Patria, de Fernando Aramburu



Ficha técnica
TítuloPatria
Autor – Fernando Aramburu
Editora – Tusquets Editores
Páginas – 646
Datas de leitura – de 02 a 12 de abril de 2018

Opinião
Já terminei de ler esta obra há quase 10 dias e ainda não me sinto confiante o suficiente para falar sobre ela, para pôr em palavras e da forma mais completa e elucidativa o quanto as suas mais de seiscentas palavras me tocaram, me atropelaram e me fizeram viver (no verdadeiro sentido do verbo) durante precisamente dez dias no seio de duas famílias bascas.
Ontem, dia 20 de abril de 2018, a organização terrorista ETA emitiu um comunicado a pedir perdão pela dor e pelos danos causados às vítimas das suas ações. Compreendi que esse perdão é dirigido apenas a “cidadãos e cidadãs sem responsabilidade nenhuma no conflito.” Não vou sequer comentar este pedido de perdão “parcial e amputado”. Porém, vou aproveitar esta coincidência para tentar organizar o tumulto de ideias e sentimentos que me habitam desde que encerrei a leitura de Patria, estruturar a correspondente opinião e render assim a minha humilde homenagem a uma narrativa que recomendo encarecidamente que conheçam.
No dia 21 de outubro de 2011, a ETA declara o fim da luta armada e é exatamente nesse dia histórico para o País Basco (como me custa escrever “Basco” com “b”!...) que arranca a narrativa de Patria. É a partir desse dia de outono que nos adentramos na vida e nas casas de duas famílias simples, que poderiam ser perfeitamente meus vizinhos e que, após anos de uma amizade sólida, vivem há bastante tempo de costas voltas porque a luta armada e as suas escolhas assim o determinaram.
Las pintadas contra el Txato le quitaron a Joxian el apetito. Y también le privaron de su mejor amigo. Porque en un ciudad, pase; pero en el pubelo, donde todos nos conocemos, tú no puedes tener trato con un señalado.” (pág. 332)

Porque soy tan cobarde como él y como tantos otros que a estas horas, en mi pueblo, estarán diciendo bajito para que no les oigan: esto es una salvajada, un derramamiento inútil de sangre, así no se construye una patria. Pero nadie moverá un dedo. A estas horas ya habrán limpiado la calle con una manguera para que no quede rastro del crimen. Y mañana habrá murmullos en el aire, pero en el fondo todo seguirá igual. La gente acudirá a la siguiente manifestación a favor de ETA, sabiendo que conviene dejarse ver en la manada. Es el tributo que se paga para vivir con tranquilidad en el país de los callados.” (pág. 462)

