que não queremos largar mesmo quando viramos a última página. Comigo, pelo menos, foi assim. Fiquei de tal forma sedenta de respostas que, mal encerrei a leitura deste volume, voei para a estante onde estava à minha espera o calhamaço que contém o volume quatro e me embrenhei de imediato nas suas 845 páginas!
Sinto-me muito, mas muito tentada em deixar nesta opinião algumas migalhinhas do que estou a desvendar no último volume. Mas não o vou fazer, porque acho que, se o fizesse, estaria a ser “injusta” e a menosprezar de alguma forma o valor, o interesse e o prazer que retirei da leitura de O prisioneiro do céu. Admito que não me arrebatou tanto como o fez o seu antecessor (já previa isso, sobretudo porque é quase impossível que dentro de uma saga não haja mais e menos prediletos). Contudo, agradeço e muito ao autor ter dado neste volume a oportunidade de Fermín brilhar. Brilhar com as suas fraquezas, as suas imperfeições e acima de tudo com o seu coração do tamanho do mundo, a sua retidão, a sua verborreia inigualável, que me arranca gargalhadas esteja eu onde estiver, o seu apetite e o poder milagroso que atribui a um Sugus, principalmente se for de limão (os meus preferidos 😊).
Fermín conquistou-me. Aliás, estou um bocadinho apaixonada por ele e já sinto saudades, mesmo ainda não tendo terminado de ler o volume quatro. Por ele, recomendo que leiam O prisioneiro do céu. É certo que não é tão absorvente, tão deliciosamente avassalador como A sombra do vento, mas se estiverem tão apaixonados como eu por Fermín vão querer conhecê-lo melhor e só o podem fazer lendo O prisioneiro do céu.
Fica a recomendação. Eu, entretanto, vou devorando as páginas de O labirinto dos espíritos e vou saboreando a cada momento a vontade gulosa que espicaça as minhas glândulas salivares quando recordo o sabor de um Sugus de limão. Tenho que cuscar em supermercados e quiosques para ver se ainda se vendem!

NOTA – 09/10

Sinopse
Barcelona, 1957. Daniel Sempere e o amigo Fermín, os heróis de A Sombra do Vento, regressam à aventura, para enfrentar o maior desafio das suas vidas. Quando tudo lhes começava a sorrir, uma inquietante personagem visita a livraria de Sempere e ameaça revelar um terrível segredo, enterrado há duas décadas na obscura memória da cidade. Ao conhecer a verdade, Daniel vai concluir que o seu destino o arrasta inexoravelmente a confrontar-se com a maior das sombras: a que está a crescer dentro de si.
Transbordante de intriga e de emoção, O Prisioneiro do Céu é um romance magistral, que o vai emocionar como da primeira vez, onde os fios de A Sombra do Vento e de O Jogo do Anjo convergem através do feitiço da literatura e nos conduzem ao enigma que se esconde no coração de o Cemitério dos Livros Esquecidos.

O rapaz do caixote de madeira, de Leon Leyson


Ficha técnica
TítuloO rapaz do caixote de madeira
Autor – Leon Leyson
Editora – Editorial Presença
Páginas – 188
Datas de leitura – de 16 a 19 de janeiro de 2018

Opinião

Quem salva uma vida salva o mundo inteiro” (inscrição extraída do Talmude)