Joxian e el Txato (de quem nunca chegamos a saber o verdadeiro nome, só esta alcunha) são amigos de uma vida. Partilham segredos, ninharias do dia-a-dia e todos os domingos saem de passeio de bicicleta com outros vizinhos e chegam inclusive a fazer competições amadoras de ciclismo. As suas mulheres, Miren e Bittori também se conhecem há imenso tempo e partilham tudo uma com a outra. Joxian casa-se com Miren e Bittori com el Txato. Vivem os quatro a poucos metros uns dos outros numa vila pequena, não muito longe de San Sebastián. O primeiro casal são pais de três filhos, o segundo de dois. A normalidade e a rotina determinam as suas existências até que, por um lado, el Txato começa a receber cartas que lhe exigem que contribua monetariamente para a luta pela independência do País Basco e, por outro, um dos filhos de Joxian – Joxe Mari – se envolve cada vez mais com o braço armado dessa luta. El Txato acede a dar uma primeira contribuição, mas recusa-se a dar uma segunda. Esta recusa será o passo inicial para o que culmina no seu assassinato, em plena rua, a poucos passos de casa. De nada lhe valeu a mudança de hábitos, horários e uma atenção redobrada. De nada lhe valeu ignorar insultos escritos nas paredes da sua terra natal. De nada lhe valeu tentar manter-se íntegro, fiel aos seus princípios de homem e basco honrado. De nada lhe valeu ver-se privado de uma amizade toda a vida. Foi ostracizado por não querer contribuir para a independência da sua terra, foi ostracizado por querer viver tranquilamente e não seguir a manada numa terra em que, se não te mostras a favor da luta pela independência, és o pior dos inimigos e mereces morrer por tal.
Esta é a base de Patria, mas a obra é muito mais do que isto. É um retrato que considero muito fidedigno do quanto o medo, a violência e o radicalismo de um grupo armado levaram a extremos um desejo compreensível de um povo de ser independente de outro com quem não tem afinidades linguísticas, históricas e sociais. É o espelho do quanto um punhado de gente radicaliza a sua vontade e se assume como a voz totalitária de todos os que vivem para lá das fronteiras da terra que eles consideram ser Basca. E é sobretudo a representação literária de duas famílias que cortam totalmente relações, porque assim o exigem os outros, os vizinhos, a sociedade, a História. Metem numa gaveta anos e anos de convivência, de cumplicidade, porque ou se acham cobardes e deixam de partilhar passeios dominicais de bicicleta ou se mostram indignados com tal afronta à vontade independentista e rompem com os lanches de sábado na pastelaria do costume ou se transformam nos mais ávidos defensores da luta armada apenas porque é um orgulho ser progenitora de um jovem etarra. Nove vidas estreitamente ligadas pela amizade e companheirismo rompem esse laço umbilical porque, de um lado, está um traidor à pátria basca e, do outro, está um lutador acérrimo pela sua independência.
Ao longo das mais de seiscentas páginas seguimos de muito perto essas nove vidas, mesmo a de el Txato que sabemos, desde as linhas iniciais, ter sido assassinado entretanto. Saltamos do presente para o passado em capítulos muito curtos protagonizados por um ou mais das referidas nove personagens. Compreendemos que a narrativa está estruturada como se fosse um puzzle, cujas peças vamos encaixando à medida que a leitura avança. Porém, e por muito que seja viciada em quebra-cabeças, reconheço que este que arquitetou o autor está não só muito bem desenhado, como também não é de difícil montagem para nenhum leitor, mesmo para aqueles que torcem o nariz a calhamaços, já que a leitura flui maravilhosamente bem e quando damos por ela, já estamos a terminá-la.
A mestria de Fernando Aramburu também se revela na construção das personagens, nas suas atitudes, nos seus sentimentos, nas suas personalidades e nos diálogos que mantêm com outros e consigo mesmos. Estão de tal forma maravilhosamente construídas que as sentimos próximas, vivas, reais e nada, nada artificiais. É, como tal, óbvio que tenha criado laços com todas elas. Laços muito fortes e distintos. Laços caracterizados pela admiração, pela compaixão, pela simpatia, pela ternura, pela compreensão e pela revolta, pela aversão, pela antipatia, pela incompreensão e pela discordância. Absorvi-me tão absolutamente em todas elas que me apeteceu esbofetear inúmeras vezes Miren, abanar e acordar Joxian para a realidade e abraçar Xabier e recordar-lhe de que ele tem direito a ser feliz. Mas, como na vida, nem tudo pode ser visto de forma extrema, nem tudo é preto e branco e fui incapaz de sentir apenas um tipo de sentimentos por todas as nove personagens. Quem me diz a mim que, como mãe, não atuaria como Miren perante o seu filho Joxi Mari?
Para terminar esta opinião que já vai longa (e que longa… parece que, afinal, estou a ser capaz de pôr no papel tudo o que queria), quero partilhar convosco um paralelismo que me veio à cabeça muitíssimas vezes ao longo da leitura – não consigo conceber o porquê de uma luta armada e extremista. Simplesmente não consigo. Contudo, sempre me recordo que, por detrás, desse extremismo armado e terrorista está um sonho, uma vontade, um querer compreensível, como aquele que conheci quando vi pela primeira vez o filme Diarios de Motocicleta, que nos relata uma viagem que um jovem médico (mais tarde conhecido como Che Guevara) empreende por vários países sul-americanos e que o faz perceber o quanto todas aquelas terras e aqueles povos foram torturados e espezinhados por séculos e séculos de um colonialismo bárbaro. Do sonho de tornar todo aquele território num só, unido e determinado a ser dono de si mesmo, resultou aquilo que sabemos – derrame de sangue e perdas de muitas e muitas vidas.
Patria já foi publicada em português, sob a chancela da Dom Quixote. Assim sendo, posso recomendá-la a todos, já que não será a língua espanhol a impedir nenhum leitor de conhecê-la e de amá-la tanto como eu a amei!
Deixo-vos o link do vídeo onde poderão ver Fernando Aramburu e a apresentação do seu livro aos leitores portugueses:



NOTA – 10/10

Sinopse
Tras el anuncio de ETA del abandono de la lucha armada, Bittori visita la tumba de Txato, su marido, asesinado por terroristas, para anunciarle que regresará a la casa en la que vivieron.
¿Podrá convivir con quienes la acosaron antes y después del atentado que trastocó su vida y la de su familia? ¿Podrá saber quién fue el encapuchado que un día lluvioso mató a su marido, cuando volvía de su empresa de transportes? Por más que llegue a escondidas, la presencia de Bittori alterará la falsa tranquilidad del pueblo, sobre todo de su vecina Miren, amiga íntima en otro tiempo, y madre de Joxe Mari, un terrorista encarcelado y sospechoso de los peores temores de Bittori. ¿Qué pasó entre esas dos mujeres? ¿Qué ha envenenado la vida de sus hijos y sus maridos tan unidos en el pasado?

Balanço mensal - livros lidos e recebidos em março



Março foi o primeiro mês ao qual dediquei um tema. Nunca o tinha feito aqui no blogue e decidi fazê-lo após ter visto em vários blogues que vou seguindo a sugestão maravilhosa de fazer de março um mês de leituras apenas femininas, ou seja, leituras de obras escritas por autoras.
Pus mãos à obra e nos primeiros instantes do mês anotei no meu caderninho as obras que tencionava ler – três da minha estante e duas que viriam da biblioteca. A estas cinco acabou por juntar-se uma mais, também ela vinda da biblioteca municipal.
A contadora de histórias, de Jodi Picoult foi a que arrancou o mês temático. Foi apenas a segunda obra que li desta autora, mas proporcionou-me uma experiência bem mais interessante e proveitosa do que a sua antecessora. Relata-nos a história de Sage Singer e de Josef Weber. Ela é uma jovem padeira, em processo de luto pela morte da sua mãe e conhece Josef num grupo de apoio a enlutados. Os dois tornam-se amigos e é com base nessa amizade que ele lhe pede que Sage o ajude a morrer, porque está na hora de terminar uma longa vida de culpa, de horror, de crimes e mortes. A premissa é, como podem comprovar, muito entusiasmante e conduziu-me a uma leitura ávida e empolgante que apenas perdeu algo desse empolgamento no seu desenlace, pois custou-me a engolir o final que a autora reservou para Sage. Contudo, atribuí-lhe ainda assim uma nota quase perfeita – 09/10.
A segunda leitura foi uma que já me esperava há mesmo muito tempo na estante. E caramba, a espera valeu mesmo a pena, pois adorei de paixão conhecer a escrita envolvente e poética de Marlene Ferraz e saborear com uma sofreguidão propositadamente controlada A vida inútil de José Homem! É uma obra curtinha, mas contém tudo o que é necessário para marcar-nos e ficar connosco! Dei-lhe nota máxima pela escrita que me confortou, pelas personagens imperfeitas mas inesquecíveis e por fragmentos e citações que não me abandonarão!
A herdeira dos olhos tristes, de Karen Swan, trouxe uma lufada de leveza e ligeireza às leituras de março. Não me foi nada difícil entrar na sua narrativa, viajar por várias partes do mundo, viver durante uns dias na lindíssima (e algo caótica) cidade de Roma e conhecer duas mulheres fascinantes, com segredos que querem a todo o custo ocultar dos demais. Em quatro dias devorei 460 páginas e no final senti que não tinha perdido o meu tempo. Pelo contrário, senti que esta leitura tinha vinda na altura certa – não só quebrou uma série de leituras mais densas e com temáticas mais pesadas, como também me ajudou a suportar uma segunda metade do mês sufocante. Atribuí-lhe a nota de 08/10.