Vi pela primeira vez o filme A lista de Schindler há mais de vinte anos e não consigo recordá-lo sem que as lágrimas me marejem os olhos e sem que um nó se instale na minha garganta. São mais de três horas de película a preto e branco sobre “(…) Oskar Schindler, esse homem complexo e cheio de contradições – oportunista nazi, intrigante, corajoso, rebelde, salvador, herói – [que salvou] cerca de mil e duzentos nazis de uma morte quase certa.” (pág. 132). São mais de três horas que nos ferem e nos torturam, que me fizeram morder os lábios, os dedos, as mãos, que me deixaram sem reação, atónita e completamente exaurida. Creio que poucos filmes tiveram em mim o efeito que A lista de Schindler teve, talvez porque Spielberg foi brilhante ao transpor para a sétima arte um retrato cru e sem filtros do que foi o Holocausto, o extermínio do povo judeu nas mãos dos nazis e um lampejo de esperança e de humanidade de alguém que, mesmo estando no lado do inimigo, “(…) pode levantar-se contra o mal e fazer a diferença.” (pág. 162)
Leib Lejson (conhecido mais tarde como Leon Leyson) era o número 289 da lista de Schindler. Uma lista onde figuravam os judeus que deixariam de estar no “inferno de Plaszów” (campo de trabalho às portas de Cracóvia) e ingressariam num subcampo adjacente às instalações da fábrica Emalia, pertencente a Oskar Schindler. À força de persuasão e subornos a compatriotas nazis, o empresário convencera-os de que era do interesse do partido e da guerra que os trabalhadores vivessem paredes meias com a fábrica e não tivessem que percorrer duas vezes a distância considerável que separava a fábrica de Plaszów. Arriscando a sua própria vida, o único nazi que conheço que está sepultado em território israelita tratou “os seus judeus” como seres humanos, empregou um rapazinho franzino e débil, que tinha que empoleirar-se num caixote de madeira virado ao contrário para poder manobrar os comandos da máquina, deu-lhe uma ração suplementar e tudo fez para que não se visse separado dos seus familiares e para que não perdesse a vida nas mãos dos seus congéneres do partido. Arrancou-os do campo de Plaszów, do campo de Auschwitz e só os abandonou quando a guerra já estava perdida para os alemães e corria perigo de ser capturado pelos soviéticos. Mas “Não conseguiu partir sem se despedir, e reuniu os seus judeus uma última vez.” (pág. 131) Deixou-os livres. Deixou-os vivos.
Leon Leyson confessa no epílogo desta obra que reúne as suas memórias que o filme A lista de Schindler mudou a sua vida, que até ao momento do seu lançamento permanecera em silêncio acerca do seu passado, mas que a adaptação cinematográfica de algo tão intimamente ligado a si, ao seu passado e ao da sua família, o fez quebrar esse silêncio e partilhar a sua vida, a sua experiência traumatizante como criança judia sobrevivente do Holocausto com todos aqueles que o quisessem ouvir. Fê-lo inúmeras vezes, para distintos públicos e sem nunca preparar o que iria dizer e relembrar.
Dessa partilha resultou este livrinho que me tocou profundamente, que me fez recordar imagens do filme de Spielberg e o quanto as mesmas me violentaram e que me obrigou a engolir a vergonha que sempre sinto quando me deparo com o facto de que o Homem, um ser racional, tem comportamentos indignos, desprezíveis e infinitamente piores do que os dos animais. Essa partilha transportou-me ainda para o país onde as garras exterminadoras do ideal ariano deixaram marcas mais nefastas. Estive na aldeia natal de Leon e sobretudo na cidade de Cracóvia, na qual o nosso protagonista viveu em tempos de paz e em tempos de inferno. Percorri ao seu lado as ruas dessa cidade histórica, senti como se fosse meu o deslumbramento de Leon perante os testemunhos da sua riqueza medieval e acima de tudo encolhi-me de dor, de compaixão e de revolta quando tudo aquilo que ele foi descobrindo nas suas deambulações pelos recantos de Cracóvia lhe foi vedado por muros de mais de três metros e que o mantinham cativeiro num gueto desumano e aterrador.
Nenhuma leitura que aborde o Holocausto me deixa indiferente. Não poderia deixar. Mas quando as mesmas são de testemunhos verídicos, a repulsa, o tolhimento e a vergonha atormentam-se por muito mais tempo. Fazem-me questionar tudo e todos, inclusive a mim. Há uma parte nas memórias de Leon que me abanou de forma muito intensa. É a que se refere à sua saída do gueto para o campo de Plaszów – “… fiquei atónito ao verificar que a vida parecia igual ao que era antes. Era como se eu estivesse num túnel do tempo… ou como se o gueto ficasse noutro planeta. Pasmei para as pessoas limpas e bem vestidas, atarefadas de um lado para o outro. Pareciam tão normais, tão felizes… Não saberiam o que nós tínhamos sofrido, a uns escassos quarteirões de distância? Como poderiam não saber? (…) Que a nossa miséria, o nosso confinamento e a nossa dor fossem irrelevantes para as suas vidas era simplesmente incompreensível.” (págs. 92, 93) Os gentios polacos tinham continuado com as suas vidas, mesmo com um gueto dentro de portas. Optaram por fechar os olhos e ignorar que a fome, as condições desumanas, as deportações e uma máquina hedionda estavam a dizimar homens, mulheres e crianças apenas porque professavam uma religião diferente. É óbvio que nem todos viraram a cara. É óbvio que muitos ajudaram como puderam aqueles que até ao dia 1 de setembro de 1939 haviam sido seus vizinhos. Mas a grande maioria baixou a cabeça e preferiu ignorar, não saber. Deixou-se tolher pelo medo e pelo instinto de sobrevivência. E aqui me pergunto? Será que eu, se me visse em pleno palco de uma guerra de proporções mundiais, a poucos metros de um cenário de matança desenfreada e injustificável, me encolheria, olharia para o outro lado ou me levantaria contra o mal e tentaria fazer a diferença? Quero acreditar que seria forte e audaz como o foi Oskar Schindler ou tantos e tantos anónimos alemães, polacos, austríacos, holandeses, belgas ou franceses, mas… seria capaz? É por isso que os olho a todos e, neste caso, a Schindler como um herói, um ser extraordinário que sempre merecerá a minha total admiração. E é também por isso que sigo com a minha obsessão, que procuro de forma quase doentia narrativas totalmente verídicas ou baseadas em factos verídicos sobre as Grandes Guerras ou sobre a Guerra Civil Espanhola. Porque as mesmas são um ensinamento, são lições que nunca deveremos esquecer e são testemunhos do pior e do melhor que nos compõem como seres humanos.
Leon Leyson faleceu no início de 2013, um dia depois de entregar o manuscrito final deste livro à editora. Havia cumprido a sua missão. A mim só me resta agradecer-lhe a partilha. Tornou-me mais rica, um ser melhor. Como leitora, continuo a sua missão e peço-vos que façam o mesmo que eu. Não deixem que o mundo se esqueça de Leon ou de Oskar Schindler. Por favor.

Com esta leitura participo no desafio literário do Goodreads Leituras do Holcausto III. Obrigada, Isa!


NOTA – 10/10

Sinopse

Leon Leyson tinha apenas dez anos quando os nazis invadiram a Polónia em 1939 e a sua família foi forçada a viver no gueto de Cracóvia. Neste seu livro de memórias, Leon começa por nos descrever uma infância feliz, na sua aldeia natal e felizmente para a família, o seu caminho cruzar-se-ia com o de Oskar Schindler que os incluiu na célebre lista dos trabalhadores da sua fábrica. Na altura com apenas 13 anos, Leon era tão pequeno que tinha de subir para cima de um caixote de madeira para chegar aos comandos das máquinas. Ao longo desta história, que reproduz com autenticidade o ponto de vista de uma criança, Leon Leyson deixa-nos entrever, no meio do horror que todos os dias enfrentavam, a coragem, a astúcia e o amor que foram necessários para poderem sobreviver.