Da biblioteca veio Jane Eyre, de Charlotte Brontë. É óbvio que a história desta protagonista não me era desconhecida, mas só há pouco tempo é que me tinha apercebido de que nunca havia lido a sua história integral, que a obra que tinha – e tenho – em casa é uma adaptação juvenil e, como tal, mais curta, com supressões de partes talvez menos importantes. Ora, esta leitura integral foi outra das experiências perfeitas que me reservou o mês de março. Deliciei-me com o recuo no tempo, com a diferença de estilos de escrita que claramente existe entre um autor ou autora do século XIX e um ou uma do século XXI e acima de tudo com a protagonista. Jane Eyre é uma mulher do caraças e, se pensarmos que é uma mulher do caraças no seu tempo, ainda o é mais se fizermos a indispensável comparação entre ela e alguém do sexo feminino dos nossos tempos! Nota máxima, sem dúvida!
Também da biblioteca trouxe uma recomendação da Bárbara. Tanta gente, Mariana permitiu-me entrar pela primeira vez no mundo literário de Maria Judite de Carvalho e entabular uma viagem por oito contos prenhes de solidão, de dor, de sonhos gorados e de muita, muita desesperança. Como buscadora ávida de leituras que me tragam emoções fortes, que me abanam, só posso dizer que gostei imenso desta experiência leitora e que quero ler mais da autora. Dei-lhe um 09/10, apenas porque nem todos os contos têm a força e o impacto que tem aquele que dá título à obra.
A última leitura do mês foi também uma recomendação e veio de impulso da biblioteca. Falo-vos de Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo, que me levou de novo à África colonial, desta vez a Moçambique e me possibilitou saber mais sobre a infância e adolescência da autora, já que a obra é autobiográfica. Senti-me inevitavelmente chocada com a acidez e a crueza da linguagem da narrativa, com a forma como a autora parece precisar deitar cá para fora tudo aquilo que preenche o Caderno, mas ao choque seguiu-se o contentamento, pois é destas leituras que ando sempre à procura, de leituras fortes, controversas e que são um reflexo da vontade de pôr o dedo na ferida (pessoal e social) e escarafunchar na mesma. Mais uma vez não atribuí mais do que um 09 a esta experiência porque sou uma picuinhas e achei desnecessária a inclusão na obra de cinco posts (provenientes do blogue pessoal da autora) e que pouco ou nada têm a ver com a temática das memórias coloniais.
Seis leituras femininas e excelentes. Duas leituras perfeitas, três às quais atribuí um 09 e uma a que dei um 08. Que mais poderia eu querer? Esta primeira experiência temática foi tão, tão proveitosa e suculenta que me vi obrigada a seguir com ela para abril que, como já devem saber, está a ser o mês da literatura espanhola!

Antes de terminar este balanço, refiro que voltei a não pecar em março. Não comprei nenhum livro para mim, embora tivesse que morder-me todinha muitas vezes e aguentar-me estoica, firme, sempre que entrava numa livraria! Sendo assim, o único livro novo que caiu na estante foi um presente de Páscoa do meu querido afilhadinho! Obrigada, Gonçalinho, tu sabes o quanto os olhos da madrinha brilharam quando desembrulhei o presente e vi que era A resistência, de Julián Fuks! AMEI!!!

Termino deixando-vos, como é habitual, os links para acederem à opinião completa das obras lidas em março:
§  A contadora de histórias, de Jodi Picoult
§  A vida inútil de José Homem, de Marlene Ferraz
§  A herdeira dos olhos tristes, de Karen Swan
§  Jane Eyre, de Charlotte Brontë
§  Tanta gente, Mariana, de Maria Judite de Carvalho
§  Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo

E vocês, que leram? E que pretendem ler em abril? Fico à espera das vossas respostas!

Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo



Ficha técnica
TítuloCaderno de Memórias Coloniais
Autora – Isabela Figueiredo
Editora – Angelus Novus Editora
Páginas – 160
Datas de leitura – de 30 de março a 01 de abril de 2018

Opinião
A última leitura de março foi, tal como a sua antecessora, uma recomendação. Assim, quando fui à biblioteca fornecer-me de leituras femininas acabei por trazer mais uma, pois “great minds thinke alike” e nunca me arrependo de seguir as tuas recomendações, Paula!
Como sabem, gostei imenso de O retorno, de Dulce Maria Cardoso e não me importei nadinha de voltar a territórios africanos (bom… só assim irei a África, em viagens literárias, pois só de pensar em lá pôr os pés, fico com taquicardia, mas isso são pormenores que ficarão para outra altura…) e recuar aos anos 60 e 70 para conhecer outra família, outra história de gente que teve que deixar para trás uma existência abastada numa colónia e fugir para a metrópole após a independência de Moçambique.
Esta, ao contrário da história que preenche a narrativa de O retorno, é a história da própria autora, do seu nascimento em terras moçambicanas, da sua infância e adolescência passadas em Lourenço Marques (atual Maputo) e da vinda para Lisboa por uma questão de sobrevivência. Nestes Cadernos de memórias coloniais, que Isabela Figueiredo sentiu que tinha que escrever e publicar, ela expõe, numa linguagem crua, gráfica e ácida, o que recorda desses tempos. Mas não é apenas uma mera exposição descritiva e cronológica. É muito mais do que isso.
O livro está dividido em três partes – o caderno das memórias, uma compilação de cinco posts que a autora publicou no seu blogue e uma entrevista à mesma e que é um excelente complemento à leitura do Caderno. Vou centrar esta opinião na primeira e na terceira partes, já que foram as duas que ficaram comigo e que são o perfeito exemplo da qualidade exímia da escrita de Isabela Figueiredo.
O Caderno é autobiográfico e por isso ainda mais avassalador, pois sentimos, desde as palavras iniciais, que Isabela precisou de abrir a alma, escarafunchar feridas pessoais e histórico-sociais para fazer justiça a si mesma, para ajustar contas com o homem que mais amou e odiou na vida e para abordar sem filtros, com uma verdade que não é bonita, uma época da nossa História recente que os politicamente corretos nos pedem para guardar com discrição numa gaveta.

O meu pai, a quem coube a missão de electrificar a Lourenço Marques dos anos 60, nunca quis empregados brancos, porque teria de lhes pagar os olhos da cara.”

O negro estava abaixo de tudo. Não tinha direitos.”

Esta era a ordem natural e inquestionável das relações: preto servia branco e branco mandava no preto. Para mandar, já lá estava o meu pai; chegava de brancos!

Que aquele paraíso de interminável pôr-do-sol salmão e odor a caril e terra vermelha era um enorme campo de concentração de negros sem identidade, sem a propriedade do seu corpo, logo sem existência.”

A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias, tão pequeninos e estúpidos e atrasados e alcoviteiros. Feios, cheios de cieiro, e pele de galinha, as extremidades do corpo rebentadas de frio e excesso de toucinho com couves. Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho, que tínhamos de trabalhar, os preguiçosos de merda, que nunca fizeram a ponta de um corno pela vida, que nunca souberam o que era construir uma vida e perdê-la, os tristes, os pequeninos, os conformados. Sabiam lá eles o que eram os pretos, e o que éramos nós e o que tínhamos acabado de viver, cobardes filhos de uma puta brava.

Os desterrados, como eu, são pessoas que não puderam regressar ao local onde nasceram, que com ele cortaram os vínculos legais, não os afectivos. São indesejados nas terras onde nasceram, porque a sua presença traz más recordações. Na terra onde nasci seria sempre a filha do colono. Haveria sobre mim essa mácula. A mais que provável retaliação. Mas a terra onde nasci existe em mim como uma mácula impossível de apagar. Persigo oficiais marinheiros que trazem escrita, na manga do casaco, a palavra Moçambique.”

As cento e sessenta páginas que li em dois dias são, como se pode comprovar pelos excertos que aqui deixo, uma bofetada dolorosa e muito bem dada. A ela não escapam colonos, retornados e nem a gente tristinha da metrópole. E tão-pouco escapa o pai de Isabela, o homem que ela mais amou e mais odiou, o homem que a levava para todos os lados, que a encavalitava nos seus ombros, que a deixava provar uns resquícios da sua bebida alcoólica e o homem que constantemente insultava e explorava sem escrúpulos os pretos. Um pai terno, brincalhão, mas um homem violento, preconceituoso e racista. Um homem que amou desmedidamente e ao mesmo tempo odiou.
Foi uma leitura desgastante, mas não a trocaria por outra. Admiro ainda mais a autora que já conhecia da obra A gorda. Admiro a sua frontalidade, a sua valentia e a sua vontade de contar a verdade, a sua verdade, mas que acaba por ser a verdade de muitos outros. Tenho consciência de que deve ter sido horrível a luta que travou consigo mesma quando iniciou este projeto que escancara as portas da sua vida e dos seus familiares a quem queira entrar nelas. Por isso, como leitora, tenho apenas que lhe agradecer (e muito), pois nunca soube de perto como terá sido a fuga de uma colónia, muitas vezes apenas com a roupa do corpo e pouco mais, e lendo o seu Caderno consegui compreendê-lo melhor, aprender e crescer como pessoa. Obrigada mesmo, Isabela!
Caderno de Memórias Coloniais foi reeditado pela Editorial Caminho em 2015 e merece que o leiam, pois não se vão arrepender! Eu recomendo-o vivamente!

NOTA – 09/10 (na minha opinião, os 5 posts que compõem a segunda parte da obra são dispensáveis, pois pouco ou nada têm a ver com a temática colonial…)


Sinopse
«O Caderno de Memórias Coloniais relata a história de uma menina a caminho da adolescência, que viveu essa fase da vida no período tumultuoso do final do Império colonial português. O cenário é a cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, espaço no qual se movem as duas personagens em luta: pai e filha.» Isabela Figueiredo, in «Palavras prévias»

Tanta gente, Mariana, de Maria Judite de Carvalho



Ficha técnica
TítuloTanta gente, Mariana
Autora – Maria Judite de Carvalho
Editora – Ulisseia
Páginas – 158
Datas de leitura – de 28 a 30 de março de 2018

Opinião

Sinto-me só, mais do que nunca, ainda que sempre o tivesse estado.
Sempre.” (pág. 19)

Antes de redigir esta opinião, quis conhecer um pouco melhor esta autora que até há bem pouco tempo desconhecia por completo. Fiquei a saber que não teve uma infância feliz, que perdeu a mãe e o irmão quando era muito pequenina e que esteve casada com um dos nossos homens das letras mais influentes – Urbano Tavares Rodrigues –, por quem sempre tive uma empatia muito grande, nascida apenas e só por causa do seu sorriso e da sua afabilidade. Vi algumas das suas fotografias e outros exemplos da sua bibliografia. E não consegui conter as lágrimas ao confrontar o que a internet me mostrou com os excertos que fui anotando no meu caderninho, dos quais aquele que deixei no início desta opinião é um exemplo claramente doloroso e taxativo do sentimento que percorre a obra Tanta gente, Mariana.
Parti para a sua leitura quase às escuras. Fi-lo de propósito. Aceitei sem hesitar a sugestão da Bárbara, do blogue I keep making these to-read lists and nothing gets crossed out, trouxe o livro da biblioteca e só me dei conta de que ele era uma coletânea de contos e não um romance quando já estava embrenhada na leitura daquele que lhe dá título e que é, sem dúvida, o melhor de todos os oito que compõem a obra.
Tenho consciência de que não irei ser capaz (pelo menos não totalmente) de pôr em palavras o impacto que tiveram em mim todos os contos, sobretudo o da Mariana, uma mulher com apenas trinta e seis anos e que se sente velha, gasta, abandonada, acompanhada apenas por uma solidão muito, muito só e que se encontra num quarto arrendado à espera de uma morte já anunciada – “É o meu fim, o único. (…) Pela primeira vez alguém me vem buscar, alguém me procura. Por que não hei-de estar feliz, eu, a escolhida?” (pág. 68)
É impossível alguém pôr os olhos neste excerto e não se sentir encolhido de estupor, não sentir-se abalroado pelo mundo e não querer desesperadamente estender a mão e mitigar, dessa forma, a dor e a solidão de uma mulher que, aos quinze anos, ouve da boca do seu próprio pai algo tão cru como – “Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode.” (pág. 20) De um soco destas proporções ninguém consegue recuperar. Como poderia?
Todo o conto é deveras avassalador e uma bofetada que quase nos arranca a cabeça. Concordo com todos aqueles que referem que ninguém escreve sobre a solidão como o faz Maria Judite de Carvalho. A sua escrita, onde reina o monólogo interior e uma fria consciência de quem somos e daquilo que nos rodeia, fere como um punhal e, por muito que me tenha sentido trespassada, adorei a experiência, já que eu, como bem sabem, busco de forma obsessiva a dor literária, principalmente porque aprendo muito com ela e saio de cada leitura mais conhecedora e atenta.
Quanto aos outros sete contos, são todos bem mais pequenos que o que abre a obra homónima. São protagonizados por homens e mulheres cujas vidas se assemelham, também elas, a um beco sem saída, esburacado de dor, de perda, de oportunidades não concretizadas e de desesperança. Não me avassalaram como o de Mariana, mas, mesmo assim, destaco o que se intitula “A vida e o sonho”, no qual Adérito vive uma existência da qual não detém a chave. Tudo é medíocre, o casamento, o emprego. Só sentimos uma centelha de vida no prazer escondido que leva a cabo todos os domingos. Mas nem a esse prazer ele abre os braços de forma completa. E mais não digo, para não estragar a leitura daqueles que, futuramente, possam, tal como eu, querer conhecer esta obra e esta escritora magníficas, que merecem o reconhecimento de todos nós.
Agradeço muito, muito à Bárbara a recomendação e espero ter respondido convenientemente às suas expectativas. Entrei pela porta grande no mundo de Maria Judite de Carvalho e tenciono continuar a privar com as suas histórias. Agora resta-me fazer o que fez a Bárbara – seguir com a corrente e recomendar vivamente que leiam Tanta gente, Mariana, pois a viagem que farão nesta coletânea é imprescindível. É dolorosa, mas única!

NOTA – 09/10 (Se todos os contos fossem como o da Mariana e o do Adérito, daria a toda a obra nota máxima)

Sinopse
Uma mulher, Mariana, descobre que vai morrer. Só, no seu quarto, passa em revista toda a sua vida. Desde o falecimento prematuro da mãe ao carinho extremo e triste do pai. Entre alegrias e tristezas esta é uma análise implacável da solidão dos tempos modernos em que, mesmo rodeados pelos outros, nos fechamos em nós.